Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 8 de 57

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Mão de Ferro

A mão deformada

6

 

EDIE FICOU OLHANDO PARA A mão de George, os olhos arregalados de horror pelo que presenciava. George estava pálido e olhava fixamente para a própria pele.

— O que está acontecendo? — ela perguntou baixinho.

Ele não fazia ideia. Da cicatriz que o Dragão havia feito, três linhas distintas tinham emergido. Veias escuras coloriam a pele da mão conforme iam se espiralando ao redor do punho como galhos de árvore.

— Será que é envenenamento do sangue? — Edie perguntou, hesitante.

Ele examinou as três linhas bem de perto, lutando contra algo dentro dele que o fazia desejar desviar os olhos.

— Não — ele respondeu, sentindo a boca secar. — É algo pior.

Cada veia retorcida apresentava uma cor e textura diferentes das outras. O que tinham em comum era estarem todas levemente entalhadas na pele do garoto, como fendas em uma rocha.

— George, a gente devia ir a um hospital...

Ele balançou a cabeça de forma negativa, lutando contra a onda de náusea que se agitava dentro dele.

— Não acho que isso seja o tipo de coisa que médicos possam ajudar.

Edie aproximou-se para examinar mais de perto as veias triplas que se entrelaçavam.

— Uma é diferente da outra.

— Sim... E elas não fazem parte de mim. Quero dizer, não são feitas de mim.

Por mais que tentasse, não conseguia eliminar o tom de repulsa em sua voz.

— Posso? — ela indagou, esticando a mão de forma hesitante na direção da dele.

Ele virou a cabeça para o outro lado. Não querendo ver.

— Essa aqui é lisa. Como metal.

George percebeu que não tinha como fugir, então respirou fundo.

— É metal. Talvez bronze ou latão — ela disse.

Ele afastou a mão e passou os dedos pelo volume azul-esverdeado que se contorcia sobre ela. Era gelado ao toque.

— Essa não é tão lisa. Parece mármore — concluiu Edie.

Faltava a última veia. George a esfregou, sentindo a dura textura rochosa do calcário. Ao passar o polegar por cima da linha, traçando seu curso, sentiu uma espécie de grão preso à superfície.

— Tudo bem — ele disse, cerrando os dentes antes de conseguir esboçar um sorriso. — Isso é assustador.

— Dói?

O garoto flexionou o braço. As veias pareceram acompanhar o movimento. Ele balançou a cabeça negativamente.

— Não. Mas tenho a sensação de alguma coisa rastejando.

Ele apontou para o braço e continuou:

— Está rastejando. É como se tivesse algo dentro de mim, mas não sou eu. Pra falar a verdade, isso está definitivamente me deixando apavorado.

— Então, o que você vai fazer? — Edie perguntou, aflita.

Ver a preocupação no olhar dela, de alguma forma fez com que a reação dele fosse sentir-se determinado a apagar aquele sentimento ruim dos olhos de Edie. Fazer com que ela se sentisse bem era quase um dever sagrado, e exercê-lo dava a ele uma estranha coragem para lidar com toda aquela situação incompreensível.

— Não vou pensar nisso — ele respondeu e levantou-se.

A chuva estava diminuindo. Ele se abaixou e a ajudou a se levantar. Não sabia de fato o que dizer, então resolveu repetir o que ouvia as pessoas dizerem na TV e nos filmes quando enfrentavam dilemas semelhantes.

— Edie. Vamos ficar bem. Vamos fazer isso juntos. Estarei bem aqui com você. Se alguma coisa ou alguém tentar se aproximar de você, vai ter que passar por cima de mim primeiro.

Assim que disse aquilo, teve certeza absoluta de que sua voz não soou tão convincente quanto os atores que estava tentando imitar. Talvez fosse preciso ser adulto para parecer machão. Edie correu os dedos pelo cabelo e lançou-lhe um olhar de dúvida.

— É mesmo?

Ele sorriu para ela e em seguida ensaiou a expressão de um cara durão.

— Sim. Sem dúvida. Nem tenha medo. Até sairmos dessa situação dou cobertura para você. Olhe para qualquer lado, e eu estarei lá.

Ele esperou que ela entrasse na brincadeira, que interagisse. Mas, em vez disso, ela concordou devagarinho com a cabeça.

— Isso... — Ela se esforçou para dizer o que queria, depois olhou bem nos olhos dele e completou — ... Isso é bom.

— Então, venha. Vamos ver o Frade.

Edie sentiu-se protegida pela confiança dele e estranhamente confortável pelo fato de que George a protegeria. Ela endireitou o corpo e apontou para a rua.

A inesperada confiança de Edie em sua coragem fez com que George começasse a crer que poderia mesmo protegê-la de qualquer coisa.

— A ponte Blackfriars fica nesta direção — ela virou-se, apontando o caminho.

Por estar virada, Edie não viu o que aconteceu a pouquíssima distância dela: uma gárgula saltou apressadamente da calha onde estava, caindo como uma pedra de meia tonelada na parte superior do beco onde eles estavam. As asas de morcego se abriram num segundo. Uma garra de trinta centímetros atingiu George bem no meio das costas enquanto a outra prendia o calcanhar do garoto numa espécie de armadilha.

E como aquela pedra pesada, aerotransportada e molhada sabia dar um baita soco, Edie não ouviu o grito de George. Ele nem sequer conseguiu gritar. Todo o ar ficou preso dentro dele enquanto a gárgula o carregava voando em direção ao céu escuro.

Edie, por sua vez, virou-se para ver o que estava atrasando George, porém nada viu. Nenhum George, onde um instante atrás havia um. Nenhum rosto familiar no meio dos pedestres molhados que se apressavam pela calçada atrás dela. Não havia mais ninguém para lhe dar cobertura. Era como se um dispositivo tivesse sido acionado, desligando seu amigo.

Então Edie ficou sozinha.