Mão de Ferro
Aerotransportado
8
TODO MUNDO QUER VOAR. Em algum estágio da vida, todo mundo olha para o céu e vê um pássaro em animado voo pelos ares. Sem esforço algum, pensa: “Queria, apenas uma vez, que aquele fosse eu”.
Mas certamente ninguém gostaria de voar sob aquelas circunstâncias em que George se encontrava.
Ele estava de ponta-cabeça, com as costas arqueadas, olhando para o chão abaixo, sem conseguir respirar por causa do golpe no meio das costas, sentindo o fôlego preso, a boca amordaçada,
Tudo o que podia fazer era esticar a mão desesperadamente na direção de Edie, que ficava cada vez menor enquanto seguia na direção errada, passando por uma calçada cheia de gente, tentando encontrá-lo. Ela parecia uma folha dentro de um redemoinho, girando rápido, olhando para todo lugar menos para a direção certa, que era para cima.
E então, assim que a visão dele começasse a se transformar num borrão turvo por causa da falta de oxigênio, ele encontrou fôlego para encher o peito de ar e gritar — nesse mesmo momento a gárgula chegou ao topo de um edifício e ele perdeu Edie de vista.
— Edie!
Ele gritou com todas as forças que lhe restavam, e uma palavra entrecortada saiu de sua garganta, como a morte da esperança. Em vão, pois seu lamento foi abafado pelo enorme barulho da cidade abaixo.
Acima dele, ouviu a gárgula resmungar em desaprovação, e sentiu o aperto na perna aumentar. Após algumas batidas de asas eles já haviam ultrapassado mais um bloco de edifícios e estavam sobrevoando o Tâmisa.
George olhou para a água lá embaixo, depois para cima, bem a tempo de seus olhos se encontrarem com os de seu predador. No microssegundo em que se encararam, ele reconheceu a cabeça de gato resmungona.
— Bica?
Não havia dúvida em sua mente. Aquela era a gárgula que ele apelidara de Bica, a gárgula que tinha tentado matá-lo no Monumento naquela manhã, a gárgula que tinha visto ser transformada em pedacinhos pelo Artilheiro. O estigma que devia estar definitivamente aniquilado.
— Mas você está morta.
A gárgula sibilou novamente e George viu a frente de tijolos da chaminé industrial acima do edifício Tate Modern ficando cada vez mais próxima, e embora tivesse certeza de que a Bica tinha a intenção de se espatifar contra a construção, ele continuou encarando a criatura, sem ter ao menos a energia para elevar uma das inúteis mãos para impedir o inevitável. Mas no último instante a Bica girou no ar e agitou a ponta de uma das asas sobre a entrada da chaminé, fazendo com que parassem.
George ficou pendurado ali, com o nariz nos tijolos, sentindo a cabeça latejar horrivelmente, buscando trazer ar para os pulmões e imaginando se seu coração ia, de fato, sair de sua boca como parecia estar tentando.