Mão de Ferro
Final feliz
38
O CAMINHANTE AFIRMOU:
— Não há finais felizes. Mas espero que você já saiba disso.
Edie o viu colocar um pacote embrulhado com um lenço na mesa, no meio da sala, e depois voltar a sorrir de forma sinistra. Todos os seus músculos estavam tensos, prontos para correr ou lutar, mas o fato de a porta estar trancada e os cães estarem do lado de fora reduzia drasticamente as possibilidades de sucesso para qualquer das duas opções que escolhesse.
— É mesmo? — ela indagou, controlando o tremor em sua voz.
Ele respondeu:
— É a verdade da vida. Agora, por favor, não faça nada repentino ou estúpido.
Ele cravou a ponta da adaga na superfície da mesa e caminhou até Edie. Ela olhou para o punho enfeitado com joias e a lâmina comprida que refletia a chama da vela. Lembrou-se de como ele a tinha carregado quando ela reluziu a cena do Tâmisa congelado; quando ela o viu perseguindo a garota que ele acabara afogando em um buraco feito no gelo. A menina cujo rosto era igual ao dela, e que, com certeza, não tivera um final feliz.
Ela disse:
— Então isso é bom, porque significa que também não há um final feliz para você.
Edie sentiu a respiração do Caminhante em seu rosto quando ele se inclinou e riu baixinho, ao amarrar a mão direita dela ao braço da cadeira.
— Oh, há uma exceção para cada regra. No meu caso, sendo eu amaldiçoado a caminhar eternamente, significa que não tenho um fim previsível. O que é uma vantagem, claro.
Ele segurou o pulso esquerdo de Edie e puxou a mão dela do bolso. Foi então que ela deixou cair a pedra do coração e ele rapidamente amarrou seu braço esquerdo na cadeira, com a mesma agilidade de alguém que tinha feito isso muitas outras vezes.
Tudo que restava a Edie eram os pés.
Mas ele sussurrou:
— Nesse momento, algumas de vocês pensam que me chutar seria um desfecho heroico.
Foi até a mesa e puxou a adaga. A lâmina brilhava. Ele a espetou no braço da cadeira.
— Chutar nunca é uma atitude heroica. Posso sempre deixar que os cães entrem. E eles não são tão compreensivos quanto eu.
Edie relaxou o pé. Tudo o que o Caminhante dizia era uma espécie de ameaça. Até os sorrisos de satisfação dele eram ameaças. Tudo ali fora projetado para deixá-la assustada. E ela sabia o objetivo disso: bloquear seu pensamento. Em situação de medo, uma pessoa podia congelar como um um cervo ao avistar os faróis de um carro próximo. O medo era capaz de aniquilar a primeira linha de defesa: o pensamento racional. Percebendo o risco, Edie resolveu calar-se e refletir sem entrar em desespero.
E enquanto pensava, começou a observar atentamente a sala e a posição das coisas que estavam ali: as prateleiras, as pedras sobre elas, a mesa, as janelas chumbadas que não podiam ser abertas, as pilhas de papel no chão ao redor da mesa. Ao fazer isso, empurrou o medo para o fundo da mente, para aquele mesmo lugar onde, antes, já havia mandado a sensação de que estava ficando louca quando se virou e viu que George tinha desaparecido. Se necessário, poderia reativar os mecanismos do medo e da loucura mais tarde. Agora tinha que manter toda a sua energia focada na razão.
Só uma coisa importava, e somente a ela daria atenção: o agora. Faria de tudo para não morrer naquela sala empoeirada.
O Caminhante estava com o pacote nas mãos, aquele contendo o que roubara do Museu Britânico.
— Você quer que eu toque algumas dessas pedras, não é? — ela disse, apontando com o queixo para as prateleiras.
— Você é uma fagulha inteligente — ele comentou com sarcasmo, girando a cadeira de rodinhas nos pés, fazendo Edie ficar bem de frente para ele.
Ela argumentou:
— Eu sou uma fagulha. É o que fazemos.
Ele sorriu:
— Certamente.
Ele aproximou-se da mesa e abriu um espaço em meio aos papéis para desenrolar o pacote. Assim que ele pegou os grossos discos de cera, que pareciam ser mais queijos do que qualquer outra coisa, ela pensou, por um instante, que o Caminhante estava desempacotando um piquenique. Mas ela viu os misteriosos símbolos mágicos riscados nos “queijos” e percebeu que eram coisas bem diferentes.
Ele resolveu falar a respeito, porém sem olhar para ela:
— Perdoe o meu bom humor, mas são velhos amigos, e esperei muito tempo para recuperá-los. E é graças a você e ao menino que temos motivo para estarmos felizes pelo nosso reencontro.
Com muito cuidado, ele colocou o fino disco de ouro no topo da menor das chapas circulares de cera, concentrando-se em alinhar o desenho com as marcas riscadas na superfície. E então colocou a pequena bola de cristal no centro. Edie pensou que a bola ia rolar e cair, mas houve um quase inaudível “clique” quando o Caminhante soltou o objeto, como se houvesse um ímã ali. E a bola não só ficou exatamente no centro, como também passou a descrever um lento movimento de rotação.
O Caminhante, exalando satisfação, voltou sua atenção para o Espelho Negro prensado entre os dois maiores discos de cera. Vestiu as luvas que pegou dos bolsos e levantou o disco superior, colocando-o na beira da mesa, perto dela. Depois, pegou o espelho que estava sobre o outro disco pela alça e, com cuidado, o posicionou no topo daquele que estava a poucos centímetros das mãos vazias de Edie.
Ela sentiu a superfície preta atraí-la com tanta força, que sua mão começou a se mover sozinha em direção ao disco. Edie tentou puxá-la de volta, mas a atração magnética era bem mais forte que ela.
O Caminhante viu isso, e disse:
— É forte! Toque-o!
Ela hesitou, horrorizada com a maneira como a escuridão brilhante estava puxando sua mão.
O Caminhante se aproximou e a empurrou para mais perto da beira da mesa. A escuridão arrastou a mão da menina pela superfície de madeira áspera. Ela cravou as unhas, mas não adiantou.
Edie não tinha ideia do que havia na pedra, mas sua intuição dizia que era mais forte do que qualquer outra coisa que ela já tinha visto.
Não conseguia imaginar que tipo de terror ou dor estava prestes a experimentar quando sua mão completou a jornada inexorável em direção à superfície espelhada.
Com um esforço final, ela jogou todo o peso do corpo para trás. Seus pés reagiram, batendo e espalhando uma pilha de papéis empoeirados sobre o piso. Mas foi inútil. Subitamente, sentiu sua mão ser sugada com violência, e acabou batendo com a palma aberta no centro do espelho negro.
O solavanco produzido pelo contato se fez sentir em seu corpo e em todo o ambiente circundante, emitindo uma silenciosa onda de choque nas camadas de poeira, soprando-as para o ar em torno dela. O impacto também apagou a vela e, por um instante, tudo ficou imerso na mais absoluta escuridão. Em seguida, houve o barulho de alguém riscando um fósforo; era o Caminhante reacendendo a vela. Ambos tossiram por causa da poeira que ainda se movimentava no ar.
Edie, porém, ao tossir, percebeu uma coisa extraordinária.
Ela não estava brilhando, como acontecia normalmente ao tocar as pedras. Não da maneira como já havia experimentado.
O passado não estava se mostrando em flashes irregulares de dor.
Normalmente, o brilho não dava chance para qualquer outro pensamento até que seu ciclo se completasse. Mas com aquele espelho, a sensação foi diferente e não doeu de imediato. Ela ainda conseguia discernir as coisas, como a ausência de dor, por exemplo.
O instante traiçoeiro de surpresa e alívio durou pouco.
Ela não estava sentindo o passado na pedra.
Não estava sentindo nada.
Absolutamente nada.
Aquela pedra não era um depósito de dores pretéritas. O que quer que aquele objeto tinha testemunhado havia se transformado num vazio palpável, vazio este que Edie podia agora sentir. E tocar o vazio era, de fato, aterrorizante. Era como se estivesse tocando o exato oposto de todas as coisas: tudo à sua volta era algo, ao passo que tudo na sua mão, sugando seus dedos estendidos, não era nada.
O sentimento era tão estranho que, se tivesse que escolher entre enfrentar aquela realidade vazia ou a pessoa mais terrível e nojenta da Terra, ela teria escolhido o monstro sem pensar duas vezes, e não o espelho.
O vazio surrupiava e transformava tudo em uma equação muito simples: humana e desumana.
O que estava na sua mão era uma possibilidade de algo tão amplo e cosmicamente ruim que ela não conseguia focar a mente e decifrá-lo. E nem queria.
O Caminhante disse:
— Você sente isso.
Edie sussurrou:
— É o mal.
— É apenas diferente — ele sorriu. — O mundo está cheio de pessoas que estigmatizam o que são demasiado burras para entender com palavras, como o mal e o profano. É uma forma de poder que só os mais inteligentes e corajosos podem entender, e que me tornará livre e poderoso...
Edie ficou ofegante quando algo mais penetrou em sua consciência.
Ele perguntou:
— Você consegue sentir essas coisas?
Ela percebeu, horrorizada, que sim. A realidade sobre uma ausência ou um vácuo deveria, por sua própria natureza, ser também um vazio. Mas não era. Edie foi lentamente tomando consciência das coisas à beira do buraco negro no final de seu braço. Eram como sombras na escuridão, mudando e olhando para ela por cima da borda do nada. Ela tentou ver o que eram, mas sua mente e visão se afastavam a cada tentativa, à medida que as sombras se escondiam.
— Você vê as Presenças? — ele perguntou, ansiosamente.
Ela respondeu quase sem fôlego:
— Não. Mas elas estão aí...
Ele disse, exultante:
— Sim, sim! Mas não se preocupe. Ainda não. Elas não podem vir aqui a menos que uma porta seja aberta. E para que isso aconteça, precisamos de outro Espelho para acomodar os reflexos. Eu já tive o par de espelhos perfeitos, mas me roubaram um deles antes que eu tivesse aprendido a usá-los com segurança, ou entendido como deter as Presenças dentro de limites seguros deste lado, quando elas aparecessem do vazio. O imbecil que me roubou pensou que eu ia desencadear o Final dos Dias ou alguma besteira semelhante.
Os olhos do Caminhante se encheram de ódio com a lembrança. Então puxou a adaga do braço da cadeira, olhou para ela, e deslizou-a de volta para a bainha do cinto.
— Depois eu encontrei o infeliz e acabei com ele, mas nunca mais achei o segundo Espelho. Tenho feito uma verdadeira varredura nesta metrópole desde então.
Ele sorriu de repente. E seu sorriso era pior do que o olhar de ódio.
— Mas agora que tenho uma fagulha e uma Mão de Ferro, poderei atravessar o obstáculo que há três séculos vem me impedindo de abrir as portas do Espelho.
De súbito, ele puxou o disco de ouro da chapa protetora, e a bola de cristal que estava em cima ficou girando com toda força. Na mesma manobra, deslizou o disco entre a mão de Edie e o Espelho Negro; e quando a ligação entre ela e o vazio foi interrompida, Edie sentiu uma dor abrupta e cruel, como se um membro lhe tivesse sido repentinamente amputado. Depois disso, sua mão ficou livre, e ela irrompeu em soluços.
Edie contorceu-se de dor quando sua mão se agitou no braço da cadeira, da mesma forma como os nervos de um peixe morrendo se contraem.
O Caminhante perguntou:
— E então? Não foi tão mal, foi?
Mal?
Tinha sido absolutamente terrível. Aquela superfície negra mexera com o equilíbrio de sua essência. Edie soube ter tocado em algo que os humanos não foram concebidos para ter consciência, muito menos para entrar em contato. Não tanto pela dor, mas pelo trauma; se sua mão estivesse livre, ela teria pegado a adaga e matado o Caminhante, apenas por tê-la feito tocar naquilo.
Ofegante, ela respondeu:
— Foi pior. Não foi como brilhar ao tocar em uma pedra.
— Claro. E, obviamente, o Espelho não é realmente pedra. Os cientistas, esses novos mágicos da sua era, dizem que o Espelho nunca foi uma pedra. É obsidiana, que se parece com uma pedra, mas é um tipo de vidro, um vidro vulcânico.
— É um vidro. Como...
Ele esboçou um sorriso amarelo:
— Sim, como a sua preciosa pedra do coração. Não se preocupe. Guarde-a por agora. Você vai precisar de toda a sua força.
Com um braço, ele apontou para os pacotes embrulhados nas prateleiras. Todos continham pedras.
— Você vai ter que tocar todas essas pedras pretas. Passei muito tempo juntando-as, como você pode ver pela quantidade. A minha esperança era de que algum dia tivesse a sorte de encontrar um Fazedor-Chefe e uma fagulha, e que eles pudessem me dizer qual desses itens irregulares mais se aproxima da sensação causada pelo Espelho Negro.
Nesse momento, tudo ficou claro para ela.
— Você acha que George pode fazer um novo Espelho para você?
— Eu sei que ele pode.
— Mas ele não é pedreiro, ou qualquer coisa semelhante. É só um menino.
— Não estamos falando de uma habilidade aprendida. Quando você escolher a obsidiana certa, seu amigo vai sentir a forma que deve dar a ela. Está na linhagem dele.
Edie balançou a cabeça.
— Não. Ele não vai fazer isso por você, mesmo que tenha esse poder. Nunca.
O Caminhante disse com simplicidade:
— Mas ele vai fazer isso por você, para salvá-la.
E com uma sensação angustiante que lhe apertou o peito, ela sentiu que ele estava certo.
O Caminhante soltou o braço direito de Edie de qualquer jeito, libertando-o das amarras. Apontou para as prateleiras e afirmou:
— Vou desembrulhar aquelas pedras. E você vai senti-las. Terá que me dizer qual é a que se assemelha ao Espelho de obsidiana.
Depois a encarou. Ela estava tentando se livrar do medo e voltar a pensar direito novamente.
— Certo!
Isso iria lhe dar mais tempo. Pelo menos agora, uma de suas mãos estava livre, mesmo estando a outra fortemente amarrada à cadeira pesada.
— Soltei sua mão para que possa alcançar todas as três prateleiras. Se você me desobedecer, soltarei os cachorros em cima de você. Entendido?
Ela ouviu os dois mastins famintos farejando sob a porta e fez que sim com a cabeça. O Caminhante seguiu em direção à prateleira mais distante de Edie, desembrulhando pacote após pacote, revelando pedras pretas de diferentes formas e tamanhos.
— Algumas são obsidianas, outras meras pedras. Eu não sabia a diferença quando comecei minha coleção. Mas não se preocupe. Basta tocar o vidro preto — disse ele enquanto se afastava.
A palavra “pedra” fez com que Edie tivesse uma ideia. A faixa que imobilizava seu outro braço tinha apenas um centímetro de largura, embora fosse bastante resistente. Rompê-la não parecia algo impossível. Ela só precisava da ferramenta certa e do momento apropriado.
Tudo iria depender do Caminhante.
Ele ordenou:
— Vá em frente.
Ela respirou fundo e tocou a placa de pedra mais próxima. Tinha o mesmo tamanho de uma lista telefônica.
Ela teve um espasmo ao sentir a memória que estava gravada ali.
Uma mulher de cabelos ruivos chorava; vestia um casaco verde e estava na cadeira na qual Edie estava sentada.
Com toda força, a mulher segurava uma pedra do coração que ardia em chamas, e que estava presa à lapela de sua roupa como se fosse um broche. O cabelo dela era grande, como o de uma mulher de astronauta em um curta-metragem dos anos 60. Devido ao choro, o rímel espesso que tinha passado nos olhos corria e manchava seu rosto.
Ela gritou assustada quando o Caminhante chegou e arrancou a pedra do coração de sua mão.
Edie teve uma convulsão ao sentir a onda irreparável de angústia que tomou conta da mulher quando esta ficou sem a pedra.
Ouviu o Caminhante dizer:
— Tente outra e você terá sua pedra de volta...
A visão do passado acabou, e era ela mesma que estava amarrada à cadeira. Então tentou entender o que tinha acabado de ver.
— Você fez outras fagulhas testarem essas pedras.
Ele acenou com a cabeça:
— Ignore as memórias delas. A dor que sentem é... Uma pequena distração. Encontre para mim a pedra que pode conter uma porta, um portão ou um portal. Toque todas elas. Agora! — Ele bateu no cabo da adaga. — Experimente me frustrar escolhendo a pedra errada e eu esfolo o menino bem na frente dos seus olhos. E aí você vai assistir à vida dele se transformar numa poça de sangue a vazar pelas fendas destas tábuas de madeira.
— Mas por que você precisa de mim, se já teve outras testando as pedras? — Edie perguntou, em uma última tentativa de adiar o inevitável.
— Porque a natureza do vazio do Espelho muda com o tempo. É como se tudo além da porta do Espelho se movesse. Para detectar a sintonia entre os dois espelhos certos a combinação perfeita é uma fagulha e um Fazedor-chefe. Por isso, ter você e seu amiguinho nas mãos é algo tão auspicioso.
Edie sinalizou com a cabeça, virando-se lentamente para tocar a próxima pedra. E depois outra.
E assim começou a mais longa hora de sua vida. A maioria das pedras tinha pelo menos uma memória impregnada de angústia de fagulhas anteriores, por vezes, mais do que uma. Edie perdeu a conta de tanta dor e tantos rostos de desespero que se amontoavam à medida que arrastava a cadeira com rodas, tocando pedra após pedra.
O tormento se mostrava por meio de faces e gritos que se mesclavam.
Edie sentia como se estivesse se afogando em um mar de lágrimas intermináveis. Começou a se convencer de que aquilo se estenderia para todo o sempre. Apenas a proximidade da pedra do coração no bolso a mantinha firme, pois representava sua última pontinha de esperança, seu secreto e desesperado plano de fuga, um plano que só poderia ser executado quando todos estivessem no lugar certo. A tarefa era tão árdua — ver a agonia de mulheres e meninas desesperadas — que quando ela encontrou uma pedra vazia, chorou de alívio.
O Caminhante nem precisou perguntar se aquela era “a” pedra. Só olhou de onde se mantinha curvado, à luz da vela, vendo os papéis soltos, e sorriu.
— Bom.
Edie encostou-se à prateleira enquanto ele passava por ela e levava a última pedra até a mesa. Assim que ele se afastou, Edie pegou uma placa de obsidiana de uma das prateleiras e observou se ele ainda estava se afastando.
Quando ele chegou à mesa e colocou com cuidado a pedra vazia na superfície próxima ao Espelho Negro, ela respirou rápido e fundo. Então fechou os olhos.
Levantou a placa pesada e, num golpe, a jogou sobre outra de mesmo tamanho.
Ouviu um barulho agudo e sentiu pedacinhos de pedra passarem voando perto do rosto.
Algo picou sua orelha, mas ela ignorou e abriu os olhos.
Com certeza, a obsidiana tinha quebrado, deixando fragmentos finos por toda a prateleira.
O Caminhante gritou:
— O que você está fazendo?
O barulho fez com que os cachorros do lado de fora começassem a latir furiosamente. Edie não poupou nem um milésimo de segundo esperando pela reação do Caminhante. Se ele fosse estragar seus planos, ela logo ficaria sabendo. Sua mão livre correu para os restos de pedra e agarrou um caco longo e afiado como uma navalha. Ela pegou o caco pelo lado errado, mas conseguiu girá-lo no ar, de forma que a ponta afiada da lâmina ficasse à mostra. Feito isso, cortou o material que prendia o pulso de sua outra mão.
A lâmina de obsidiana, mais afiada do que o mais afiado dos bisturis, tendo sua borda a espessura de uma única molécula, parecia assobiar ao cortar o ar e atingir a faixa firme, rompendo-a num segundo.
Sem parar, ela manteve o impulso do golpe e empurrou a cadeira pesada onde estava sentada de encontro ao Caminhante.
Pego de surpresa pelo ataque frontal, ele bateu na madeira sólida da cadeira e caiu.
A vela sobre a mesa caiu com o impacto, mas não apagou. Ficou a rolar por entre algumas das folhas de papel soltas que Edie tinha mandado aos ares quando entrara em convulsão.
Com uma das mãos, o Caminhante conseguiu agarrar uma ponta da jaqueta que ela vestia. O rosto dele, normalmente sarcástico, estava vermelho de tanta raiva e dor.
— Você vai me pagar, sua pequena bruxa maldita! — gritou tão alto como um trovão, tentando arrastá-la até ele.
Edie disse calmamente:
— Você também. E não me chame de pequena!
E com toda força e sangue-frio, ela passou a lâmina de obsidiana no rosto dele.
Assim que ele a soltou, ela nem esperou para ver por que ele berrava tão alto. Simplesmente saltou por sobre seu corpo arqueado, atravessou a sala e agarrou outro pedaço grande de pedra da prateleira mais próxima. Esse pedaço era tão pesado, que mal conseguia levantá-lo, e com a última de suas forças, atirou a pedra pela janela de vidro. A neve invadiu a sala com uma rajada de vento, enquanto ela saltava para a escuridão da noite, sem um segundo de hesitação.
Seu único pensamento era o de que, por tudo o que sabia, corria o risco de quebrar o pescoço. Mas sabia também que qualquer coisa era melhor do que permanecer naquela sala, perto do vazio que a puxara para dentro do Espelho Negro.