Mão de Ferro
O contador
13
EDIE ESTAVA PARADA NA CALÇADA, esperando que as luzes do semáforo mudassem de vermelho para verde. Ela estava na frente de um grupo de pedestres, todos impacientes para que o tráfego parasse e pudessem então continuar seus caminhos em direção à estação do Frade Preto. Todos estavam em seu próprio mundo, ouvindo música em seus fones de ouvido, falando em seus celulares ou simplesmente encarando o vazio à frente, perdidos em suas próprias Londres particulares. Ninguém prestava atenção nela.
— Uma fagulha. Em cima da Poça do Pato.
O ouvido de Edie captou as palavras bem de longe. A voz era masculina, calma, grossa e sem emoção, como uma máquina. Ela virou-se, achando que estava ficando nervosa e começando a imaginar coisas. Ninguém estava olhando para ela. Ela devia ter imaginado mesmo. As palavras não faziam sentido mesmo. “Poça do Pato” era só blá-blá-blá. Ela obviamente tinha ouvido só um pedaço da conversa e, como não fazia sentido, sua mente havia preenchido as lacunas da frase com sons semicoerentes, resultando naquele erro de percepção.
“Poça do Pato” era uma expressão antiga, não daquela Londres atual em que Edie vivia. Ela teve um flash de memória, não uma visão de fagulha — pequenos desenhos pálidos de patos brancos, usando véus cor-de-rosa e boinas azuis, o mesmo azul dos brincos de vidro jateado que sua mãe sempre usava, e os dedos da mãe passando por cima das palavras ao lado da figura e contando a história. A lembrança era feliz, portanto, traiçoeira e não deveria ser guardada na mente por tempo demais, pois havia o risco de que magoasse.
O semáforo abriu e o pequeno nó de pessoas começou a se mover novamente, aos poucos cada uma ia atingindo sua própria velocidade de caminhada.
Edie foi na direção do rio, e assim avistou o nome da rua escrito no canto de um prédio, claramente delineado em preto e branco. Ela seguia pela rua Poça da Doca. E assim que começou a repetir Poça do Pato e Poça da Doca, ouviu a mesma voz indiferente mais uma vez, porém com muita clareza agora.
— Uma fagulha. Na Poça da Doca. Indo para o rio.
Edie virou-se e o viu. Pela reviravolta em seu estômago pensou tratar-se do Caminhante. Mas segundos depois uma onda de alívio a percorreu quando viu quem era a figura falante. Tratava-se de um mendigo, vestindo um casaco longo que deixava sua silhueta similar à do Caminhante. Em vez do capuz do Caminhante, o mendigo tinha uma vasta cabeleira desalinhada que emoldurava sua cabeça com muitos dreadlocks. O homem apertava os olhos, sua mandíbula estava caída e a boca respirava calmamente, os dentes eram poucos, tingidos de preto e laranja. Ele a encarou como se esperando que fizesse alguma coisa.
— Uma fagulha. Na Poça da Doca. Parada no meio da rua...
A voz dele continuava impassível, sem vida. O homem tinha o olhar de alguém transformado em zumbi devido a uma overdose de álcool. Ela concluiu que ele estava profundamente embriagado.
Os outros pedestres já tinham sumido. Apenas dois deles ainda podiam ser vistos no meio da rua.
Para Edie aquele homem não passava de um louco da rua, e loucos da rua e bêbados eram coisas que não a assustavam. Primeiramente, porque ela sentia lá no íntimo que ela própria era uma louca da rua, e em segundo lugar porque sabia tudo sobre bêbados e seus diferentes níveis de embriaguez. O que a assustava não era o mendigo em si, mas o que ele estava falando. Sendo assim, procurando manter-se longe do alcance de qualquer ataque súbito daquele estranho, ela aproximou-se um pouco mais dele e indagou:
— O que você disse?
— Uma fagulha. Na Poça da Doca. No meio da rua. — Ele repetiu, e era uma réplica exata e sem emoção da frase dita anteriormente.
— Por que você me chamou de fagulha? — ela perguntou, sentindo a boca seca ao tentar prever a resposta.
— Porque você é uma fagulha — ele disse, sem mostrar interesse nem tirar os olhos apertados de cima dela.
A indiferença era mais perturbadora do que o fato de ele ver o que ela era. Edie inclinou o queixo para frente, determinada a não se deixar trair pelo desconforto e intimidação que começavam a crescer dentro dela.
— Quem é você?
A língua dele apareceu molhada por entre a ruína despedaçada que era a sua boca.
— Somos o Contador.
— Você é o quê?
— Somos o Contador.
A inflexão era idêntica à primeira vez que havia pronunciado a frase — no mesmo tom, desinteressada. Como uma gravação. Como a voz que sai de um computador.
— Nós? — ela disse, olhando ao redor. Sentiu-se aliviada por vê-lo sozinho. — Você é “nós”? Faz parte da realeza como a Rainha?
— Nós somos o Contador — ele disse, repetindo-se, desinteressado, imóvel, olhos presos nela.
A repetição monótona era tão irritante quanto enervante.
— O que você está fazendo? — ela perguntou no momento em que um caminhão passou pelo seu ombro direito.
— Contando você.
— Me contando?
— Contando você. Uma fagulha. Na Poça da Doca. Parada no meio da rua…
— Por quê? — ela perguntou, confusa. — Por que você está me contando?
O caminhão em alta velocidade fez o trânsito atrás de Edie parar e deixou o Contador na sombra, fazendo-o parar de apertar os olhos.
— Somos o Contador.
Mais uma vez a resposta impassível veio como que explicando o óbvio. Edie prestou atenção nos olhos dele. Definitivamente não eram olhos humanos, estavam inteiramente pretos, não havia absolutamente nenhuma parte branca — pareciam olhos de corvo. Conforme essa convicção repentina e cheia de horror a dominou, ela percebeu que aquele mendigo não era só um mendigo.
Edie partiu em disparada em direção ao rio, passando por um carro e um motoboy.
O Contador não correu atrás dela. Ele simplesmente continuou a repetir as palavras de sempre, conforme esperava por uma brecha no trânsito:
— Uma fagulha. Correndo pela Poça da Doca. Indo para o rio.