Mão de Ferro
Debaixo do gelo
50
O ARTILHEIRO SE ATIROU no estreito canal de água entre o gelo e a margem do rio. Ele tinha visto Edie afundar pela última vez, e vira também que nem ele nem George chegariam a tempo de salvá-la. Então fez a única coisa que restava, que era ir para baixo do gelo.
Toneladas de bronze não nadam bem, então ele bateu no fundo do Tâmisa e fez o melhor possível para avançar em meio à escuridão, ainda que com dificuldade, em direção ao local onde calculava que estivesse o buraco no gelo. Sua parte humana passou pela dolorosa sensação de afogamento pela falta de oxigênio, mas ele estava tão determinado que nem se incomodou em tentar prender a respiração, apenas engoliu água e continuou em frente.
O Artilheiro não conseguia ver nada e avançava somente por instinto. O gelo coberto de neve fazia um telhado perfeito sobre o rio, bloqueando toda a luz. E conforme caminhava, percebia que também não conseguiria ver o buraco, pois olhar para cima só trazia uma visão escura do céu noturno, o que seria indistinguível da escuridão impenetrável que o rodeava.
Ele batia com os braços à sua volta conforme avançava, na esperança de que, se não pudesse ver o corpo de Edie, poderia, pelo menos, tocá-lo por acaso. Mas em meio à escuridão, percebeu que sua chance de encontrá-la com vida era mínima.
Então uma luz laranja refletiu por sobre o telhado de gelo. Ele olhou para cima e teve uma breve visão do mundo acima do buraco. Viu George olhando para baixo sem conseguir ver nada, com o rosto momentaneamente iluminado pela queda da pedra do coração, antes que ele se afastasse do buraco.
O Artilheiro estendeu a mão e pegou a pedra em sua correntinha, segurando-a alto, como uma lanterna na tempestade. E a luz laranja brilhou de forma tão intensa, que o rio de água turva ficou menos opaco, e foi aí que o Artilheiro viu o corpo de Edie. Seu pé estava preso em uma roda quebrada, provavelmente de uma carruagem, enterrada pela metade na lama do fundo, seus cabelos sem vida se mexiam com a corrente.
Ele se aproximou e soltou o pé de Edie, segurou firme o corpo dela e começou a subir. Enquanto se esforçava para ir em frente, olhou para aquele rosto pálido, sem vida, e colocou a correntinha em torno do pescoço dela, para que pudesse segurá-la melhor. Depois a abraçou com força, como se pudesse colocar um pouco da vida naquele corpo morto.
Como não se pode chorar debaixo d’água, o ardor que ele sentia nos olhos devia ser causado pelo Tâmisa, que resistia a tentativa dele de se deslocar pelas águas.
O Artilheiro subiu a encosta em direção às tochas acesas e emergiu da água. Ao sair do buraco, e enquanto tossia, percebeu surpreso que ainda havia vida no corpo de Edie. Estava prestes a tentar tirar a água que ela havia ingerido, quando ouviu barulhos no gelo e o bufar furioso de um Touro que se aproximava. Ele a pegou no colo e saiu correndo.
Com o canto do olho, George viu o Artilheiro sair do gelo, antes que o Ícaro o levasse para longe do Caminhante, que estava de barriga para cima, tentando desesperadamente tirar algo do moletom.
O Ícaro gritou para George, que, em reação, olhou para a curvatura escura do peitoral da criatura: de alguma parte interna de sua estrutura complexa, uma boca estava emitindo um som agudo e raivoso para ele.
O Ícaro voava pior do que a Bica. George estava apenas cerca de cinco metros acima do gelo, sendo levado aos trancos e barrancos para longe do Artilheiro e do corpo de Edie, e incapaz de ver o que o Caminhante estava fazendo. De repente, viu uma coisa ganhar vida e galopar pelo gelo do outro lado, em direção ao Artilheiro. As lâminas giratórias nas rodas da carruagem espalhavam cristais de gelo pela neve.
George ainda segurava o martelo na mão.
— Basta uma oportunidade, uma só — ele disse para o ser alado que o levava. — Coloque-me no chão.
O Ícaro uivava e o sacudia com raiva. George percebeu que a criatura tinha pés humanos — seus dedos dos pés o esmagavam como garras firmes.
Por fim, disse:
— Você pediu por isso.
E deu uma martelada no casco do Ícaro. Bateu várias vezes seguidas, e conforme batia, a criatura gritava e se lançava ainda mais para o céu. Após uma série de batidas, uma fenda se abriu no peitoral dele. Foi quando George pôde enxergá-lo completamente.
O Ícaro era um homem todo contorcido. Seus braços e mãos eram dobrados sobre si mesmos, e sua boca e a parte inferior do rosto estavam de alguma forma atados a uma espécie de teia, mas não tão escurecidos a ponto de impedir que George visse a insanidade hostil rosnando para fora daquele rosto.
George ordenou:
— Coloque-me no chão.
Os pés apertavam-no com raiva, e dos olhos saíam fagulhas cheias de ódio. A cabeça balançou violentamente para frente e para trás em um inconfundível “Não”.
— Desculpe-me então — disse o menino e, com o martelo, deu uma pancada forte no centro da testa deformada. Os olhos loucos giraram para trás e o Ícaro despencou, inconsciente e, pela primeira vez, em silêncio.
George teve tempo de ver que iriam cair em águas abertas, pouco além do ponto onde o gelo começava. Chutando, ele se livrou dos pés agora fracos do Ícaro no último instante antes que batessem no rio.
O Ícaro caiu na água e começou a afundar. George subiu à superfície e respirou, ofegante. Depois se virou a tempo de ver a beira do gelo aproximar-se conforme a corrente o puxava em sua direção. A beira do gelo era uma mescla de troncos e galhos presos. Ele teve uma premonição pavorosa: a de que estava prestes a ser sugado para baixo do gelo. Ao alcançá-la, agarrou-se na borda, porém seus dedos deslizaram. Depois ele afundou.
Na superfície do gelo, o Artilheiro tinha visto o Touro na hora certa. Ele agarrou o corpo de Edie e deu um salto longo, desviando dos chifres que se aproximaram. O Touro tentou atropelá-lo, mas acabou ultrapassando o alvo e colidindo com a neve empilhada na margem do rio.
O Artilheiro ouviu seu nome sendo chamado. Virou-se e viu a Rainha se aproximando pelo gelo liso. Os cavalos lutavam contra os arreios, e suas patas chutavam grandes blocos de neve, conforme venciam a distância para o resgate. Havia outra figura na carruagem, mas como ela estava sem chapéu, o Artilheiro demorou um pouco para perceber que era o Oficial.
Ele correu em direção à carruagem, embalando o corpo de Edie enquanto corria. Ouviu um ronco e o barulho de cascos atrás dele. Sabia que o Touro tinha virado e que agora vinha disparado atrás dele.
A carruagem se aproximava sem diminuir a velocidade, e a distância entre ele e o bicho diminuía.
Ele viu o Oficial apontar com insistência para baixo e gritar:
— Cuidado com as rodas!
Em seguida, o Oficial estendeu o braço para fora e se inclinou tanto, que a Rainha teve de fazer o mesmo para o lado oposto para impedir que a carruagem tombasse. Foram frações de segundos até que alcançassem o Artilheiro em uma velocidade de tirar o fôlego. O soldado sentiu o hálito do Touro em suas costas, além de um leve puxão quando o bicho tentou pegá-lo novamente. Ele nem teve tempo para pensar na proximidade da criatura, porque precisava se concentrar nas pás que giravam em direção a seus joelhos. Esticou o braço, como se estivesse sinalizando uma curva, ao mesmo tempo em que o Oficial agarrou seu braço.
E então o impulso o levou para cima à medida que o Oficial se segurava à grade da carruagem, e finalmente ele estava a bordo.
O Touro não teve tempo de desacelerar sua perseguição impetuosa, e as lâminas das rodas abriram-no ao meio como se fossem um gigante abridor de latas, espalhando ondas espiraladas de bronze brilhante por todos os lados. O Touro balançou para frente e seus chifres cravaram no gelo. Ele foi jogado para longe em uma cambalhota, onde permaneceu quieto, em pé, e envolto em suas entranhas de bronze.
A Rainha olhou para trás:
— Ele não vai matar nenhuma outra mulher.
O Artilheiro colocou Edie no chão da carruagem e começou a tentar tirar a água que ela havia engolido. Era como tentar trabalhar no convés inclinado de um navio.
Ele rogou:
— Ajudem-me!
O Oficial o segurou firme.
A Rainha estava virando a carruagem.
Ela gritou:
— Segurem-se!
O Oficial olhou para cima e viu que ela galopava na direção de suas duas filhas, que seguravam os espelhos em pé.
— George! — gritou o Artilheiro, que inutilmente tentava fazer com que a garota expelisse a água engolida.
O Oficial gritou:
— Segurem-se!
E quando a Rainha acertou os espelhos pela primeira vez com a ponta de sua lança, o Oficial soltou o Artilheiro e saltou por trás da carruagem.
Então houve um estouro e a carruagem desapareceu.
— Fiquem aí — disse ele para as moças, e correu para longe das luzes do Carnaval em direção ao final escuro do gelo.