Obcecado pela Protegida: O Tutor Grego e a Bailarina
Capítulo 29
Nova Orleans
Três dias antes
Na mesma noite em que cheguei com Serenity a Nova Iorque, eu precisei voltar a Nova Orleans.
Recebi uma ligação a respeito de VanLith Warren, o antigo tutor dela, do hospital. O velho homem estava morrendo e alguém de sua equipe médica entrou em contato comigo, a pedido dele, porque ao que parecia, o idoso não tinha mais ninguém.
Quando eu cheguei ao hospital, eu precisei apenas olhá-lo para saber que seu caso era irreversível. Acompanhei meu avô paterno em seus momentos finais e ele possuía a mesma expressão de despedida com que o ex-tutor de Serenity me encara agora.
Vê-lo à beira da morte, sozinho em um hospital mexeu comigo mais do que gostaria de admitir.
Ele é um homem rico, pelo que pude constatar e, no entanto, isso não lhe adiantou nada no fim da vida.
Invariavelmente, meus pensamentos correm para Serenity. Ela também não tem alguém além de Debra e JeAnne e nenhuma das duas é família.
Não, com ela será diferente. Serenity é linda, jovem e rica. Vai encontrar um homem que a amará e com quem terá um futuro incrível.
Sinto uma fodida bola descendo pela garganta quando tento visualizar esse cenário. Ao invés de me acalmar, faz com que eu me sinta ainda pior.
— Eu não quero que ela saiba — VanLith diz, quase sem forças, do leito. — Conte somente depois que eu partir.
Mesmo em seus momentos finais, o homem é a imagem da dignidade. Mesmo tão fraco e magro, com o olhar um pouco esgazeado, ele impõe respeito.
— A maneira como a criaram, tanto você quanto JeAnne, blindando-a de tudo, não é a melhor forma de preparar alguém para a vida.
— À nossa maneira, eu e a babá tentamos suprir as necessidades da menina.
Eu não vou retrucar. Não há razão para discutir com um homem em seu leito de morte, embora eu pense na contramão do que ele está dizendo. Dar amor a uma criança não significa criá-la em um cenário cor-de-rosa, onde tudo é perfeito. Até porque, se meu palpite estiver certo, eles dois falharam miseravelmente. Fora a dança, Serenity é insegura para todo o resto.
— Por que você não me disse a verdade, desde o começo, sobre o tamanho da fortuna dela?
Ele me dá um sorriso fraco.
— Eu queria que fosse você o homem que assumiria a tutela dela. Mesmo que não houvesse a questão do um por cento do GordonBank, eventualmente eu teria que conseguir um outro tutor para ela. Sabia que estava ficando sem forças, e não duraria muito. Só posso atribuir ao destino que nossos caminhos tenham se cruzado.
— Por que eu?
— Não queria você, pessoalmente. Qualquer um dos Kostanidis serviria. Eu conheço a reputação da sua família.
Sabia que ela ficasse sob o cuidado de vocês, não seria roubada. Vocês são honrados e são gregos. O que se diz por aí é que seu povo dá muito valor à família.
— Serenity não é minha família.
— De sangue, não, mas ela nunca seria apenas um negócio para você, assim como nunca o foi para mim.
— Não é o que você demonstrou esse tempo todo.
— Eu sou bom em esconder as emoções. Serenity, ou senhorita Blanchet como a chamo na frente dela, sempre foi a criança mais doce e triste que você possa imaginar.
Fechada, não dada a sorrisos e eu morri de pena de ter que enviá-la àquele colégio na Alemanha. Mas não havia nada que eu pudesse fazer. As disposições testamentárias dos pais dela foram bem claras.
— Ela não se lembra deles.
— A mente humana é um labirinto, Ares. — Ele pausa. —
Acho que posso lhe chamar assim, não é, meu filho?
Eu aceno com a cabeça.
— Como eu ia lhe dizendo, a mente humana é um labirinto. É provável que ela tenha bloqueado qualquer memória do passado. E essa é uma das razões pelas quais eu o chamei aqui. Primeiro, quero lhe agradecer por aceitar cuidar de tudo quando eu partir.
Eu não falo nada. Como diabos você reage a algo assim?
Quão fodidamente desolador é que ele precise de um estranho para cuidar de detalhes após sua morte?
— Eu tenho uma caixa no meu escritório com documentos e fotografias de várias fases dos primeiros cinco anos de vida de Serenity. Eu não sei a razão, mas os pais dela cuidaram para que a menina tivesse memórias deles, quase como se soubessem que não viveriam muito.
Assim, junto ao testamento, me entregaram essa caixa.
Quando ambos perderam a vida no desastre de avião, eu já tinha todos os meios possíveis de organizar a vida da garotinha, mas adoeci e foi uma benção que JeAnne tenha podido continuar cuidando dela nos dois meses que levei para me recuperar.
— Mas por que já não entregou esses pertences a Serenity?
— Eu sou um velho covarde. Afeiçoei-me à menina e mesmo depois de crescida, não quis partir seu coração. As cartas que os pais lhe deixaram eram em tom de despedida.
— Ele sacode a cabeça. — É muito triste ver uma família ser desfeita de repente.
— Eu passarei no seu escritório para pegar a caixa. Diga-me o que precisa, VanLith. Tem minha palavra de que cumprirei tudo.
— Eu estava certo ao escolher sua família, Ares. Posso morrer em paz. Serenity estará em boas mãos.
Nova Orleans
Presente
Setenta e duas horas depois, eu deixo o cemitério onde acabo de enterrar, apenas com a presença de um celebrante e dois coveiros, VanLith Warren.
Ele me pediu que não contasse a Serenity, e eu respeitarei sua vontade por ora, mas eventualmente o farei.
Eu não vou agir como se ela fosse uma flor frágil em redoma de vidro. Qualquer um que aguente a quantidade absurda de treinamentos que ela faz para o balé tem muita força dentro de si.
Eu ligo meu celular, que havia desligado para o enterro, e ele vibra com a chegada de duas mensagens. A primeira, é de Eleanor, madrasta de Madison:
Eleanor: “Traga sua menina para o almoço de domingo.
Já passou da hora dela conhecer a família.”
Eu sacudo a cabeça, sem conseguir segurar um sorriso.
A sogra do meu irmão é a pessoa mais gregária que eu já conheci. Desde que Zeus começou a namorar Madison, ela fez questão de reunir todos nós em almoços semanais e isso só intensificou quando Brooklyn se casou com Athanasios.
Até mesmo os pais do cirurgião são convidados.
E agora, ela quer juntar Serenity à equação.
Eu seguro o telefone e meu lado egoísta deseja mantê-la à parte, guardá-la só para mim, mas penso nos últimos três dias e no quanto foi deprimente ver o velho homem sozinho.
Não, ela merece estar conosco. Já cruzei a linha, de qualquer modo, quando a beijei.
Eu teria feito mais se não tivéssemos sido interrompidos por Debra. Nosso relacionamento ultrapassou o conceito de proibido há tempos. Mais precisamente, quando a pus sobre meus joelhos e bati em sua bunda.
Eu respondo a Eleanor e passo para a próxima mensagem.
É de Serenity:
Serenity:“Eu sei o que você fez.”
Eu toco no visor para completar a ligação.
— Ares? — responde sem fôlego após o telefone chamar uma meia dúzia de vezes.
— Eu vou comprar mais duas dúzias delas. Não quero que use as outras.
— O quê?
— Você ouviu. Eu quero imaginá-la dentro daquele fio dental, todos os dias.
— Eu…
— Jogue as outras fora, Serenity. Eu vou encher suas gavetas de lingeries novas, mas com as que gosto.
— Isso não está nas suas atribuições de tutor.
— Não, mas eu estou ampliando meus deveres a partir desse momento.
— Eu deveria dizer que não.
— Mas não vai?
— Não. Eu quero que você pense em mim vestida nelas.
— Porra!
— Foi você quem começou. Quando volta? Aliás, para onde foi?
— Conversaremos sobre isso outro dia. Eu chegarei de madrugada a Nova Iorque, mas vou levá-la para almoçar com a minha família amanhã.