Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 51 de 57

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Mão de Ferro

O último refúgio

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GEORGE DISSE:

— Como é que isso vai funcionar?

A cena era, no mínimo, curiosa: uma carruagem conduzida pela Rainha dos Britânicos Antigos, ao lado de um Artilheiro da Primeira Guerra Mundial, galopando em direção a dois espelhos pequenos que estavam sendo segurados, em paralelo, pelas filhas da Rainha.

— Quando eu tocar os espelhos, iremos atravessá-los — disse a Rainha, baixando a lança.

Os espelhos eram incrivelmente pequenos, e quando eles se aproximaram, a rainha tentou espetá-los com a ponta da lança... Mas errou.

Olhando para o Artilheiro e o Oficial, George disse:

— Não temos tempo para praticar tiro ao alvo.

A Rainha fez o retorno com tanta velocidade, que a carruagem virou em uma só roda. George e o artilheiro só tiveram tempo de se segurar, para evitar que fossem arremessados na grama. Então a roda voltou para o chão com violência, e a Rainha seguiu para os espelhos novamente.

O Artilheiro disse:

— Agora vai.

Os espelhos se aproximaram novamente, e as filhas nem piscaram quando as lâminas das rodas passaram centímetros de seus joelhos, e a Rainha cravou a lança — errando outra vez.

— A terceira tentativa é a que vale — disse ela, controlando os cavalos em outra curva fechada.

— Não temos mais tempo a perder! — disse George, ao pular da carruagem. E ouviu o grito do Artilheiro chamando por ele, mas ignorou e continuou correndo em direção às filhas da Rainha.

Elas olharam para ele em choque.

— Como isso funciona? — disse ele, segurando o martelo com força.

A filha à sua direita disse:

— Apenas se aproxime de qualquer um dos espelhos. Estão posicionados para levá-lo diretamente ao Caminhante.

George não parecia acreditar que aquilo funcionaria, mas se lembrou de como tinha visto o Caminhante entrar nos espelhos e puxar o Artilheiro com ele; e então pensou em Edie, e a urgência desse pensamento fez com que ele se aproximasse e entrasse no espelho.

Ele sentiu sua tensão superficial desaparecer e começou a cair por diversas camadas de escuridão, que o fizeram sentir enjoo e vertigem. Sua descida terminou abruptamente, por fim caiu de bruços no gelo, com a boca cheia de neve.

George olhou para cima e viu a parede escura de um barco que tinha congelado no gelo. Depois se virou e enxergou, a uns cem metros de distância, as luzes do Carnaval no Gelo, e um desfile com um elefante branco no centro, passando pela rua repleta de tendas.

Ele tinha deixado cair o martelo, então começou a tatear a neve à procura dele. Ao descobrir seu paradeiro, percebeu um estalo vindo de trás, e o artilheiro apareceu do nada, olhando para George com um breve sorriso.

— Ela vai levar um século para passar.

— Não podemos esperar para sempre — disse George, pondo-se de pé e apontando na direção do Carnaval. — O elefante já está lá.

E começou a mover-se para frente. Mas a mão do artilheiro o deteve.

— George. Eu quebrei meu juramento. O Caminhante tem controle sobre mim. Ele usou seus poderes e eu não consegui controlar meus braços.

— O quê? — disse George, com os olhos vasculhando entre a multidão distante, procurando por Edie.

— Tenho medo que ele me obrigue a fazer algo ruim...

O Artilheiro parecia envergonhado.

— Deveria ter deixado que o Oficial viesse em meu lugar.

George disse prontamente:

— Não. Alguém precisava ficar e proteger nossa retaguarda. Alguém tem que estar pronto para eliminar o Caminhante.

— Sim, mas...

— Chega disso — retrucou George, apressando o passo. Ele tinha visto Edie. — Só não deixe que ele veja você primeiro.

E então começou a atravessar a extensão do gelo coberto de neve em direção a Edie, que estava se distanciando da multidão. Ele gritou enquanto corria, tentando chamar sua atenção.

— Edie! Aqui!

Ela não conseguiu ouvir o chamado. Talvez porque estivesse atrapalhada com um gorro que alguém a tinha feito usar.

O Artilheiro também começou a correr. Ele viu quando o Caminhante irrompeu da multidão a passos largos. Viu quando ele se virou e gritou com algo na escuridão do outro lado do rio. Ouviu as palavras:

— Pegue a garota, Ícaro! Onde está o Touro? Peguem a maldita garota!

O Artilheiro viu o que ia acontecer antes que George percebesse. E seguiu para o lado do rio, onde os barqueiros do Tâmisa tinham aberto um largo canal entre a costa e o gelo, para que pudessem continuar cobrando pela travessia. Lá, ele viu um pai corpulento reclamando sobre o preço da passagem, enquanto sua filha, repleta de fitas e laços, pulava animadamente e apontava para o gelo do outro lado. Sua voz era afiada o suficiente para superar o som de gaitas de fole e tambores e chegar aos ouvidos do Artilheiro:

— Papai, papai, por favor, pague logo pra ele! Vamos, antes que vá embora! O elefante...

Quando George ouviu aquela voz, lembrou-se de Edie dizendo que tinha deixado de ver algo por causa do elefante, e levantou as mãos como um megafone e gritou:

— Edie, não olhe para o elefante!

Então tropeçou em uma pequena montanha de gelo, mas antes que caísse foi visto por Edie. E quando ela estava prestes a gritar de volta, o Caminhante a pegou por trás e ambos caíram no gelo. Edie chutou, bateu e mordeu como um gato selvagem, sem hesitação, como qualquer animal selvagem lutando por sua vida. Ela desferiu a pedra do coração da Mulher Cega no olho bom do Caminhante. Ele conseguiu fechar os olhos e baixar a cabeça bem a tempo, mas a luz da pedra fez com que ficasse temporariamente cego.

Ele gritou:

— Agora você vai morrer, menina!

Ela chutou o queixo dele, que caiu para trás. Depois ela se levantou e saiu correndo, enquanto ele a fulminava com seu olhar frio e vingativo.

O Caminhante puxou a longa adaga do bolso do casaco e correu atrás dela.

Edie estava atrapalhada com o gorro que tinha sido pressionado contra o seu rosto durante a luta.

Ela estava tão bombeada pela adrenalina da luta, que não percebeu o enorme buraco cheio de água gelada bem à sua frente.

Seu pé pisou na água em vez do gelo duro e ela foi lançada para a frente, direto para o buraco. O choque do frio e da água na boca foi imediato. Ela lutou contra a água gelada do Tâmisa e seus dedos agarraram a borda do gelo à medida que tentava sair do buraco. Seu rosto encontrou o ar, mesmo coberto por cabelos espessos, e ela acabou se lembrando de que deveria estar vendo tudo isso de um futuro distante. Ela gritou um aviso para si mesma, enquanto tentava escapar do alcance gelado da água.

— Edie. O Frade está bem! Não confie em Pequena Tragédia! Ele não é o que parece! Diga a George que o Caminhante está tentando libertar o mal...

E então uma mão se estendeu e agarrou seu cabelo. Só que não era para salvá-la, mas para afogá-la. Tudo que se via eram bolhas, respingos e água preta. Então ela se soltou por um instante e buscou o ar; e usou suas últimas palavras para tentar completar seu aviso.

— ... Portões nos espelhos...

A mão do Caminhante empurrou o gorro contra o rosto dela novamente e mergulhou sua cabeça para dentro da água pela última vez. Edie continuou gritando enquanto seus pulmões enchiam de água, e a última coisa que viu, à medida que afundava na escuridão, foi o rosto do Caminhante, iluminado pela distante luz vermelha que caía sobre ela pelo emaranhado flutuante de seu próprio cabelo.

E nesse último momento terrível, ela sentiu falta de tudo.

Tudo passou rápido em sua mente, como um flash. Sua infância triste, os conhecimentos que tinha adquirido sozinha e que a ajudaram a sobreviver em um mundo hostil. A fragilidade. A impotência. A cada segundo sua indignação aumentava. Ela queria uma chance para recomeçar. Queria sua mãe de antes, antes de ficar estranha, antes de enlouquecer, antes de ir embora e nunca mais voltar... Mais do que qualquer coisa, Edie queria o primeiro e único santuário de uma criança, o verdadeiro refúgio do coração — o abraço de sua mãe, cujo calor a confortaria e lhe diria sem palavras que tudo ficaria bem, que a dor de hoje desaparecia e que amanhã o sol voltaria a brilhar.

Porém, à medida que seus olhos fechavam e a escuridão congelante caía sobre ela, seu último e desesperado pensamento foi saber que nunca teria nada disso.

E então, Edie morreu.