Mão de Ferro
A rainha vermelha
9
O FRADE PRETO CAMINHAVA DE forma decidida na direção leste, passando pela ponte Westminster, e seus poucos pedestres, nenhum dos quais, obviamente, podia vê-lo pois tinham fortes cérebros racionais e estes os impedia de acreditar que uma estátua circulava normalmente entre eles.
O Tâmisa estava à sua direita, e a grande torre do relógio Big Ben elevava-se acima. Os ponteiros iluminados do relógio brilhavam na escuridão que se acentuava.
Os olhos do Frade agitaram-se para ambos os lados ao passar por uma impressionante estátua equestre dupla: uma mulher da realeza em um simples vestido rodado, capa flutuante e coroa pontiaguda estava em pé em uma carruagem, a mão direita segurava uma espécie de chicote, enquanto a esquerda encorajava seus dois cavalos de batalha para seguir em frente.
Ao seu lado, na leve carruagem, estavam suas duas filhas, contraindo-se em busca de equilíbrio em cima daquelas rodas mal conduzidas. O grupo todo parecia estar quase caindo do pedestal da Praça do Parlamento.
O Frade fez uma reverência ao passar pela estátua. Quando ficou claro que ele não tinha intenção de parar, a Rainha disse:
— Frade!
Ele fez uma pausa, esperou um pouco, depois se virou. Pela expressão com que encarou a estátua, ficou claro que interromper seu trajeto não era algo que o agradava, contudo, deu um sorriso educado.
— Rainha.
— Você não se inclinou.
Ele sorriu ainda mais e disse:
— De fato.
— Você nunca se inclina.
Ele abriu os braços, expondo o gesto de um homem que nada tem a esconder, que não tem preocupação alguma no mundo.
— Sou amigo de todos os homens, igual para todos, escravo de nenhum. Não tenho intenção de ofendê-la com isso.
A ruga na testa real transparecia a irritação.
— Não tem a intenção de ofender, mas ofende.
— Desculpe. É o meu caminho, o caminho do meu chamado.
— Padres inclinam-se perante reis.
Ele suspirou de forma longa e profunda, da forma que as pessoas fazem quando desejam deixar claro o quanto estão sofrendo com a situação.
— Não padres bons, cara senhora. Não aqueles que devo valorizar incondicionalmente. Mas por “chamado” não estava me referindo ao meu sacerdócio. Estava falando da minha profissão: taberneiro. Como anfitrião e dono de taberna, todos os homens são iguais a meu ver.
— E mulheres — ela interpôs-se bruscamente.
A sombra de um sorriso passou pelo rosto dele, mas se foi com a mesma rapidez com que surgiu.
— As mulheres, pela minha experiência, são perfeitamente iguais, contanto que se mantenham no saguão do bar.
A Rainha, visivelmente irritada, segurou o chicote com mais força. Atrás dela, as duas filhas se entreolharam.
— Você acha isso divertido? É assim que você prega, gorducho?
O Frade arqueou uma das sobrancelhas para ela, depois alisou a batina sobre a barriga e disse:
— Deseja um sermão, senhora? Pois, juro por Deus, pensei que a guerra lhe desse mais prazer... Mas certamente, tenho certeza de que posso criar um texto improvisado para essa ocasião surpresa. Deixe-me ver, sim! Ele pode ser mais ou menos assim: quando Adão adormeceu e Eva foi tirada de dentro dele, quem então foi o cavalheiro?
A Rainha encarou o Frade, como se estivesse tentando entender a profundidade do insulto escondido nas palavras dele. Finalmente, ela fez um sinal com a mão mostrando que não ia mais dar importância a ele.
— Palavras arrogantes que extrapolam meu entendimento. Talvez façam mais sentido em um bar.
O sorriso dele mostrou-se inabalado.
— Bem, percebo que não fariam sentido em um palácio, onde as rainhas se imaginam melhores que as pessoas comuns.
O chicote agitou-se na mão da Rainha enquanto ele falava, a força da raiva crescia dentro dela.
— Você é decididamente um insolente!
O rosto dele se abriu num perfeito sorriso de bom humor, como um enorme queijo redondo partido. Ele riu, desculpando-se:
— Não, madame, sinto muito. Tenho um prazer infantil em provocar uma bela mulher ruiva e impetuosa como a senhora, pois como dizem, nada queima mais rápido do que a madeira vermelha.
As filhas prenderam o fôlego e desviaram o olhar.
— Está me chamando de ruiva, padre?
— Ora, certamente. Por qual outro motivo a chamariam de Rainha Vermelha?
Ela finalmente explodiu, os olhos brilhavam e a ponta dura do seu chicote balançava para ele.
— Não é por causa do meu cabelo, gorducho, não pelo meu cabelo! Eles me chamam de vermelha porque eu destruí essa cidade por vingança, pelo mal que fizeram às minhas filhas! E quando meu exército e eu viramos as costas para as ruínas em chamas, meus braços estavam vermelhos até os cotovelos com o sangue de Londres e a sua insolente...
— Mãe — disse a filha da esquerda, pegando no braço dela, tentando fazê-la parar. A outra pegou no braço direito e tentou mudar o foco de atenção da Rainha:
— Mãe. A fagulha...
A mulher colérica se controlou após um esforço visível. Os olhos do Frade demonstravam um humor totalmente inocente, inocente até demais, divertindo-se com o resultado das palavras que dissera. A Rainha falou com toda a calma que conseguiu encontrar dentro de si:
— Sim, claro. A fagulha. A fagulha, Frade. Ontem à noite vimos uma fagulha passar correndo por nós. Estava acompanhada por um garoto.
As sobrancelhas dele se arquearam numa expressão de surpresa.
— Ah! E a senhora tem certeza de que era uma fagulha?
Você sabe tão bem quanto eu que nós as sentimos com a mesma força que elas sentem o que há nas pedras. Ela era jovem, forte e corajosa. Mas por algum motivo estava correndo. Queríamos saber o que aconteceu com ela.
— E por quê? Perdoe a minha impertinência, mas o que a senhora tem a ver com as fagulhas?
Ela segurou firme o chicote e açoitou o piso da carruagem.
— Elas são garotas fortes e vivem em perigo além do suportável. Não víamos uma há anos.
— Talvez a senhora esteja enganada — ele disse, dando de ombros.
— Não nesse caso, Frade. E qualquer mulher em perigo é da minha conta e cuidado.
— E por quê, senhora?
Ela bateu o chicote com mais força ainda, fazendo as filhas pularem.
— Porque é assim que desejo. É assim que SEMPRE desejei.
O fogo parecia arder nos olhos dela. O Frade estava certo a respeito da rapidez com a qual ela queimava.
— Por que a senhora me pergunta sobre essa tal fagulha?
— Porque ela estava correndo junto ao rio, e mais cedo ou mais tarde o rio passa pela sua porta.
Ele passou a mão no rosto, removendo toda a alegria ao fazê-lo. Inclinou a cabeça novamente, mas não o bastante para que o gesto fosse considerado uma reverência de qualquer tipo.
— O rio passa por muitas portas. Não vi ninguém. Boa noite, senhoras.
E com um aceno de cabeça ele partiu em direção ao norte.
A Rainha o observou ir. Respirou fundo várias vezes, depois virou-se para a filha do lado direito da carruagem e disse:
— Ele mentiu. Há uma fagulha à solta. Temos que fazer alguma coisa. Se a minha intuição estiver certa, a garota está em perigo.