Obcecado pela Protegida: O Tutor Grego e a Bailarina

Capítulo 19

 

Nova Orleans

Horas depois

Eu ouço meu telefone vibrar em cima da mesinha lateral no leito do hospital e quando estendo a mão para pegá-lo e ver de quem é a mensagem, todo o torpor que estava sentindo desde que acordei, desaparece.

Ares: “Não se atreva a sair do hospital antes que eu chegue aí.”

Bruto. Autoritário. Arrogante.

E ainda assim, faz meu coração disparar.

Como isso é possível?

Ele está vindo me ver? Talvez eu devesse ter tentado morrer antes.

É, meu humor está sombrio. Como seria diferente?

Alguém colocou um escorpião dentro da minha bolsa!

A mensagem é de cerca de quatro horas atrás, o que significa que ele deve chegar a qualquer momento.

Já é madrugada.

Ele deixou tudo em Nova Iorque para vir me ver?

Eu releio a mensagem três vezes, tentando adivinhar o que aquilo vai significar para o meu futuro.

Não a mostro para Debra, que chegou da Europa há algumas horas e nem mesmo para JeAnne, cujos olhos estão vermelhos de tanto chorar.

Ela já me abraçou e beijou tantas vezes para ter certeza de que estou mesmo bem, que eu já não sei mais o que dizer para confortá-la.

Debra a convenceu a ir até a cafeteria do hospital para comer alguma coisa porque ela não saiu do meu lado por um segundo sequer desde que chegou aqui.

Agora, estamos eu e minha mentora nos encarando e ela não parece feliz.

— Se você não contar a Ares, eu mesma contarei — diz, soando zangada.

Sei que foi ela quem mandou avisá-lo, porque me contou.

Eu suspiro e faço um gesto de cabeça para o celular.

— Ele está vindo — digo.

— Serenity, você sabe que o que está acontecendo não é culpa sua, né? Não caia na bobagem de achar que fez algo para atrair a atenção desse louco.

Eu faço que sim com a cabeça, porque não imagino um motivo sequer para alguém querer me fazer mal.

— Como ele pode ter colocado o escorpião na minha bolsa sem que eu tenha notado, Debra?

Ela não tem chance de responder. Antes que possa dar uma próxima piscada de olhos, a porta se abre e o meu deus da guerra, mais lindo do que eu lembrava, paira no umbral. Eu posso ver dois outros homens atrás dele, mas só sei que são homens pela estatura e os ternos. Não há como dar atenção a outro ser humano com Ares Kostanidis parado a tão poucos passos de mim.

Eu não consigo falar. Apenas o encaro. Pensei muitas vezes em como seria nosso reencontro, quando eu enfim chegasse a Nova Iorque, mas nada me preparou para a corrida louca que meu coração executa neste instante.

É como se eu estivesse entorpecida durante os últimos dois anos e por fim despertasse.

É como se ar fresco enchesse meus pulmões e minha pulsação encontrasse o ritmo correto.

Eu passei meses pensando no motivo do meu corpo ter reagido a ele daquela maneira na única noite em que estivemos juntos. Enganei-me dizendo que era porque nunca antes havia estado perto de alguém tão lindo ou poderoso, mas agora, quando a avalanche de emoções me atinge com a mesma intensidade, eu tenho a certeza de que sempre que eu estiver ao redor dele, será assim.

Dois anos se passaram. Eu viajei, conheci outras pessoas, rapazes inclusive, mesmo com meu falso compromisso com Otis. Ninguém jamais me fez sentir desse jeito. Nada nem perto disso.

Ele usa um terno negro e camisa branca, social, sem gravata. Agora, um pouco mais velha, eu reparo em detalhes que antes me passaram despercebidos, como o modo como a camisa social se estica contra o peito, delineando a musculatura. Ou como a calça marca os quadris estreitos e as coxas musculosas.

O cabelo está desgrenhado e a barba, por fazer, o que o deixa ainda mais sexy.

— Eu quero todos fora — ele diz de repente, ainda olhando para mim. A voz soa como uma trovoada.

Dá um passo para dentro e seu corpo grande parece preencher o quarto inteiro.

— Ares — um dos homens que o acompanham chama, em tom de advertência e entrando também.

Ninguém precisa me apresentá-los para que eu saiba que se tratam de seus irmãos.

Os olhos dos três são idênticos. Não a cor especificamente, mas o formato… talvez a maneira de encarar as pessoas também.

Não há uma gota de suavidade neles.

O que falou tem o cabelo mais longo, na altura dos ombros, barba e usa óculos de armação quadrada. O

segundo homem acompanhando Ares, muito lindo também, não diz nada. Não tenta acalmar o irmão, ao contrário, ele me encara parecendo tão aborrecido quanto meu tutor.

— Eu sou Debra Villatorro — minha mentora não se deixa intimidar e estende a mão para ele.

Por alguns segundos, Ares desvia os olhos de mim e a encara como se decidindo se ela merece uma resposta ou não.

Ele está muito ferrado se ignorá-la. Debra não se dobra para qualquer outra pessoa.

— É um prazer conhecê-la, senhora Villatorro — diz, embora não haja qualquer prazer na maneira como fala.

Outra coisa que me chama a atenção também é que Ares sabe que ela é senhora, e não senhorita. Poucas pessoas têm conhecimento do fato de que já foi casada.

Por que isso me espanta? Mesmo à distância, ele já deu várias demonstrações de que controlava cada passo meu. É

natural que saiba sobre as pessoas que me cercam também.

— Senhor Kostanidis, eu não acho uma boa ideia… —

Debra começa a falar.

— Eu realmente não estou preocupado com o que a senhorita acha. Agradeço por ter entrado em contato, mas Serenity é minha responsabilidade.

Eu me seguro para não lhe dar uma resposta atravessada porque imagino a razão dele estar tão furioso.

A polícia saiu daqui há poucos minutos, e tomou meu depoimento. Debra pode ter ligado para ele avisando que fui picada por um escorpião, mas eu tenho certeza de que quem contou que precisei prestar depoimento e muito pior, o teor da minha conversa com os detetives, foram os guarda-costas.

Ela abre a boca para retrucar, mas eu a interrompo.

— Pode nos deixar a sós, Debra. Eu vou ficar bem.

Ela faz parte da minha vida e nos próximos cinco anos, ao menos, Ares também fará. Não faz sentido incentivar uma guerra entre os dois.

Minha amiga vem até mim e me dá um beijo na testa antes de sair.

— Estarei no corredor — ela diz.

Noto que os homens estão indo também e um pequeno ataque de pânico me atinge. Eu vou ficar sozinha com ele?

Não que tivesse a ilusão de que qualquer um dos dois poderia me proteger da fúria do meu tutor, mas ao menos o de barba parece um pouco mais calmo, tipo, em uma escala de zero a cem na ira, ele talvez seja noventa e dois,

enquanto Ares e o outro facilmente ultrapassariam o cento e cinquenta.

— Não vai me apresentar aos seus irmãos? — pergunto, em uma tentativa desesperada de ganhar tempo, antes que eles saiam.

Ele aperta os olhos e posso ver que entendeu minha manobra.

— Eu sou Dionysus e ele é o Hades — novamente o de cabelo comprido diz e acho que sua boca se ergue um pouco em um sorriso irônico.

Por quê? Por que tive coragem de jogar na cara de seu irmão que é um “sem modos”?

— Todos deuses? — pergunto, fruto do mais sincero nervosismo e dessa vez o sorriso do homem é real.

— Está dopada ainda, Serenity? — pergunta.

Meu rosto ferve de vergonha.

— Quando estou nervosa eu falo a primeira coisa que vem na minha mente.

Ele assente.

— Sim, somos todos deuses, mas, no momento, sua única preocupação deveria ser com este aqui — diz, batendo no

ombro de Ares.