Mão de Ferro
Fuga para o silêncio
32
— V AMOS, FAGULHINHA, é hora de correr para outro lugar — disse Pequena Tragédia, puxando Edie por entre os arcos espelhados, de volta para o canto escuro mais à frente.
De onde estava podia ver o Frade, na porta da frente do pub, com uma expressão bastante séria, falando com quem estava do outro lado. Correr para outro lugar parecia mesmo a melhor ideia. Deu uma olhada em volta e deu-se conta de um problema: não havia qualquer porta que pudesse levá-los para fora dali. Parecia ser um lugar à prova de fuga. Um beco sem saída.
De repente ela sentiu que tinha caído em uma arapuca.
Como se estivesse lendo seus pensamentos, Pequena Tragédia colocou o dedo nos lábios e depois se balançou como um macaco em uma das luminárias da parede e fez algo no mosaico redondo do teto. Então, desceu para o chão, ágil como um gato.
— Confie em mim. Sei de um lugar onde o Contador não vai encontrar você.
Ele apontou para os espelhos paralelos. Os pés dela travaram no tapete. Ela não pretendia voltar para a Blitz. Ele, impaciente, balançou a cabeça.
— Tudo bem. Fiz a mudança necessária no mosaico do teto. Não vamos para o passado, apenas para outro lugar da cidade, um lugar onde não possam encontrar você. É uma casa, uma casa bem segura, não se preocupe. Olha, não é nada mau.
Ele apontou para o espelho. Ela ficou perto o suficiente para dar uma olhada. Não havia fogo do outro lado do espelho. Havia apenas uma sala vazia, com paredes cinzentas, sem quadros ou enfeites. O assoalho também era cinza e estava cheio de pó. A única coisa que aliviava aquela feiura toda era o luar que se projetava no chão, passando pela janela quadriculada. Não havia mais nada no quarto, nem sombras onde o perigo pudesse se ocultar.
Ela ouviu o Frade levantar a voz na entrada principal. Ouviu as palavras “Caminhante” e “Pedra”, e isso a fez encher-se de coragem para entrar novamente no espelho.
Com a cabeça, sinalizou para Pequena Tragédia a jaqueta de George, que estava pendurada numa torneira da chopeira.
Ele olhou e concordou com a cabeça.
— Você está certa. Não queremos esquecer o bonitinho, não é mesmo?
Então, rápido como o pensamento, atravessou o bar, passou a mão na jaqueta e voltou.
Ele sussurrou:
— Primeiro as damas.
Mas pouco antes de entrar no espelho, ela parou para pensar novamente, e hesitou. “E se...?”
Antes que o seu pensamento fosse mais longe, o impaciente Pequena Tragédia fez um barulho: meteu-se dentro do espelho e puxou Edie pelo braço. Edie seguiu atrás dele, sentindo a tensão vindo à tona na elasticidade do espelho, e ouviu o mesmo estouro de antes, até sentir-se em solo firme novamente.
Dessa vez, no entanto, em vez de seus ouvidos sofrerem com o barulho terrível dos bombardeios, ela experimentou o oposto: a mais completa tranquilidade. Era o som de uma cidade em paz consigo mesma. Tal era o silêncio, que podia sentir seu coração desacelerar depois de tantas doses de adrenalina.
A diferença agora, em comparação à última viagem que tinha feito pelo espelho, não era apenas a falta de explosões e fogo, mas a temperatura. Não estava quente. Não havia correntes de ar, mas mesmo assim o calor inexistia.
— Está frio! — ela exclamou, observando sua respiração virar fumaça enquanto se virava para encarar Pequena Tragédia.
— Às vezes faz frio, às vezes não. É uma sala velha e engraçada — disse o menino, que a olhava por cima da jaqueta que trazia no ombro.
Havia algo nos olhos dele que ela nunca vira antes. Ele ainda tinha o sorriso arrogante de um pivete, mas seus olhos não coincidiam com o sorriso. Verdade seja dita, seus olhos não estavam sorrindo. Estavam dizendo algo completamente diferente, algo nada alegre, ou animado, ou atrevido.
Seus olhos expressavam arrependimento.
— Ele não é um homem mau. Está sempre cuidando das fagulhas. Ele mesmo me contou isso. Disse que ninguém cuida delas melhor.
O coração de Edie gelou e sua mão se dirigiu instintivamente até o bolso, segurando o já bem usado disco de vidro do mar. Mesmo quando o tirou do bolso para iluminar a sala cinza, ela já sabia o que iria ver. O disco já estava quente ao toque e reluzindo uma luz de aviso. E quando a luz brilhou e projetou a sombra dos seus dedos nas paredes cinzentas, ela completou — tarde demais — o pensamento que tinha começado a elaborar no pub pouco antes que Pequena Tragédia a puxasse para o espelho.
Se o Frade a tinha protegido da explosão de uma bomba, portanto salvando-a da Blitz, por que não a salvaria do Caminhante? E a resposta era óbvia: ele provavelmente a salvaria do Caminhante. Só restava saber por que o menino travesso a puxara para o espelho sem que o monge soubesse, e por que estava agindo de forma tão estranha...
— Você não está falando sobre o Frade, não é?
Os olhos dele giraram para todos os lados, exceto para o rosto dela, para o choque e o horror estampados nos olhos de Edie. Ele ofereceu a jaqueta, como se estivesse fazendo uma oferta de paz.
— Aqui está, pegue seu casaco. Está frio aqui.
Ela olhou para o espelho atrás dele, calculando como poderia chegar até lá sem ser interceptada.
Aceitou a jaqueta e falou devagarinho:
— Obrigada!
Ela rapidamente bolou um plano: jogaria a jaqueta sobre a cabeça dele e correria até o espelho. Mas lembrou-se da cabeça quebrada do dragão no bolso e achou melhor levá-la com ela. Quando tocou discretamente o bolso do casaco, ela percebeu que não havia mais nada ali. Hesitou, confusa por um instante e, ao olhar para cima, viu onde a cabeça do dragão estava.
Pequena Tragédia segurava a escultura quebrada na mão e aproveitou-se da surpresa de Edie para recuar até o espelho em dois passos rápidos.
Com a voz rouca, ela implorou:
— Você não pode levar isso! Espere!
O sorriso dele estava realmente por um fio, e os olhos pareciam muito tristes, quase pulando para fora do rosto. Ele mais parecia um menino Trágico usando a máscara da Comédia, do que o contrário.
Edie contemplou as paredes acinzentadas e algo que se movia bem devagar além das janelas. Um novo pavor começou a tomar conta dela. Por fim, suplicou:
— Não me deixe aqui!
O menino insistiu:
— Ele não é um homem mau. Ele me disse.
E então colocou uma perna para dentro do espelho. Fez uma pausa, como se quisesse já ter ido embora, mas a consciência não o deixava sair tão depressa. Era como se ele realmente quisesse que ela aprovasse o que estava fazendo.
— Tragédia, não, por favor...!
Ele balançou a cabeça. Algo brilhava em seus olhos.
— Ele já está chegando. Você vai ficar bem, não se preocupe.
E quando ela saltou na direção dele, tentando chegar ao espelho, já era tarde. Tudo o que conseguiu foi bater o rosto no vidro frio e duro.
Seu primeiro impulso foi o de dar um soco forte no vidro para quebrá-lo, mas o bom senso prevaleceu e ela desistiu a tempo. Por algum motivo não conseguia voltar para dentro do espelho, mas, se ficasse calma, talvez pudesse encontrar outra maneira de sair dali.
Ela deu um passo para trás, tentando esvaziar a cabeça e aliviar o pânico. Ainda estava lívida de indignação com a traição de Pequena Tragédia.
Olhou em volta. Havia uma porta, quatro paredes e uma janela. A porta era a escolha óbvia, mas por alguma razão, cuja insistência foi se tornando cada vez maior em sua mente, não quis abri-la, ou mesmo tocá-la.
Então foi até a janela e olhou pelas barras de ferro que protegiam o lado de fora. A coisa que tinha visto se movendo do outro lado da janela ainda estava em movimento, e o sinal de alerta que a coisa tinha provocado estava cada vez mais alto e estridente em sua cabeça.
Era neve.
Os telhados que recebiam a neve não eram os mesmos da Londres que ela tinha acabado de deixar. Não havia lâmpadas de sódio nas ruas; nada de antenas de TV, nem de antenas parabólicas; nada de neons ou qualquer brilho cintilante. Não havia luz elétrica que pudesse, de algum modo, ser vista lá de fora.
Tudo parecia tranquilo. O único fato digno de nota era o de que a neve estava amortecendo todos os sons conforme cobria a cidade. Simplesmente não havia ruído de tráfego. Nenhum carro, nenhum ônibus, nenhuma motocicleta barulhenta. Só se ouvia um som distante de um realejo, e o retintim dos arreios dos cavalos.
Ela olhou para baixo por entre as grades, e na estreita faixa de rua que conseguia distinguir, viu um cavalo puxando uma charrete de aluguel; as rodas da charrete lentamente formavam marcas na neve alta que se acumulava na rua. O condutor, sentado na parte alta do veículo, chicoteava a parte traseira do cavalo; o homem usava uma cartola presa à cabeça com um cachecol e envolvia as pernas com um cobertor. Edie ficou observando enquanto ele deixava as marcas de sua travessia na neve.
Ela sabia que Pequena Tragédia tinha mentido sobre mais de uma coisa: Edie não tinha sido deixada na Londres do tempo presente, mas em uma Londres mais antiga, cujos ruídos eram amortecidos pela neve; uma Londres gelada onde os cavalos puxavam charretes de rodas de madeira pelas ruas estreitas; uma Londres onde fazia frio o suficiente para causar o congelamento dos rios e para que as meninas se afogassem nos buracos abertos no meio do gelo.
Sabia também que o garoto havia mentido sobre aquela ser uma casa segura, pois Edie sempre conseguia distinguir se as pedras guardavam tristeza, angústia ou horror; esse tinha sido o motivo por que não quisera tocar as paredes cinzentas ou até mesmo a maçaneta da porta.
Ela sabia de tudo isso mesmo sem ouvir o som distante de soluços que vinham de um piso inferior, além da porta.
Aquela não era uma casa segura. Aquela era a Casa dos Perdidos.