Obcecado pela Protegida: O Tutor Grego e a Bailarina

Capítulo 9

Eu espero que ela não seja dócil. Torço para que seja uma lutadora porque quero muito quebrá-la.

Suspiro quando meu corpo é tomado pela necessidade que sempre esteve em mim de provocar dor.

Eu acabo de descartar o plano anterior. Eu não vou matá-la depois de alguns meses. Vou mantê-la para sempre comigo. Uma fada de asas quebradas.

Uma doce menina que nem chegou a viver.

Porém, para que tudo dê certo, eu preciso ser paciente.

 

Capítulo 9

Nova Orleans

— Tem certeza de que não quer ir à apresentação? —

pergunto, muito mais para tentar entender o que há por trás da vinda de Hades comigo para a Louisiana do que por acreditar, por um segundo sequer, que ele possa se interessar por balé clássico.

Eu mesmo, se não fosse obrigado a falar com minha tutelada, escolheria outro programa. Minhas semanas têm sido fodidamente cheias e eu não pude mais adiar minha visita a Serenity. Para meu azar, calhou de ser no dia em que vai fazer seu primeiro solo como bailarina, segundo VanLith me disse ao telefone.

Aparentemente, mesmo depois de ter passado a tutela dela para mim — e aqui eu tenho um adendo, porque a palavra tutela me incomoda para caralho, já que ela não é

menor de idade, e sim, uma adulta — ele continua de olho na vida dela.

Talvez se sinta preocupado com relação a homens assediando-a? Eu não faço a menor ideia. De qualquer modo, não está acontecendo. Os guarda-costas que coloquei para protegê-la me garantiram que ela não faz outra coisa que não seja se dedicar ao balé.

Os únicos encontros são com outros bailarinos dentro da escola de dança ou com os professores.

Uma boa menina, ao que parece, e com uma vida tão interessante quanto observar a grama crescer.

— Sim, vai ter que ir sozinho à sua sessão de tortura —

ele enfim responde. — Aliás, por que não espera simplesmente a apresentação terminar? Poderia encontrá-la amanhã, inclusive.

Eu não tenho uma resposta exata para isso, a não ser o fato de que algo muito parecido com culpa ecoa dentro de mim há dias, já.

Eu deveria ter vindo antes. É meu dever legal cuidar do bem-estar dela e tudo o que fiz até agora, ao designar

homens para serem seus guarda-costas, foi zelar por sua integridade física.

Hoje, eu quis conhecer um pouco do universo do qual minha tutelada faz parte. Não importa que Serenity para mim seja somente um negócio, eu deveria ter entrado em contato antes.

— Você não vai conseguir me distrair — digo a ele.

— Não tenho ideia do que está falando.

— O que veio realmente fazer em Nova Orleans, Hades?

Porque eu não compro essa história de que estava preocupado comigo apenas. Sabe perfeitamente quem manda na cidade. Christos e Zeus avisaram a Beau que eu viria. Eu não corro quaisquer riscos aqui.

Até onde sei, em conversas com Christos e Odin, Nova Orleans no momento é um caldeirão de organizações criminosas atuando nos bastidores. Porém, há um rei a quem todas as máfias obedecem sem

pestanejar: Beau Carmouche-LeBlanc[13], o amigo de Christos, de passado desconhecido, quase um fantasma, mas que surge do nada quando necessário.

Todos nós quatro pagamos guarda-costas a preço de ouro para evitar quaisquer incidentes com nossa segurança, mas dentro de Nova Iorque, nosso território, somos um tipo de realeza também. Aqui, atuamos como convidados, assim, Zeus tomou todas as garantias para que não nos acontecesse nada nesta visita.

— Eu gosto do sul do país — ele diz.

— Você odeia qualquer lugar que não seja Manhattan e nossa ilha natal na Grécia, portanto, tente novamente.

— Cuide dos seus problemas, Ares.

— Seus problemas são os meus também. São de todos nós.

Um canto de sua boca se ergue quando ele dá de ombros.

— Se pensa assim, não vou impedi-lo, mas o contrário não é verdadeiro. Não quero compartilhar a tutela de uma bailarina adolescente.

— Adulta.

— Legalmente, né? Porque até onde sabemos, ela não conhece nada da vida.

— Ela tem se comportado bem desde que saiu do internato. Na verdade, eu achei que a garota ficaria

deslumbrada com a recém-adquirida liberdade, mas não foi o que aconteceu. — O motorista estaciona em frente ao teatro e me despeço. — Eu tenho que ir.

Saio do carro pois o motorista contratado por nós levará meu irmão seja lá para onde ele pretende ir. Mal piso na calçada, sou cercado por guarda-costas.

Há uma dúzia e meia nos acompanhando e eu não duvido que a uma curta distância, tenha alguns homens de Beau também.

Eu não ando em direção ao teatro ainda. Observo o carro se afastar com meu irmão caçula dentro, com a certeza de que Hades está me escondendo algo.

Há dois anos, ele vive em função de sua vingança.

Atormentado, buscando retaliação.

Não me entenda mal. Sou completamente a favor de retribuição quando alguém atravessa meu caminho e se intromete nos meus negócios. A diferença é que preciso de um único golpe certeiro. Eu sou objetivo quando minha intenção é destruir; meu irmão, porém, parece mergulhado em uma descendente de rancor infinita.

E culpa — uma voz avisa.

Sim, há muita culpa por trás de sua obsessão. Na mente de Hades, foi ele quem proporcionou o desenrolar fatídico daqueles eventos.

Eu discordo, mas ele nunca nos ouviu e não acho que começará agora.

Ele está preso em um teia de ódio e eu duvido que mesmo quando alcançar o que deseja, terá paz.

Começo a andar para a entrada do teatro e percebo vagamente que meus seguranças estão chamando a atenção, mas não me sinto incomodado. Estou mais do que acostumado a tê-los como barreira.

Não gosto muito de gente. Na verdade, desprezo uma grande parte do mundo, e não tenho dúvida que mesmo que eu não fosse quem sou, daria um jeito para ter sempre alguém me blindando contra conversas indesejadas.

Percebo o chefe dos meus guarda-costas se adiantar e mostrar os ingressos — meus e de toda a equipe —, para o segurança na porta.

A expressão do homem muda instantaneamente e eu sei a razão. Comprei um camarote inteiro, e a minha doação

para o evento equivale à renda anual de boa parte da população da classe média americana.

Em segundos estamos dentro do teatro. Não há mais qualquer pessoa a não ser poucos funcionários, do lado de fora. Eu sou sempre pontual, mas me atrasei de propósito para evitar encontrar com a multidão que veio assisti-la.

Em poucos minutos, chego ao camarote. As luzes estão apagadas e o público, silencioso assistindo à performance no palco.

Acomodo-me na poltrona, preparando-me para ver minha tutelada pessoalmente pela primeira vez.