Mão de Ferro
O cerco no céu
31
QUANDO GEORGE DESLIZOU desordenadamente pela claraboia molhada e foi lançado para o vazio, seguiu-se uma breve ausência de peso no ar, que gerou um sentimento doentio de descrença à medida que seu mundo silenciava.
Então a gravidade fez o seu papel e “por sobre o teto” tornou-se “para baixo em direção ao chão”.
George tinha ouvido falar que pessoas ao caírem de prédios altos perdiam a consciência antes de baterem no chão. Fora durante uma conversa com outras crianças enquanto brincava em um playground. Falaram também sobre afogamento — de como era suave no final. George não entendia como as pessoas sabiam dessas coisas. Pois não era possível perguntar aos mortos o que eles haviam sentido ao morrer.
George atravessava o ar como um avião descontrolado em queda livre, observando o teto de vidro ondulado da estação ferroviária cada vez mais próximo, anunciando um pavoroso fim.
Ele não perdeu a consciência. Nos poucos segundos de queda livre, sua mente permaneceu tão clara quanto os painéis de vidro aos quais estava prestes a bater. A vida não passou diante dos seus olhos. Ele não teve um momento de alívio, de unidade com o universo. Apenas se sentiu sozinho. Cruel e miseravelmente sozinho. Só teve tempo de pensar em como tudo tinha sido um terrível desperdício, pois ele não soubera dar valor a um milagre tão precioso e extraordinário como a vida. Sentiu-se envergonhado com o pouco que fizera ou deixara de fazer até aquele dia.
Ele se perguntou se aquela mesma dor terrível tinha castigado seu pai no momento do acidente que o matara — e, em seguida, enquanto acelerava em direção ao impacto, seus últimos pensamentos passaram a ser tristes certezas: que seu pai tinha sentido tudo aquilo e seu último pensamento fora em George, e que a dor que ele tinha sentido nesse momento foi imensurável.
George tinha certeza disso da mesma forma que reconhecia o próprio remorso. Após o acidente, George tinha ido dormir todas as noites desejando apenas ter conversado com o pai uma última vez. E então pensou em sua mãe e lembrou-se dos bons tempos e das risadas. Percebeu, pouco antes do impacto, que ela agora teria que passar o resto da vida com a dor de não ter conversado com ele uma última vez. A dor súbita devido a isso foi pior que a própria queda.
O impacto não foi tão ruim.
Uma tonelada de arenito que desceu em um ângulo raso amorteceu o choque e o envolveu, nivelando a trajetória de descida e desacelerando a velocidade de impacto. George perdeu a consciência por um microssegundo. Em seguida, abriu os olhos e viu a asa que batia sobre ele, e também a fenda remendada. Virou a cabeça e deu de cara com a Bica.
— Gack!
— Olá, Bica — disse George, tentando segurar uma ridícula e inadequada onda de risos histéricos que estava subindo pela garganta. — Temos que parar de nos encontrar assim...
A Bica esquivou-se de repente. Uma gárgula grande lançou uma garra, e depois uma segunda garra foi arremessada de cima. A Bica só conseguiu evitar a colisão porque voou rápido para o lado do edifício e apoiou-se contra um andaime. No reflexo, George agarrou um cinto de segurança de plástico que estava preso àquela estrutura. A Bica evitou outro ataque com um grunhido, depois virou-se e lançou uma garra contra George.
Por um momento, ele pensou que a criatura tinha perversamente salvo sua vida apenas para ter a satisfação de decapitá-lo. Mas a garra passou zunindo sobre ele e abriu um buraco no cinto em que se segurava. E antes que conseguisse entender o que estava acontecendo, a Bica o agarrou e o arremessou para a provisória segurança do terraço mais próximo. Ele esparramou-se sobre o assoalho lascado, mas conseguiu virar-se a tempo de ver a Bica enfiando a cabeça para dentro.
A boca da grande pedra se abriu e produziu a primeira palavra clara até então:
— Siga.
George ficou surpreso por conseguir entendê-la.
— Você está dizendo “siga”?
A Bica sinalizou com firmeza. Um olho vigiando o céu sobre ela.
— Siga. Maunguefego. Siga!
E George entendeu.
— Maunguefego? Você está tentando dizer Mão de Ferro! Mas você só faz “gs”. Você está me chamando de Mão de Ferro!
A Bica expirou fortemente e girou os olhos antes de ser brutalmente arrastada de volta para a escuridão por uma gárgula que caiu sobre ela, puxando-a pelo pescoço.
George não perdeu tempo se perguntando por que ela tinha resolvido falar. Decidiu apenas que qualquer lugar seria melhor do que ficar onde estava.
Era hora de agir.
Havia várias gárgulas esmurrando a rede de proteção do andaime. A visão foi o suficiente para fazê-lo buscar um local de tijolos sólidos. Correu ao longo da passarela aérea, tentando encontrar uma janela aberta à medida que passava. Depois de quatro janelas fechadas, encontrou uma aberta.
Ele saltou cegamente para dentro de um quarto escuro repleto de madeiras e bancadas, e ao ver uma porta correu em sua direção.
Assim que saiu pela porta, alguma coisa o agarrou de forma envolvente. Por um breve momento, acreditou que fosse um monstro infernal, mas quando conseguiu se desvencilhar percebeu que tinha apenas se enroscado em folhas de plástico que pendiam do teto. Pouco depois, chegou a um longo corredor escuro. Foi dar um passo e tropeçou, seu pé — aquele sem sapato — foi de encontro a um trecho de madeira podre, e ele acabou se esborrachando em uma superfície áspera logo abaixo.
Olhou para os lados, estava cercado pela escuridão. Em seguida, levantou-se e caminhou o mais rápido possível para frente, desviando dos longos buracos no chão — na esperança de encontrar logo uma escada. Pensou estar ouvindo asas e garras de pedra movimentando-se pelo andaime que ficava em paralelo com a sala onde estava. Tinha quase certeza de ter ouvido grandes punhos de pedra batendo nas janelas perto dele.
George bateu acidentalmente contra um banco e algo pesado estatelou-se no chão.
Era um martelo grande e pesado, como aqueles usados para bater formões frios.
Ele o pegou. Ter três quilos de aço forjado preso à extremidade de um robusto cabo de nogueira-americana era tudo o que ele precisava para aumentar sua confiança. Havia também um pedaço de corda preso a um buraco perfurado na parte inferior do cabo, e ele colocou-o em volta do pulso.
Lembrou de uma história em quadrinhos que seu pai guardava no escritório, uma memória da própria infância — O Poderoso Thor. Thor era um super-herói famoso por seu martelo mágico. George não se sentia muito como um super-herói enquanto abria caminho cuidadosamente pelas vigas de assoalho danificadas. O som das gárgulas rastreando seus movimentos parecia estar cada vez mais próximo.
Em seguida, atravessou outra cortina de plástico, chegando a uma sala imensa e longa que estava tão cheia de equipamentos de construção que, no escuro, parecia mais uma pista de obstáculos: torres de andaimes e escadas junto a paredes enormes em processo de raspagem, sacos grandes de gesso e pilhas de latas de tinta juntos a blocos de painéis de parede, e ainda havia um misturador de cimento no meio da sala. George fechou a porta atrás dele e, já que havia uma tranca do lado em que estava, usou-a por prevenção.
Lá estava ele, todo molhado e tremendo. Ao parar por um momento, percebeu o quanto estava gelado.
A sala tinha janelas de ambos os lados. Ele ficou mais tranquilo ao ver que estavam todas lacradas, bem como as de frente para a avenida Euston. Moveu-se lentamente ao redor da sala, questionando a si mesmo se estava seguro. Não conseguia ouvir mais nenhum ruído das gárgulas do lado de fora. Mas George sabia que aquilo podia ser um truque: as criaturas podiam estar mantendo o silêncio justamente para detectar qualquer barulho feito por ele, para assim, rastreá-lo.
E se esse era o caso, acabou dando a elas uma grande pista ao derrubar um objeto de uma mesa, algo que soou como um címbalo ao atingir o chão. Ele abaixou-se e o isolou antes que fizesse mais barulho. Ao levantar o objeto, quase derramou o conteúdo que havia dentro. Retirou a tampa com cuidado e viu que se tratava de uma lata de biscoitos. Colocou o martelo sobre uma mesa, pegou um punhado do alimento e comeu com avidez. Estava faminto. Resolveu se afastar da mesa e ver se encontrava mais alguma coisa útil naquela sala. Talvez houvesse um aquecedor no meio daquela bagunça, se sim, ele teria a chance de se aquecer. Espremeu-se entre uma pilha de cilindros que inicialmente parecia sólida, mas que balançou assim que ele a tocou. Eram rolos de mantas para isolamento de telhados. Ele estendeu a mão para impedi-los de cair — e então ficou quieto ao ver com sua visão periférica uma linha sinistra de homens surgir por detrás dele. Rostos imersos na escuridão do canto da sala, porém visíveis aos olhos assustados de George.
Ele não os encarou diretamente, mas sabia que eles estavam parados. O grupo estava tão silencioso, que definitivamente havia algo de errado. George não entendeu por que uma linha de homens esperaria no escuro apenas para observar seus passos, mas desconfiava que não poderia ser por uma boa razão.
Assim sendo, voltou lentamente para a mesa onde tinha deixado o martelo. Queria sentir seu peso reconfortante na mão antes de enfrentar seus novos inimigos, e acreditava que a melhor maneira de fazer isso era agindo com frieza.
Sua boca ficou seca de repente, enquanto pegava outro biscoito. Ele o mastigou e, em seguida, colocou a tampa de volta na lata.
Ao elevar a mão, torceu para que achassem que ele iria apenas colocar a lata em cima da mesa. Ele a colocou lá, segurou o martelo e então se virou, pronto para atacar se eles investissem contra ele.
— Certo. O que vocês querem?
Assim que puxou o martelo, acertou uma caneca de café que saiu girando para fora da mesa. A única resposta que recebeu foi o som da caneca se espatifando na escuridão.
Os homens não se moveram.
Intrigado, George virou-se para vê-los inteiramente. Silêncio. Eles apenas continuavam olhando para ele. Suas enormes faces brancas permaneciam impassíveis na escuridão.
George tentou engolir o que tinha na boca, mas os farelos do biscoito ficaram presos em sua garganta, e ele engasgou. O engasgo fez com que ficasse irritado e caminhasse em direção à linha de homens, certo de que seria melhor enfrentá-los a ter que fugir. Havia algo de muito anormal naquela quietude.
Ele engoliu a seco os farelos de biscoito.
— Estou falando sério, quem são vocês...?
Deu mais um passo à frente e parou.
Eles não eram ninguém. Não passavam de uma linha de capacetes de proteção e macacões pendurados na parede. Haviam sido transformados em pessoas pelo medo e a escuridão.
Sentindo-se aliviado, George baixou o martelo.
Ainda melhor do que não serem pessoas, era significarem roupas secas. Ele pegou duas jaquetas de proteção e uma camisa acolchoada de algodão. A camisa tinha um cheiro ligeiramente azedo, mas aquele não era um momento para exigências. Tirou a camisa molhada e vestiu a seca. Sentiu o interior acolchoado contra sua pele, e após abotoar a camisa, amarrou as mangas da camisa molhada em volta da cintura. Então colocou a menor das duas jaquetas de proteção por cima. Era feita de lã escura áspera com algum tipo de cobertura de plástico sobre os ombros, era quente. Quase que imediatamente, sentiu o corpo aquecer. Então tropeçou em alguma coisa, e ficou satisfeito ao ver que era um par de botas coberto de tinta, feitas de couro, sem cadarço. Ele enfiou o pé descalço dentro. A bota era grande, mas usável. Ele pensou em como seria divertido vestir aquelas botas estranhas, e decidiu tirar o sapato que sobrara e calçar ambos os pés. Depois, prendeu o sapato na parte de trás do cinto, arregaçou as mangas da camisa para que se ajustassem ao tamanho dos braços e voltou até a mesa, onde encheu os bolsos da jaqueta com o restante dos biscoitos e procurou algo para beber.
Não encontrou nada, exceto uma chaleira de plástico respingada de tinta. Bebeu o resto de água que ainda havia nela, mantendo os ouvidos abertos o tempo todo para qualquer sinal de gárgulas tentando entrar. Para seu alívio, os únicos barulhos que conseguia ouvir eram os costumeiros sons noturnos da cidade — o trânsito, o ocasional som estéreo de um carro, o zunido agudo de uma moto e, ao longe, o uáuá eletrônico e contínuo de uma sirene.
Foi para o lado da sala cujas janelas ofereciam visão para a rua. Nenhum sinal de perigo.
Uma rajada de vento frio soprou pela fresta da janela ao lado da que ele estava, e o alertou para o fato de que ela estava de alguma forma acessível ao ar da noite. Correu até ela e descobriu que estava aberta, mas bloqueada pela enorme boca circular de um duto coletor. Era um daqueles longos dutos segmentados que são presos do lado de fora de edifícios em construção para conduzir entulhos até uma caçamba abaixo — basicamente feito de diversos tubos encaixados para formar uma longa descida. E como estava ligeiramente curvado, George não conseguia ver o que havia no fundo.
Ele enfiou a cabeça para fora do pequeno espaço triangular ao lado do duto na tentativa de verificar se o ângulo era baixo o suficiente para facilitar sua fuga. A má notícia foi a de que aquele ângulo não possibilitava uma fuga. A pior notícia foi a de que algo estava se movendo pela parede à sua direita. Assim que olhou para cima viu três gárgulas grudadas do lado de fora do edifício, como lagartixas, olhando fixamente para ele.
Ele tentou se abaixar rapidamente, mas ainda teve tempo de ver que as paredes externas do edifício estavam tomadas por criaturas de pedra, todas tentando ouvir junto às janelas ou rastreando movimentos pela alvenaria.
George correu em direção à porta, sabendo que precisava sair dali imediatamente. Esbarrou e tropeçou em alguns obstáculos pelo caminho — derrubando os rolos de mantas no chão à sua frente. Conseguiu desviar-se de um rolo, mas acabou acertando as canelas contra a borda afiada de uma lata de tinta. Em seguida, chegou até a porta com um tropeção desajeitado, derrubando o martelo enquanto tentava recuperar o equilíbrio. A queda do martelo fez um enorme barulho. E ele concluiu que as gárgulas já deveriam saber onde ele estava, e que sua única chance agora era fugir.
Puxou a tranca da porta, mas esta não cedeu. Ele a tinha fechado com muita força quando entrara. Cerrou os dentes e puxou a tranca com vigor. Em vão.
Então algo acertou o outro lado da porta e soltou a tranca, abrindo a porta e o fazendo voar para trás.
Duas garras de pedra apareceram por ambos os lados da porta, e assim que ele ficou em pé, uma cabeça de gárgula que antes tinha dois chifres, mas agora apenas um, surgiu no espaço entre elas. A gárgula era muito grande para entrar no recinto sem abaixar-se e afunilar os lados — e isso foi o que salvou George.
Ele sabia que estava muito longe de seu martelo, mas sua mão alcançou a alça de arame de uma das latas de tinta em que tinha tropeçado, e assim que a gárgula se abaixou e começou a desenrolar uma das asas para dentro da sala, George lançou-se para frente, balançando a lata de forma desesperada em direção à gárgula.
O peso da lata gerou uma poderosa força centrífuga assim que ele a balançou para cima e para trás do ombro, atingindo uma grande velocidade. A gárgula grunhiu e desferiu uma mordida selvagem — ficando no caminho da lata — e esta a atingiu bem debaixo do queixo. A força do golpe estremeceu a mão de George, mas ele não soltou sua arma. A gárgula foi arremessada para o corredor, caindo com as costas no chão. Ficou lá atordoada, balançando a cabeça e tentando se endireitar.
George sentiu a adrenalina subir até as narinas, e ouviu seus dentes cerrarem um contra o outro enquanto apertava a mandíbula e caminhava em direção à criatura. Ele girou a lata para a esquerda e acertou a cabeça da gárgula com força. A lata estourou assim que a gárgula se esborrachou novamente no chão, fazendo a tinta vermelha pulverizar seu rosto e asas.
George voltou rapidamente, recolocando a trava na porta. Algo estava sacudindo os painéis que obscureceriam as janelas do lado oposto à rua. Quando a tranca travou, ele percebeu que a menos que bolasse um plano para sair da sala, acabaria preso como um rato na própria armadilha.
Imaginou se conseguiria sobreviver à descida de cinco andares pelo duto de coleta de entulho. Pensou na caçamba onde o duto devia desembocar, e em todo o entulho duro e afiado que poderia estar à sua espera.
Parecia uma má ideia. Mas que outra opção lhe restava?
Suas pernas estavam começando a tremer com a frustração, querendo correr, mas sem ter para onde ir.
As tábuas de madeira que fechavam as janelas ao lado do duto começaram a sacudir.
Ele realmente precisava fugir.
Ao balançar as pernas para afugentar a tremedeira, seu pé bateu em um dos macios rolos de isolamento, que saiu rolando pela sala.
Vendo aquela cena, ele soube o que deveria fazer.
Pegou o rolo mais próximo, e apesar do peso, conseguiu arrastá-lo pela sala e jogá-lo duto abaixo. O rolo passou pela estrutura com uma sobra de cerca de dez centímetros para cada lado. George agarrou outro e jogou. Depois foi fazendo o mesmo com os restantes, trabalhando rápida e metodicamente para não ter tempo de ouvir os outros pensamentos que batiam com insistência no fundo de sua consciência.
Ouviu-se um estrondo na janela bloqueada atrás dele, e ele viu que a criatura do outro lado tinha conseguido arrancar uma das tábuas da janela.
Fugir era, definitivamente, sua única opção.
Respirou fundo e apontou uma das pernas para o duto. E então um daqueles pensamentos conseguiu escapar: se ele alcançasse o chão a salvo, como faria para fugir? As gárgulas do lado de fora iriam reconhecê-lo e atacá-lo sem piedade.
Não importava.
Puxou a perna de volta e correu para junto dos ganchos onde tinha encontrado as roupas secas. Rapidamente vestiu a segunda jaqueta sobre a primeira que já estava usando. Ficou apertada, mas agora ele sentia-se maior e mais acolchoado. Em seguida, colocou um dos capacetes de proteção na cabeça, vestiu um par de luvas pesadas que estava sobre a mesa e voltou correndo ao duto, tentando ignorar as novas batidas que faziam a porta tremer sobre suas dobradiças frágeis.
Pegou o martelo e outro rolo de isolamento. Jogou o rolo pelo duto e não pensou duas vezes: pulou logo em seguida para dentro daquela enorme garganta de plástico.
Assim que suas mãos soltaram a borda do duto, ele mergulhou em grande velocidade, mas ainda teve tempo de ouvir um estalo estridente vindo da porta.
Seu estômago parecia estar na boca enquanto descia.
Ele tentava se lembrar de manter a boca fechada para não morder a própria língua com o impacto, como tinha feito certa vez em uma queda d’água em um parque aquático. Seu capacete acabou se soltando e caiu enquanto ele tentava frear a descida com as botas, cotovelos e luvas, apoiando as costas contra a superfície curvada do duto.
Tudo aconteceu muito rápido.
Ao tentar retardar a queda freando com o corpo, George esperava transformar uma queda fatal em uma mera descida violenta. Essa tentativa levantou toda a poeira contida no duto, fazendo com que ele ficasse envolto por uma nuvem ofuscante e sufocante.
Tentou segurar a respiração, e estava prestes a se perguntar como saberia quando juntar os pés, na tentativa de pousar em segurança, quando um golpe de lhe arrancar o ar dos pulmões sinalizou que ele havia chegado. O impacto o fez bater os joelhos contra o queixo.
Caído, mas ainda vivo.
Comemorou com uma onda de euforia que não diminuiu, mesmo quando o capacete acertou-lhe a cabeça um pouco depois.
Ele permaneceu imóvel sobre o feltro cor-de-rosa macio da manta de isolamento que amortecera sua queda, tentando não tossir nem cuspir por causa da nuvem de poeira que tinha provocado. E então, assim que acreditou na evidência de seus sentidos e certificou-se de que nenhum osso havia sido quebrado, pegou o capacete e segurou o martelo com toda força enquanto atravessava a manta para dentro da caçamba.
A caçamba estava coberta por uma lona amarrada. Uma vez debaixo dela, ele conseguiu encontrar uma brecha e colocar a cabeça para fora. Arriscou um olhar para cima e viu que todas as gárgulas estavam reunidas junto às janelas da sala onde estava, cinco andares acima. Saiu debaixo da lona e esquivou-se silenciosamente em direção a um canto do edifício que parecia seguro, para dali seguir para uma rua.
Se as gárgulas não tinham ouvido quando ele deslizou pelo duto, com certeza seriam capazes de ouvir seu coração batendo. Assim que alcançou a rua, foi tomado por uma breve hesitação, e lembrou-se de colocar o capacete de proteção na cabeça. Não olhar para trás era difícil, mas ele sabia que não deveria fazer isso. Qualquer gárgula que olhasse para baixo poderia ver seu rosto e perceber que o homem corpulento que se afastava era, na verdade, um menino.
Seus ombros coçavam e as orelhas estremeciam ao som de qualquer ruído no céu atrás dele, mas quando alcançou o prédio ao lado, acreditou que estava quase a salvo. Ao passar pelas fontes em cascata que anunciavam a entrada da Biblioteca Britânica, deu-se ao luxo de girar sobre os pés enquanto andava, e viu que não havia nada o perseguindo.
Seus joelhos quase dobraram de alívio e ele começou a descer a avenida Euston a passos largos.
Ele não percebeu que uma estátua enorme, na piazza do lado de fora da Biblioteca Britânica, virou a cabeça e olhou para ele. A enorme figura masculina estava curvada sobre um grande par de divisores, como se estivesse medindo o mundo. Acreditando ter sido descoberta, dividiu-se em pequenas partes e depois se montou novamente.
O gigante olhou para George, e depois para o bairro pobre de Saint Pancras.
Logo após, colocou os dedos na boca e assobiou.