Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 57 de 57

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Mão de Ferro

A última parada é lugar nenhum

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QUANDO A CARRUAGEM BATEU na grama, a rainha puxou as rédeas dos cavalos até que parassem. Depois se virou para se certificar que suas filhas também haviam passado. Elas acenaram para mãe, e todas as três compartilharam o mesmo sorriso feroz.

O Oficial disse:

— Vocês sentiram?

— Sentiram o quê? — perguntou o Artilheiro, olhando de onde estava sentado, ao lado de Edie, cujo rosto estava vermelho e com boa aparência, coberta pelo manto da Rainha e pelo casaco do Oficial.

— Algo nos seguiu de volta — disse George, pulando para fora da carruagem e correndo até Edie. Ela sorriu, mas levantou a mão em advertência:

— Cuidado com as pedras!

Todas as pedras de aviso estavam espalhadas pelo chão, ao redor deles, e todas estavam sem vida. Exceto por uma pequena de cor azul que estava entrelaçada nas mãos de Edie, exatamente o mesmo azul do gorro que um pato tinha usado em uma história que ela havia lido quando criança. Uma pequena pedra de aviso azul que havia sido transformada em brinco.

George se aproximou com cuidado, e sem saber o que fazer, deu-lhe um leve tapa no ombro. Ela sorriu e deu-lhe um soco na perna. E isso pareceu ser o suficiente para ambos.

Então, ouviu-se a ressonância estranhamente reconfortante do Big Ben soando a hora.

— Pegue aquele cobertor — disse a Rainha, apontando para o corpo do Soldado Desconhecido.

O Artilheiro disse:

— Mas...

A Rainha interrompeu:

— Sem “mas”. O menino já está quase morto.

George colocou o martelo no chão e começou a desabotoar o casaco ensopado. Seus dedos pareciam salsichas congeladas.

— Belo martelo — disse Edie, com um tom de gozação na voz.

— Belo brinco — ele respondeu, com o mesmo tom.

Ela disse:

— Sim. É da minha mãe.

O Artilheiro disse:

— Então por que estava com o resto das... Oh!

Edie respondeu:

— Ela ficou louca. Pelo menos, foi isso o que eles disseram. É por isso que ela foi levada embora... — ela olhou para o brinco — ... não há como contestar por que ela ficou maluca, eu acho...

George disse:

— Ela também era uma fagulha.

Edie explicou:

— Sim. Só que ela não sabia.

A Rainha disse:

— A questão é saber por que todas as outras pedras perderam a vida e a sua continua reluzindo.

O artilheiro limpou a garganta.

— Essas pedras pertenciam às fagulhas que o Caminhante assassinou ou sentenciou a uma morte vazia e solitária... — ele olhou para Rainha. Ela assentiu com a cabeça. E ele continuou: — Talvez ainda esteja acesa porque Edie não morreu.

George perguntou:

— Acesa?

A Rainha respondeu:

— Viva.

Edie olhou para o chão, sem conseguir falar.

George olhou para o seu braço. A segunda garra que tinha começado a subir quando ele aceitou o desafio do Cavaleiro tinha desaparecido, como já era esperado.

Ele notou que o Oficial também olhava para seu braço. O Oficial sorriu. Levantou três dedos, e então dobrou dois.

— Falta só mais um, meu rapaz.

A distância, George viu uma motocicleta da polícia piscando suas luzes azuis enquanto descia a Piccadilly e virava a curva que levaria até o Hyde Park Corner.

George olhou para a última garra, que continuava circulando em seu braço, formando uma espiral apertada como se estivesse esperando o Cavaleiro reaparecer e terminar o duelo que tinha começado.

Ele se cobriu com o cobertor que o Oficial tinha lhe entregue.

— Minha mãe podia estar em qualquer lugar — disse Edie com um tom de voz sereno.

— Me deixe sentar ao seu lado — pediu George, e sentou-se ao lado de Edie. — O Artilheiro também. Assim como você. Mas nós voltamos juntos, não é verdade?

Ela concordou com a cabeça.

O Oficial disse:

— Temos um problema maior.

Todos olharam para ele.

— Vocês não estão ouvindo?

Eles ouviram.

Havia apenas silêncio. E silêncio, em Londres, não existe, nem mesmo à noite.

— A cidade ficou silenciosa, e o relógio acabou de marcar uma da tarde.

Todos se levantaram e olharam ao redor.

A cidade estava em silêncio. Um silêncio estranho, onde nada se movia.

Não havia brisa.

Nem ruídos.

Nem pessoas.

Os poucos carros na rua estavam sem vida.

George foi até a beira da rua.

A motocicleta da polícia estava imóvel e inclinada na curva. Não havia condutor.

Ele olhou para a massa vermelha e familiar de um ônibus. Não havia motorista nem passageiros.

Os outros caminharam lentamente para a rua, e olharam na mesma direção. Edie olhou para um táxi vazio e depois para George.

— Para onde foram todas as pessoas?

Ele deu de ombros e girou lentamente em círculo, procurando por sinais de vida.

— E por que tudo parou?

A única coisa que se movia em toda a cidade era a neve espessa que começava a cair em silêncio.

Os cinco cuspidos e as duas crianças ficaram parados na rua rapidamente branqueada pela neve, olhando em choque, enquanto o que estavam vendo amanhecia sobre eles.

O Oficial disse:

— Seja lá o que trouxemos de volta conosco, não deve ser boa coisa.

E, inconscientemente, ficaram todos bem próximos uns dos outros, cada um invadido por uma estranha sensação de solidão. E enquanto espiavam pelas ruas desertas, tentando entender o que estava acontecendo, notaram que algo já acontecia sobre eles.

O que foi um tremendo vacilo. Porque o que estava acima deles já tinha notado todos havia um bom tempo.

A gárgula de pedra estava sentada na ponta do gigante canhão de campanha no topo do Memorial da Artilharia.

O Artilheiro a viu primeiro.

Ele se colocou na frente de Edie e George, sacando sua arma.

— Cuidado, ela vai nos atacar!

Todo mundo se virou de repente.

Mas a mão de George lançou-se contra a do Artilheiro, baixando a arma com força.

O Artilheiro tentou dizer:

— O que...?

Mas George o interrompeu:

— Está tudo bem! Está tudo bem!

A gárgula disse:

— Gack?

George sorriu.

— Ela é uma de nós.

E todos olharam para a Bica. E então para George. E depois de volta para a gárgula.

O Artilheiro guardou o revólver. O Oficial deu-lhe um cigarro, que ele acendeu, e todos ficaram lá olhando para a gárgula sorridente, em meio à fumaça do cigarro e a neve que caía sem parar.

O Artilheiro disse:

— Bem-vinda ao inferno na neve, camarada!

FIM

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