Mão de Ferro
O ícaro
7
HOUVE UM ESTALO, E NÃO sendo visto por nenhum daqueles que corriam em frente ao Tribunal de Justiça fugindo da chuva, o Caminhante saiu de dentro do espelho portátil e olhou ao redor. Havia apenas alguns funcionários conversando e rindo ao ir em direção ao pub após saírem do ponto de ônibus. Ele se escondeu atrás deles e os seguiu pela praça.
A conversa da turma esmoreceu instantaneamente com a presença do Caminhante, ficando cada vez menos animada, morrendo e se transformando num silêncio desconfortável. A criatura parou e os deixou seguir pela rua. Planos de uma cerveja amiga antes de ir para casa haviam se tornado significativamente menos atraente na mente daqueles homens, mas sem nenhuma razão que conseguissem entender.
O Caminhante parou ao lado de um pedestal de bronze sobre o qual havia uma estátua alada grotescamente distorcida. Por trás estava nua, podia-se ver asas presas às costas. O engenho mais parecia um instrumento de punição do que um meio de transporte aéreo. A cabeça pendia desconfortavelmente, comprimida para trás, e o torso estava preso dentro de um peitoral ornamental que parecia sufocar a estátua.
Era um monumento à agonia, não ao voo e à liberdade.
A estátua, cujas partes humanas visíveis eram as pernas dobradas por causa do peso daquele aparato, contorceu-se quando o Caminhante se aproximou e colocou-se à sua frente.
— Ícaro, sinto muito ter que lhe dizer isso, mas seu irmão está morto.
O Ícaro recuou e começou a se debater. Depois de um tempo, gemidos abafados começaram a emergir.
— Sim. Seu irmão, o Minotauro, que foi esculpido pelo mesmo fazedor que esculpiu você. Ícaro, seu irmão foi morto.
O Ícaro gritou, um grito profundo de homem, aterrorizante e rudimentar, apesar de abafado, como se a boca escondida dentro daquele aparato tivesse sido costurada.
— Sim. Ele morreu tragicamente. Não pude fazer nada para evitar.
O grito mudou de ritmo e foi entremeado por soluços ofegantes quando o homem ou a criatura dentro da pedra absorveu a notícia.
— Achei que talvez você fosse gostar de me ajudar a encontrar as pessoas que fizeram isso. Duas crianças. Tenho um propósito para elas, mas se você as trouxer para mim, irei dá-las a você quando eu terminar. Você tem a minha palavra.
O Ícaro gritou de forma mais profunda — como se alguns dos pontos que costuravam seus lábios tivessem sido arrancados com a força dos gritos anteriores — e então ele saltou do pedestal de forma grotesca, aterrissando numa espécie de agachamento corcunda, com as asas cortadas batendo juntas acima da cabeça, em furioso ímpeto.