Obcecado pela Protegida: O Tutor Grego e a Bailarina
Capítulo 5
Vivo minha vida guiada por regras.
O quanto comer para não engordar. Durmo as horas necessárias para obter sono suficiente e assim poder treinar melhor. E sempre cumpri meus estudos quase que com a mesma dedicação com que faço em relação à dança.
Perder meus pais em pequena me deixou insegura. Eu criei um mundo só meu onde tudo funciona perfeitamente, desde que eu siga as regras.
E agora ele está me falando da possibilidade não de uma mudança qualquer, e sim, que talvez em breve eu deva ter que obedecer a um total estranho.
— Eu não entendo por que isso é necessário.
— Um novo tutor? É uma exigência testamentário dos seus pais. Sabe perfeitamente disso. Ele protegerá seus direitos e bens até que tenha idade para usufruí-los.
Acredite em mim, é a melhor solução para você, senhorita Blanchet.
Capítulo 5
Nova Orleans Desfaço o coque que JeAnne fez questão de pentear quando saí de casa para vir à minha prática de balé e elaboro outro, apertando com mais firmeza.
Ela às vezes ainda me trata como criança. Eu guardo poucas lembranças boas da minha infância, mas as que tenho, são com ela ao meu redor, sempre vigilante e cuidadosa.
Toda vez que eu voltava de férias do colégio alemão, ela me esperava com as minhas comidas favoritas. O internato era assustador para mim. Fui arrancada de casa ainda muito pequena e obrigada a conviver com estranhos. De uma hora para outra, perdi o lar que eu conhecia, toda a minha família e fui enviada para longe da minha amada babá.
Balanço a cabeça com tristeza, pensando em como me sinto infeliz que minha memória pertença aos momentos com JeAnne e não com meus pais. Não me permito ficar
melancólica muito tempo, no entanto. Ao começar a prática, preciso estar totalmente concentrada.
Olho no espelho do banheiro da escola de dança e percebo que agora o cabelo está como eu gosto, tão esticado que meus olhos ficam repuxados nos cantos, quando normalmente são grandes como os de uma boneca de louça em comparação ao resto do rosto.
Perfeição é o meu objetivo na vida, seja em qualquer área. Eu sou exigente comigo mesma e gosto de ordem.
Não me sinto feliz com surpresas ou incertezas, e é por isso que nessas últimas semanas pareceu que o chão desapareceu sob os meus pés.
Eu sonhei tanto com este momento da minha vida!
Enquanto crescia no colégio interno, imaginava quando finalmente fizesse dezoito e pudesse cuidar de mim mesma, investindo na minha carreira de bailarina.
A primeira decepção veio com a visita do meu tutor assim que voltei aos Estados Unidos. Foi quando eu soube que meus pais deixaram regras muito claras estipuladas no testamento. Só haveria duas maneiras de que eu pudesse ter acesso à minha herança: se eu me casasse até os vinte
e um ou quando, ainda solteira, completasse vinte e cinco.
Na prática, a disposição testamentária me impede de crescer.
Eu sou uma adulta, porém, uma adulta que, segundo acreditaram, precisa de supervisão.
Eu fiquei arrasada. Graças a Deus tenho JeAnne ao meu lado, já que o senhor VanLith, apesar de nunca ter me deixado faltar nada, jamais passou de um estranho para mim. Um funcionário dos meus pais que só mantinha contato comigo por dever.
Eu não sou do tipo maleável, que se adapta fácil. Sou rígida como uma superfície de mármore e tensa como a corda de um violão esticado.
Disciplina é o meu norte.
Eu custo a me acostumar com as mudanças, mas tentei me adaptar à realidade de que eu não poderia ser livre ainda. Com minha babá e única amiga do meu lado, respirei fundo e tive certeza de que eu poderia fazer isso.
Foi então que o senhor VanLith veio com a bomba ontem: a certeza e não mais a possibilidade, de que eu terei um novo tutor. Eu ainda tinha esperança de que ele voltasse
atrás na decisão de transferir minha tutela para outra pessoa.
Somente ontem, quando fui pela segunda vez em poucos dias ao escritório dele atendendo a um chamado, foi que eu soube a razão. Aparentemente meu pai possuía um por centro das ações de um Banco em que o homem que será meu novo tutor, o senhor Ares Kostanidis, está interessado. O senhor VanLith não disse com todas as letras, mas do meu ponto de vista, ele está chantageando-o, dizendo que só venderia este um por cento se o homem, que descobri se tratar de um empresário grego, assumisse minha tutela.
Eu fiquei tão impactada com a notícia sobre as mudanças que acontecerão em breve em minha vida que acabei me esquecendo de pedir a autorização para montar a sala privada de dança lá em casa.
Agora, se o empresário grego se tornar mesmo meu tutor, terei que falar a respeito disso com ele.
Lidar com um estranho, que eu não faço a menor ideia de como é, e mais do que isso, pedir um favor a ele, me deixa apavorada.
E para piorar, o senhor VanLith disse que, por ora, a notícia sobre a mudança da minha tutela é confidencial.
Nem mesmo JeAnne pode saber. Tem a ver com a tal venda das ações. Foi uma exigência do senhor Ares.
Eu não gosto de mentir para ela. Claro, eu não lhe conto cada pensamento que tenho. Todas as pessoas guardam segredos, mesmo aquelas que vivem uma existência sem graça como a minha. Porém, neste caso é diferente. Ela conhece e respeita o senhor VanLith, já o senhor Kostanidis, não fazemos ideia de quem seja. Não tenho dúvida de que quando descobrir sobre a mudança, ficará preocupada.
Entro na sala de dança ainda vazia a essa hora e me olho refletida em todos os espelhos, simultaneamente. É a única coisa que eu não gosto nesta escola. Eu me sinto oprimida com tantos reflexos de mim mesma.
Fiquei treze anos em um internato e quando vejo a minha imagem, sinto como se tivesse crescido de repente. Um dia era uma garotinha, no outro, uma adulta.
No colégio da Alemanha, todos as horas eram iguais. Eu não conseguia ver a passagem do tempo como deveria ser.
Minha diversão consistia em dançar e ler.
E os sonhos — uma voz me faz recordar.
Eu tinha muitos sonhos com a vida aqui em Nova Orleans, antes da mudança para o colégio interno. Eram sonhos estranhos, confusos, com rostos não definidos.
Eu não me lembro de momentos especiais com os meus pais. Não recordo de nada, para ser sincera. Eu sou um oco, uma casca preenchida com o presente. É por essa razão que me dedico à dança compulsivamente. Dançar me traz conforto e um propósito. É uma sorte que eu seja boa na profissão que escolhi.
Não, não foi sorte — corrijo-me. Foi muito mais.
Eu tenho como professora uma das bailarinas mais talentosas de todos os tempos, Debra Villatorro. Embora sua carreira tenha sido interrompida precocemente, ela é a dona de uma das escolas de dança mais prestigiadas do país.
Madame Villatorro escolhe, a cada ano, uma aluna a quem se dedica com exclusividade, sete dias na semana, após as classes regulares. Eu estava aqui há apenas quinze dias quando fui convidada para fazer uma audição.
Eu soube logo o que aquilo significava: ela estava considerando-me como candidata a ter sua atenção
exclusiva.
Sou insegura em relação a muita coisa na vida, mas não sobre a minha dança.
Eu fiquei eufórica e mal consegui dormir na noite anterior ao teste final.
Fui ao teatro onde ela havia marcado a apresentação e a encontrei junto a mais quatro homens, todos professores também.
Antes de começar, JeAnne, que havia ido comigo para dar apoio, me abraçou e disse que independentemente do resultado, se eu fosse escolhida ou não para ser treinada por madame Villatorro, isso não faria de mim pior ou melhor dançarina. Eu agradeci, mas falei que não queria ouvir aquelas palavras.
Para mim, vencer e ser a melhor é inegociável.
Eu não tenho outro objetivo na vida que não seja o balé.
Dedico-me cem por cento a ele e não aceito nada menos do que ser excelente no que faço.
Seria a segunda vez que me apresentaria para eles. A primeira, dois dias antes, aconteceu na escola de dança,
onde eles me pediram para executar os movimentos clássicos: barra, centro, diagonal e ponta dos pés.
A segunda apresentação, no teatro, foi um solo, um pequeno trecho do clássico “Quebra-Nozes”. Precisei apenas olhar para o rosto de madame Villatorro no fim, para saber que eu havia conseguido.
Sorrio, lembrando-me de quando tive a confirmação de que era sua escolhida.
Estou dando passos em direção à realização dos meus sonhos.
Eu não vou mais existir. Eu vou viver. Viajar e ser aclamada pelo público. Transformar-me no que fui feita para ser.
— Sonhando acordada, minha doce Serenity? — madame Villatorro pergunta em uma das raras ocasiões em que parece relaxada.
Eu estava tão distraída que não percebi que ela havia entrado na sala.
— Objetivando acordada — brinco. — Sonhos podem se realizar ou não e para mim, só há uma alternativa.
Um mês depois
— Está feito, senhorita Blanchet.
— O quê? — pergunto ao senhor VanLith ao telefone, mesmo já sabendo a resposta.
— Eu não sou mais o seu tutor. Em algum momento da próxima semana, Ares Kostanidis virá visitá-la.
— Tão depressa? Eu achei que levaria mais tempo para que o juiz autorizasse a transferência da tutela.
Ele suspira do outro lado da linha.
— Já estávamos negociando há meses. Por a senhorita ser maior de idade, e tanto eu quanto o doutor Kostanidis gozarmos de reputação ilibada, a transferência foi uma mera formalidade.
O que significa que ele mentiu para mim. A transferência da tutela desde sempre foi uma certeza.
— Disse que ele virá a Nova Orleans. Para quê?
— Precisam se conhecer, mas é importante que se lembre do que eu falei: ninguém pode saber da mudança na sua tutela. Ele exigiu sigilo.
— Tudo bem em relação ao sigilo — falo, aborrecida.
Quando ele usa a palavra “tutela”, eu me sinto um bebê. —
Embora não consiga entender a razão de tanto segredo.
Parece algo como uma sociedade secreta. Quem no céu é esse homem?
Escrevo uma anotação mental para pesquisar sobre ele na internet mais tarde. Eu ainda não o fiz, talvez porque, no fundo, tivesse esperança de que ele desistiria de se tornar meu tutor.
Sinto o rosto esquentar quando lembro da minha consulta com um advogado na semana passada.
Eu agendei escondido de todo mundo. Nem mesmo JeAnne ou o senhor VanLith sabiam. Eu queria descobrir se havia algum jeito de mudar o testamento dos meus pais. Se um juiz poderia intervir. Saí frustrada ao receber a resposta negativa.
— Há uma data específica em que ele virá?
— Não sei. Como eu lhe disse antes, em algum momento da próxima semana.
— Eu terei minha primeira apresentação solo para um público pagante na semana que vem. Quero dizer, será beneficente, mas mesmo assim, muito diferente do que aconteceu até hoje.
— Parabéns — ele diz, deixando claro pelo tom que não está realmente interessado. — É provável que o doutor Kostanidis não apareça neste dia.
— Ele ao menos tem meu telefone?
— Tem, sim.
— E não terei o dele?
— Por enquanto, não. Acredito que ele lhe fornecerá quando vocês se encontrarem.
Eu noto que parece ofegante, cansado, e sinto remorso.
O senhor VanLith é muito idoso e não deve suportar mais o dever para o qual foi escolhido.
Depois de uma despedida rápida e impessoal, na qual nem parece que temos um relacionamento ainda que de tutor e tutelada, por mais de dez anos, ele desliga e sai da minha vida.
É idiotice ficar triste. Ele nunca demonstrou por mim nada além do que preocupação em desenvolver um bom trabalho como tutor, mas mesmo assim, eu me sinto abandonada.
De uma forma ou de outra, todos com quem convivo acabam me deixando.
Outro dia eu encontrei sem querer uns folhetos na cozinha da minha casa. Nele, havia propriedades à venda na Flórida. Eu acho que JeAnne está pensando em se aposentar.
Talvez eu tenha nascido para ser sozinha.