Mão de Ferro
O último cavaleiro
21
GEORGE OUVIU O SINO BATENDO na frente deles — anunciando tragédia de forma profunda e regular. Voavam de forma estável, enquanto uma grossa chuva caía.
À frente deles havia um gradil de metal negro e um portão alto elevava-se entre duas velhas portarias de pedra, um pouco maiores do que sentinelas. Ariel as sobrevoou e passou entre dois velhos edifícios de tijolo com colunas baixas que levavam a uma praça interna além deles. No final da praça havia modernos edifícios comerciais com fachadas de vidro, e conforme voavam, George viu uma ou duas sombrinhas apressando-se na chuva enquanto as pessoas iam para casa. Havia tanta água no chão, que dava para ver o reflexo de Ariel marcado nas poças, dourado e brilhante contra o escuro céu noturno.
Ela desviou e pousou de forma tão delicada, que não ficou claro onde o voo terminou e a caminhada foi retomada. Só ficou claro que haviam chegado. O toque do sino continuava em seu ritmo. Ariel apontou na direção de um dos galpões reformados.
Havia algo vermelho no alto do muro acima deles, mas como a chuva caía diretamente nos olhos de George, que olhava para cima, ele precisou de alguns segundos para perceber que se tratava do sino. Devia ter sido no passado um sino de aviso de fogo. E agora tocava uma implacável nota fúnebre.
George sabia que não iria gostar da resposta para a pergunta que faria, mas a fez mesmo assim.
— O que é aquilo? Por que estamos aqui?
Ariel abriu um enorme sorriso, fez uma única pirueta e aproximou-se dele com seu rosto angelical.
— Nunca pergunte por quem os sinos tocam, garoto. Eles tocam por ti.
— Certo — ele disse muito deliberadamente. Não estava surpreso, pois de alguma forma sabia que o sino tocava por ele desde a primeira badalada, só que não entendia a razão do chamado.
— Por que toca por mim?
Ela alongou o braço num gesto teatral e apontou por cima do ombro dele.
— É um sino de convocação. Você foi convocado a se encontrar com o Último Cavaleiro.
George se virou lentamente. Dez metros à frente, em um trecho de grama fechado por uma cerca viva baixa, havia um cavaleiro de corpo inteiro, vestindo uma armadura. Ele estava sentado sobre um cavalo de olhar feroz, e impunha um longa lança. O capacete do cavaleiro cobria seu rosto, restando apenas uma estreita abertura no visor, obviamente para que pudesse ver. O cavalo usava uma capa de estampa celta, feita de pratos de metal interligados com discos redondos de vidro azul. George percebeu rapidamente que aquelas figuras não eram sólidas, e sim ocas. O escultor que fizera tanto o cavaleiro quanto o cavalo usara pratos de armadura na composição. Essa constatação deu margem a uma curiosidade: o cavaleiro era um cuspido ou um estigma?
— Ariel — disse George baixinho —, eu ainda não entendi direito por que estou aqui.
Com um movimento gracioso, Ariel passou as mãos pelos cabelos molhados, tentando enxugá-los. George percebeu que havia um toque teatral em tudo que ela fazia.
— Mas qual é a dúvida, garoto? Você fez uma escolha. Você escolheu o Caminho Tortuoso. E ele começa aqui.
George tinha certeza de que o Caminho Tortuoso tinha começado quando a Bica o arrastara pelo céu, se não antes, quando o Artilheiro fora tirado deles. A ideia de que tudo não tinha passado de um aquecimento para algo pior começava a aterrorizá-lo.
— E quem é o Último Cavaleiro?
— Ele é o Último Cavaleiro de Cnihtengild.
Ela pronunciava a estranha palavra assim: ‘ke-nik-ten-gild’.
— Do quê?
— É uma Associação de Cavaleiros. A ortografia é antiga. Acho que as informações escritas ali podem lhe ajudar a entender um pouco melhor.
Ela apontou para uma placa fixada na parede oca, embaixo da cerca viva que circundava o Cavaleiro.
Ele caminhou lentamente para frente, de olho no Cavaleiro e no cavalo, ao ajoelhar-se na poça de água para ler a placa:
Rei Edgar (959-975) concedeu essa terra abandonada a treze cavaleiros, com a
condição de que cada um realizasse três duelos, um na terra, um abaixo da terra
e um na água. Esses feitos foram realizados e o Rei concedeu aos cavaleiros, ou a
Cnihtengild, certos direitos...
George não continuou a leitura, pois o cavalo relinchou de forma irritada e bateu o casco. Levantou os olhos e viu o Cavaleiro aproximando-se, a sombra escura do visor apontava para ele. Quando George o encarou de volta, as sombras se iluminaram e ele viu um par de fracas luzes azuis começando a se acender no lugar em que os olhos estavam escondidos. Antes que George pudesse decidir se iria se levantar e sair correndo ou ficar onde estava, o Último Cavaleiro falou. A voz era profunda e sonora, e compartilhava da harmonia metálica do sino que tocava ao fundo, como se a voz dele fosse o sino colocado em palavras.
— Você vai se levantar?
Era uma pergunta simples. George não viu nada de perigoso nela. Ele se levantou e enxugou a chuva do rosto.
— Sim. Olá
— Você vai se levantar? — repetiu o Cavaleiro.
George olhou para baixo e voltou a encarar os olhos azuis que estavam dentro do capacete vazio. O cavalo se alongou nos arreios e bateu no chão com o enorme casco de metal.
— Aqui estou eu. De pé — George respondeu, um tanto confuso. O Cavaleiro puxou a rédea do cavalo, que relinchou e parou de bater o casco.
— E depois você vai se levantar?
A repetição estava ficando estranha. Ou talvez apenas irritante. Ou ainda podia ser que o cavaleiro não enxergasse bem pela abertura estreita da armadura.
— Mas eu já estou de pé. Realmente estou. Como pode ver — falou devagar, num tom bastante educado a fim de não ofender. — Você já me perguntou isso três vezes.
O pescoço do cavaleiro se alongou e o cavalo relinchou pelas narinas arredondadas.
— E você aceitou três vezes, bom cavaleiro.
George decidiu que a estátua era obviamente um pouco louca. Pelo que sabia, não havia razões para que as estátuas não fossem tão loucas quanto todo mundo. Ele não havia aceitado nada nem mesmo uma vez, quem dirá três vezes. Decidiu que era hora de se esforçar mais para voltar para Edie.
— Sim. Bem, boa noite para você também — ele disse, virando-se com intenção de sair dali.
“PÃ!” A próxima badalada do sino foi acompanhada por rugidos e movimentos de braços.
O som atingiu George como um golpe físico. Era tão alto que viu a água da chuva pular das poças ali por perto. O que escutara parecia um grito de aprovação, e vinha de várias gargantas. Braços batiam espadas e lanças nos escudos, fazendo um barulho ensurdecedor. Num flash, como se iluminado por um relâmpago, George viu a Associação se reunir ao redor dele, pareciam projeções fantasmas na chuva. Mas não eram os cavaleiros coloridos dos contos de fada.
Eram austeras figuras cansadas do combate, presas às suas celas, no fim de suas forças. As armaduras deles e as malhas de ferro não eram brilhantes e sim marcadas e talhadas por sangue. As pontas das espadas estavam cortadas e danificadas, e os escudos tinham tantas batidas que ficava difícil decifrar o desenho heráldico que um dia foi pintado neles. Os que traziam seus capacetes na mãos tinham barbas grisalhas, e olhos escuros marcados pela exaustão das batalhas. Muitos dos rostos estavam machucados ou cobertos de sangue, alguns montavam seus cavalos de forma estranha, com os ombros caídos ou curvados pela dor das feridas que George não conseguia ver. Para completar a sensação de que todos estavam no meio de uma pausa de batalha, a respiração era ofegante nas bocas e narinas dos cavalos. E todos tinham armas nas mãos.
George viu tudo isso muito rapidamente. Quando a visão sumiu, os modernos edifícios se reafirmaram e ele ficou encarando Ariel, ainda de costas para o Cavaleiro. Uma coisa que estava diferente, contudo, era que parecia haver centenas de luzes azuis brilhantes, criando uma explosão de estrelas nos muros ao redor da praça, como uma intensa bola de espelhos.
— Ele disse bom cavaleiro — falou Ariel.
Houve outro flash no mesmo momento em que o sino tocou, e ele viu os demais cavaleiros novamente, a Associação, movendo-se lentamente para frente.
— Tudo bem — disse George devagar, sem querer de fato virar-se para ver de onde todas aquelas luzes azuis vinham.
— E o que ele quer dizer exatamente com isso?
— Significa que ele o honra como um colega cavaleiro por aceitar os três desafios. São regras da cavalaria.
— De jeito nenhum, Ariel! Não, não e não! — ele retrucou desesperadamente. — Não vou aceitar nenhum desafio maldito, muito menos três!
— Sim. Você aceitou, garoto. Você aceitou se levantar. Você concordou três vezes.
— Mas eu não sabia o que estava dizendo! Pensei que ele não estivesse conseguindo me ouvir ou algo assim. Achei que era por isso que ele ficava repetindo aquilo... — Ele abaixou o tom de voz. — Achei que ele fosse meio surdo. Ou louco...
‘PÃ!’ O sino tocou e houve um intenso flash. Mais gritos, mais barulhos de metal, e George viu a Associação novamente. Eles estavam se movendo, criando um longo corredor ao lado de George.
— Boa sorte, garoto — disse Ariel, saindo de perto dele.
— O que devo fazer? — ele resmungou.
— Fique em pé e lute. Três duelos, três demonstrações de força, nenhum a ser lutado no mesmo solo que o outro. Você deve lutar na terra, debaixo da terra e na água. Você leu a placa. É assim que funciona com a Associação.
— Mas por que eu devo lutar?
— Porque, ao escolher o Caminho Tortuoso, você escolheu permanecer. Agora deve mostrar se é digno disso.
— E se eu não conseguir?
Mais uma badalada do sino, e dessa vez o flash não veio acompanhado de grito, era apenas a visão dos cavaleiros. Isso acontecia toda vez que o sino tocava. Era como ver uma luz estroboscópica muito lenta, num ritmo em harmonia com o toque fúnebre do sino.
— Se isso acontecer, você não vai permanecer. Nem aqui nem em qualquer realidade do avesso. Esse mundo terá visto o seu fim.
Ela arregaçou as mangas da camisa dele e bateu na garra de metal entrelaçada na Marca do Fazedor.
— Cada uma dessas garras vai começar a se mover quando você começar a duelar. Elas fazem isso para que você termine cada uma das competições. É uma espécie de aviso: se você desistir, elas vão continuar subindo pelo seu braço até atingir seu coração. Portanto, não fuja de nenhum dos duelos. Você deve ficar e provar que é capaz. Só assim irá mostrar do que é feito.
O desespero fazia a respiração dele acelerar. Cerrou os punhos e controlou-se com todas as suas forças ao ouvir o cavalo atrás dele relinchar e chacoalhar as rédeas.
— Mas não posso lutar. Não tenho arma!
Ela sorriu e era um sorriso triste de adeus, depois apontou atrás dele e disse:
— Então reze para que seus punhos sejam mais afiados que uma lança, garoto, pois seu desafio vai começar.
Ele se virou, e o flash seguinte foi da Associação fechando o corredor que ficava cada vez mais estreito com as armas e olhares ferozes. E mais que isso, do outro lado viu a fonte de todas aquelas luzes.
Elas vinham do Cavaleiro e seu cavalo.
Os discos de vidro azul interligados na capa do cavalo estavam todos acesos, lançando luzes azuis para todas as direções enquanto o Cavaleiro comandava seu animal lentamente para fora da cerca. As luzes pulavam e mandavam ondas hipnóticas pelos muros e janelas ao redor, espelhando a sinuosa ondulação da capa do cavalo, este que saía da cerca de bom grado, um casco atrás do outro, galopando no piso de pedra molhada da praça.
O cavaleiro encolhia os ombros e girava a cabeça, como um boxeador relaxando antes de uma luta. Ele parecia um assassino prático. A cada vez que o sino tocava, a Associação se tornava visível, em flashes ritmados.
George deu alguns passos para trás, mal conseguindo se manter no corredor feito pelos visíveis, agora invisíveis cavaleiros. Ele imaginava se eles estavam ali o tempo todo, ou somente quando os flashes aconteciam. Deu passos para o lado, planejando correr para as colunas baixas de tijolo, pois o Cavaleiro seria muito alto para segui-lo com facilidade e ele teria tempo de conseguir ao menos agarrar algum objeto para usar como arma.
Algo duro como a ponta de uma espada bateu na cabeça dele. Um coro de armaduras entoava a palavra “COVARDE”.
Ouviu com atenção e tentou raciocinar se havia alguma saída naquele campo de batalha imaginário. Deu alguns passos para trás e deu-se conta de que fora longe demais, pois algo grande, plano e duro como um escudo bateu em seu rosto, mandando-o de volta ao centro do corredor estreito.
Aquele golpe que o atingiu no nariz fez com que uma onda de raiva se apossasse dele, espalhando adrenalina pelo seu corpo. Uma fina listra de sangue marcava seu rosto. Ele lembrou do Artilheiro, quando este, após salvar George, lá no começo daquela jornada de pesadelo, dissera:
— Às vezes, a raiva consegue grandes feitos.
George também se lembrou da forma como o Artilheiro canalizou sua fúria ao lutar com o Minotauro. Aquela foi uma de muitas vezes em que a raiva conseguira grandes feitos.
Aquele momento, ele sabia, pedia raiva, muita raiva.
— Certo. Tudo bem — disse a si mesmo.
Ele se virou, enrolou as mangas e abriu as pernas, preparando-se. O Artilheiro podia estar fisicamente ausente, talvez perdido para sempre, mas havia algo dele na forma como George posicionou os pés no chão.
Ele pisou na poça d’água e encarou o Cavaleiro do outro lado da praça.
— Muito bem! — ele gritou. — Faça o seu pior.
Houve um flash e ele viu a Associação de novo. Pareciam feitos da própria chuva e projetados nela. Todos observavam George com olhos duros.
Definitivamente eles não eram um grupo feliz de cavaleiros, devotados à poesia romântica e resgatando donzelas em perigo, ou matando dragões pitorescos.
Estavam mais para um bando de ladrões medievais, sujos e teimosos.
— Alguém vai me emprestar um escudo ou algo assim? — ele perguntou.
Em outro flash viu que ninguém se moveu. Isso só o deixou com raiva.
— Ótimo. Quanta simpatia! Para o diabo com vocês!
Sentiu a cicatriz na mão doer de forma intensa, e sabia, sem olhar, que o que Ariel havia descrito tinha começado. A garra de metal movia-se por seu braço, subindo perigosamente em direção ao peito. Ele olhou para a mão e viu sua Marca do Fazedor. Ergueu o braço, exibindo-a ao Cavaleiro. Tentou se comunicar:
— Não sei o que isso significa, mas sou um fazedor. Acho que você não quer que eu coloque minhas mãos em você!
Era óbvio que estava blefando, mas o blefe era tudo que tinha a seu favor. O Cavaleiro parou e inclinou o capacete.
— Mostre-me a mão.
George sentiu seu espírito se elevar. Talvez o blefe fosse funcionar, apesar de que ele não fazia ideia do porquê. Manteve a mão elevada.
— Um dragão fez isso... — ele começou a explicar, esperando que o detalhe extra pudesse impressionar o outro.
— Você tem a marca — esbravejou o Cavaleiro.
— Sim, tenho. Tenho mesmo — disse George rapidamente.
— A marca da Mão de Ferro — o Cavaleiro continuou dizendo.
O sino tocou no próximo flash de luz, e George viu Cnihtengild aproximando-se em suas selas para um olhar mais de perto. Ele sentiu que estava chegando em algum lugar.
— Sim — ele disse, tentando soar como se soubesse o que estava dizendo. — É isso mesmo. Eu sou a... Mão de Ferro.
Houve uma pausa. Nada além da chuva se movia.
— Não. Você é uma das Mãos de Ferro. Há várias. Essa marca indica que você pode ser uma delas, mas somente o tempo e o que você fizer irá confirmar — disse o Cavaleiro.
— Mas ser um Mão de Ferro é uma coisa boa, certo? — disse George, tentando acompanhar o raciocínio dele.
— Sim.
— Então... — disse George, subitamente diminuindo o tom, percebendo que deveria conduzir aquela conversa com muito cuidado, pois poderia estar em um momento muito importante em que responder a coisa certa evitaria que lutasse com aquela estátua e sua lança assustadora. — Então, sendo eu muito provavelmente uma das Mãos de Ferro, isso significa que não temos que lutar, não é? Quer dizer, o que eu sou faz toda a diferença, não faz?
Sua última pergunta denotou certa impaciência, como se tivesse afirmando o óbvio.
George levou um susto ao ver o Cavaleiro concordar lentamente com a cabeça. Depois sentou-se solenemente em seu cavalo, este que irradiava luzes azuis por todos os lados. George nem sequer respirou, esperando que o Cavaleiro acrescentasse palavras à silenciosa afirmação.
— Sim. Faz diferença.
O garoto sentiu quase explodir de alívio ao ouvir aquilo.
— Isso é ótimo. Ótimo mesmo. Fantástico!
O Cavaleiro abaixou a lança e mirou no peito de George, dizendo:
— Significa que você é um adversário digno, agora.
George ficou paralisado de horror. Aquele “agora” definitivamente estourou a bolha da esperança recém-adquirida.
— Agora?
— Agora — 2 à outrance! Lute comigo.
O Cavaleiro apertou as esporas na lateral do cavalo, que contraiu os músculos e foi em frente. Os barulhos de gritos e braços voltaram. Tudo o que George conseguiu ver foi o grupo de Cnihtengild fechando o cerco contra ele. Não havia como fugir dali. A lança afiada do Último Cavaleiro já corria pelo ar indo ao seu encontro.
2 Á outrance: Expressão francesa que significa sem piedade. (N.T.)