Obcecado pela Protegida: O Tutor Grego e a Bailarina

Capítulo 41

No dia seguinte

Eu acordei mais tarde do que ele.

Na verdade, estou morrendo de vergonha de me levantar, embora saiba que Ares está tomando banho e que eu poderia escapar rapidamente para o meu apartamento.

Entretanto, eu quero muito ficar e perguntar o que quis dizer com aquele “você é minha”. Mas e o medo da resposta?

E se ele disser: você é minha tutelada, Serenity.

Minha protegida.

Minha órfã favorita.

Qualquer uma das alternativas é deprimente, mas se levarmos em conta o que ele me contou sobre não ficar muito tempo com a mesma mulher, é possível que seja isso o que vou ouvir.

Estou preparando-me para levantar, enrolando o lençol em volta do meu corpo, quando a porta do banheiro se abre e ele aparece com o cabelo ainda pingando do banho, uma minúscula toalha envolvendo-lhe a cintura estreita.

Eu não consigo falar, impactada demais com aquele quase dois metros de homem me olhando como se me quisesse para o café da manhã.

— Você me mata, Serenity.

— Oi?

— Eu sei o que está pensando. Eu também quero, mas se eu te comer de novo, não vai conseguir andar por dois dias.

Eu não vou pegar leve como fiz ontem. — Ele solta a toalha, deixando-a cair displicentemente no chão.

Eu engulo em seco quando vejo que seu sexo enorme está semi-ereto.

— Escolha: eu ou o balé?

— Meu Deus, eu sempre achei que a dança era a minha vida, mas…

Ele joga a cabeça para trás, gargalhando, mais lindo do que seria justo com os outros homens do planeta.

Sem dizer nada, sobe na cama e me descobre.

Durante a meia hora seguinte, Ares me dá dois orgasmos com a boca e dedos e quando eu caio meio desacordada contra os lençóis, começo a questionar se não valeria a pena tirar umas férias para viver apenas de sexo por semanas.

— E sua apresentação? — ele pergunta, levantando o rosto do meio das minhas pernas, os lábios ainda molhados do meu prazer. A personificação do pecado.

— Eu falei em voz alta?

Ele não responde, mas me dá um sorriso preguiçoso.

— Meu Deus, eu falei em voz alta!

— O que decidir, estou dentro.

Ele deita de costas e me puxa para si.

Eu não tinha a intenção de dormir, mas sei que apaguei quando acordo suando frio com um pesadelo. Ele não está mais comigo.

Eu acho que gritei porque Ares entra no quarto parecendo preocupado.

— O que houve?

— O quê?

— Você estava chorando.

Eu passo a mão no rosto e o sinto molhado de lágrimas.

Levo um tempo para me lembrar. O pesadelo de sempre.

— É um sonho recorrente, que tive a vida inteira.

Ele se senta na cama e me puxa para seus braços.

— Conte-me.

— Eu estou sozinha em frente ao espelho de corpo inteiro que havia na casa em que nasci, em Nova Orleans. Era do quarto dos meus pais. Estou me olhando, penteando os cabelos e então papai e mamãe aparecem atrás de mim.

Mas eles não têm rosto, não tem cabeça, só o corpo e mesmo assim conseguem falar. Eu os ouço chamarem meu nome. Quando eu contei sobre esse sonho a JeAnne, ela me disse que pode ser porque me sinto culpada de não me lembrar deles.

Ele passa a mão na minha cabeça e, aos poucos, eu me acalmo.

— Já conversou com alguém a respeito?

— Você quer dizer um terapeuta?

— Isso.

— Uns anos depois que me mandaram para o internato, eu fui a algumas sessões. Não me lembro bem, apenas de

uma mulher conversando comigo, a portas fechadas, no colégio alemão, quando eu ainda era pequena. Ela me dava papéis e lápis coloridos para desenhar. Mas se era terapia, foi por pouco tempo e acho que não funcionou porque eu não falava nada. Em todo o caso, são apenas flashes de memória.

— Não tem vontade de tentar novamente?

— Acha que devo?

— Eu não sei, Serenity. Não sou a melhor pessoa do mundo para dar conselhos sobre como se abrir. Ao contrário, eu e meus irmãos crescemos ouvindo que nunca podemos demonstrar emoção.

— Por que são homens?

— Porque somos Kostanidis, gregos e um grupo de bastardos orgulhosos.

Eu levanto o rosto do peito dele para olhá-lo. Ele tentou soar leve, mas já estou aprendendo a conhecê-lo um pouquinho e sei que Ares não me contou isso para me consolar. Ele deve ter sido doutrinado mesmo, assim como eu, a manter a emoção sob controle.

— Quando eu cheguei ao colégio, nos primeiros dias, eu chorava muito com saudade de casa. Eles me colocavam de castigo. Logo aprendi a fingir que estava tudo bem. Eu passei a relacionar demonstração de sentimentos com algo ruim.

Eu não gosto de confessar isso, mas ele, de uma certa forma, me entregou uma pista sobre o passado. O mínimo que eu posso fazer é lhe devolver algo em troca.

— Você era só uma garotinha.

— Sim, eu sei. Gosto de pensar que se eu tiver filhos um dia, nunca os ensinarei que demonstrar sentimentos é errado. Não quero criar pessoas como eu.

Apenas depois que termino, percebo que posso tê-lo ofendido também.

— Desculpe-me. Falei sem pensar.

— Não sou sensível, Serenity. Comigo, nunca precisará esconder o que pensa ou sente.

O que sinto, preciso esconder sim, porque nesse instante mesmo eu gostaria de criar uma lei dizendo que você é meu.

Limpo a garganta e tento fazer o mesmo com o cérebro.

Apesar do que acabamos de conversar, o futuro do nosso relacionamento é uma grande interrogação, se é que há um relacionamento, e não quero pensar nisso agora.

— Eu tenho medo de um dia esquecê-los. Quero dizer, esquecê-los de vez, porque ao menos com as fotografias posso tentar forçar a memória. — Eu pauso, lembrando da última conversa com JeAnne. — Por que não me contou que o senhor VanLith havia falecido, Ares?

Ele me vira para que eu fique montada de frente em suas pernas. Pega uma mecha do meu cabelo que escapuliu e coloca atrás da orelha.

— Porque ele me pediu que não o fizesse.

— O quê?

— Eventualmente, eu contaria. Tanto quanto quero te proteger, que não vou permitir que a machuquem, não quero mantê-la em uma redoma de vidro. A dor faz parte da vida. Querer só dias felizes é irreal. Mas ele estava morrendo e me pediu que não lhe contasse naquele momento e, para ser sincero, eu acabei me esquecendo.

Como soube?

— JeAnne me ligou para falar.

— Ela lhe telefonou para contar sobre isso?

Aceno com a cabeça, fazendo que sim.

— Ela disse que viu nos jornais locais uma nota sobre a morte e uma única pessoa no cemitério: você.

— Não havia fotógrafos no cemitério. Meus seguranças sempre vasculham o perímetro quando eu vou a algum lugar.

— O quê?

— Ela mentiu para você, Serenity. Eu não sei a razão, mas JeAnne mentiu. — Ele faz uma pausa. — Como ela estava quando se falaram ao telefone?

— Normal. Quero dizer, o novo normal dela, porque apesar de não saber o que está acontecendo, ela mudou comigo.

— Mudou como?

— Está mais distante. Não apenas fisicamente distante.

Sou eu sempre quem tomo a iniciativa de telefonar. É como se ela estivesse querendo cortar laços.

Ele parece pensativo e depois me dá um beijo na testa e me senta na cama.

— Espere um segundo.

Quando volta, tem uma caixa nas mãos.

— VanLith deixou isso aqui comigo. São lembranças dos seus pais.

— Lembranças? E ele as estava retendo? Por que não me entregou desde o começo?

Ele dá de ombros.

— Deu a desculpa de que estava tentando protegê-la da dor, mas talvez apenas a tivesse esquecido mesmo.

Eu pego a caixa com formato quadrado.

— O que tem aqui dentro?

— Fotografias, eu acho. Talvez cartas. Eu não a abri.

Eu a coloco de lado.

— Não vai ver o que tem dentro?

— Agora, não. Estou me sentindo feliz hoje. Tenho medo de que ver essas recordações traga a tristeza de volta.

Já é noite quando volto ao meu apartamento. Ares precisou ir à SIN, mas disse que regressaria dentro de uma hora.

Quando abro a porta do meu duplex, no entanto, fico surpresa ao encontrar JeAnne de pé, no hall de entrada.

— Oi. A empregada me deixou entrar. Espero que não se importe.

Eu ando até ela e a abraço, suspirando de alívio quando corresponde. Apesar da nossa última conversa, o abraço e beijo que me dá se parecem com os de sempre.

— Eu nem acredito que você veio. Vai ficar quanto tempo?

Andamos juntas para a sala.

— Até sua estreia. Eu não perderia por nada. Onde você estava? Passou o dia todo fora. Tentei ligar.

— Meu telefone descarregou, acho que preciso trocá-lo. A bateria morre a toda hora.

— Não respondeu onde estava.

Aquilo me irrita, eu não sou mais uma criança. Em qualquer outra época, eu diria a verdade, mas não sinto vontade, então falo apenas:

— Eu saí.

Antes que ela possa fazer mais perguntas, a empregada do turno da noite entra na sala.

— A senhorita Villatorro está subindo.

A expressão de JeAnne muda na hora e eu reviro os olhos.