Obcecado pela Protegida: O Tutor Grego e a Bailarina

Capítulo 52

 

Três dias depois

Saio do quarto em que ela está adormecida outra vez.

Serenity ainda não voltou à sua rotina e estou começando a me preocupar. Ela não parece revoltada e sim, apática.

Ontem, dois detetives da polícia vieram colher depoimento dos fatos que envolvem a morte de Elmer, mas essa é somente a ponta do iceberg. Há muito mais pelo caminho. JeAnne confirmou a confissão e se declarou cúmplice pela morte da verdadeira Serenity Clementine Blanchet.

Eu sei que Beau está à caça de Edgar Hazen e tenho certeza de que a qualquer momento, irá apanhá-lo. Eu não me importo com o que será feito dele, meu único pedido para o Rei de Nova Orleans é que consiga a localização do corpo da criança que Edgar matou. Ela tem direito a um túmulo e a ser lembrada. Serenity me pediu isso e não há nada que eu deixaria de fazer para lhe dar paz.

Além do mais, sem um corpo, apenas com a confissão de JeAnne, eu não acho que haveria uma condenação. Ela finalmente parece disposta a pagar por seus crimes, mas diversos assassinos alegadamente confessaram autorias de mortes que não cometeram e duvido que o estado gastará dinheiro do contribuinte dando início a um julgamento baseado apenas em uma confissão de uma mulher que mentiu a vida inteira.

Eu sei que naquele dia, no terraço do meu escritório, Hades soltou Elmer propositadamente. Meu irmão desconhece o conceito da palavra perdão. Eu não teria feito diferente. Gostaria de tê-lo matado com minhas próprias mãos pelos anos que passou atormentando-a, por ousar ter pensamentos imundos em relação à minha mulher.

Ouço a voz de Eleanor conversando com a empregada e sorrio ao pensar que a madrasta de Madison tomou para si a tarefa de ser a matriarca da família. Sem qualquer planejamento, através dos nossos almoços semanais, conversas e cumplicidade, a mulher se tornou um tipo de cola amorosa, fazendo com que nossa união familiar se

solidificasse. Desde que Serenity voltou do hospital, não houve um dia que ela não tenha vindo visitá-la.

Eu ando até onde está e assim que me vê, abre os braços. Por muito tempo, eu e meus irmãos nos ressentimentos de uma figura feminina mais velha, por conta das mentiras que inventaram sobre nossa mãe.

Eleanor veio para resgatar isso. Lembrar-nos que somos um todo.

— Eu consegui o telefone de uma psicóloga para atendê-la. Foi muito recomendada.

— Acha necessário?

Eu não sou o tipo que sabe se abrir, então não imagino como alguém pode pagar semanalmente para contar seus segredos a um estranho.

— Acho, sim. Pode ser que no começo, ela pareça bem, mas em algum momento, vai quebrar, Ares. A vida que ela achou que conhecia não existiu. Ela só tem a você e o balé.

— Ela pausa. — E a nossa família, claro. Mas às vezes há coisas que não conseguimos compartilhar com os mais próximos. Precisamos de alguém de fora, que não esteja emocionalmente envolvido conosco, para nos ouvir.

 

Eu aceno com a cabeça.

— Tudo bem. Vai falar com ela a respeito, ou quer que eu fale?

— Pode deixar. Eu converso com ela — diz. — Outra coisa.

Serenity quer ver a ex-babá… Quero dizer, a tia… eu nem sei como chamar aquela infeliz. Enfim, ela quer conversar com JeAnne uma última vez.

A ideia não me agrada, mas eu consigo entender a necessidade que sente de estar frente a frente com a mulher que, boa parte de sua vida, foi uma referência de amor.

Eu acredito que em algum ponto de sua mente egoísta, JeAnne a tenha amado mesmo. De uma maneira distorcida, mas mesmo assim, era amor.

— Eu vou providenciar isso.

Beau[19]

Nova Orleans

— Está fodido. Eu tenho ligação com a máfia siciliana.

Eles me devem favores, porra. Vão acabar com você.

Caralho, eu estou ficando velho para esse tipo de merda.

Esse filho da puta não para de choramingar e eu só não corto a língua dele de vez porque preciso saber onde enterrou o corpo da menina.

Ele está resistindo mais do que eu esperava. Há quatro horas,

tenho

trabalhado

em

seu

interrogatório

pacientemente, mas o infeliz ainda tem esperança de que sairá daqui vivo. Está na hora de lhe mostrar suas opções.

— Se tivesse mesmo ligação a sério com alguma organização criminosa da minha cidade, saberia que os sicilianos me pedem a benção em uma base diária. Todos aqui o fazem. Uma dica para a próxima encarnação: quando fizer amizade com alguém influente, certifique-se de falar com Deus e não com os discípulos dele. Agora, chega de perder tempo. Vou te dar uma escolha.

— Escolha? — Posso ver um dos olhos dele brilharem de esperança. Ele tem um pé quebrado em um ângulo completamente anormal, está sem unhas e perdeu alguns dentes pelo caminho. Um dos olhos está inchado, fechado e mesmo assim ainda acredita que sairá daqui com vida?

Ele confessou que foi quem provocou o acidente que matou os Blanchet, mas de uma maneira, que só posso classificar como irritante, se recusa a falar sobre a morte da menina.

— Onde está Elmer? — pergunta.

— No inferno. Não se preocupem, logo se encontrarão.

— O quê? Você disse que eu tinha uma escolha!

— E tem. Aqui vai minha proposta: Eu posso acabar com seu sofrimento agora. Um único tiro entre os olhos e você nem vai sentir que já não está mais entre nós.

— Eu não…

— Quieto, porra! — Eu me aproximo. — Você não vai viver, Edgar, não importa o quanto argumente. Matou uma criança e estou pouco me fodendo se foi um acidente ou não. Você roubou a vida dela em mais de um sentido. Diga-me onde ela está ou tem minha palavra de que nas próximas horas vai me implorar para morrer.

Cinco horas depois, finalmente está na hora dele morrer.

O filho da puta se apegou à vida como pôde e sua resistência me surpreendeu. Há três horas, Edgar me revelou onde enterrou o corpo

da menina Blanchet e Roman[20] acaba de me telefonar dizendo que

a encontrou.

A polícia receberá uma denúncia anônima sobre a localização do corpo e eu vou acionar alguns dos meus contatos para ter certeza de que não ignorarão o caso. A menina merece justiça.

Eu sigo na direção da mesa de ferramentas e depois de escolher uma faca, em um golpe limpo, finalizo o serviço.

Tiro as luvas e saio do armazém sem olhar para trás, deixando Seymour, o braço direito de Roman, encarregado da limpeza.

Horas depois, chego em casa e fico no hall observando meus filhos e esposa.

Quando me notam, vêm me receber.

— Como foi seu dia? — Amber pergunta.

Eu a beijo.

— Entediantemente rotineiro. Já volto, baby.

 

Eu pego o celular e ligo para Christos. Sei que ele avisará ao primo.

— Está feito — digo.

Serenity

Dois meses depois Eu custei a vir visitá-la. No início, eu queria vir de uma vez, então eu entendi que não poderia. Eu me sentia fragilizada demais, então aceitei a sugestão de Eleanor e comecei a fazer terapia primeiro.

Não estou me sentindo cem por cento bem ainda. Como poderia? Mas ao menos, aos poucos, estou entendendo que não tive responsabilidade sobre o que aconteceu.

Antes de vir ao presídio de Nova Orleans, para onde JeAnne foi transferida, já que a maior parte dos crimes dela foram cometidos na Louisiana, fui ao cemitério visitar minha

verdadeira mãe. Passei horas sentada na lápide dela, que Ares mandou mudar, deixando-a linda, e lhe contei sobre toda a minha vida.

Eu chorei e disse o quanto gostaria de tê-la conhecido e pedi que não se preocupasse, pois eu ficaria bem.

Eu pedi licença no balé. Três meses foi o prazo que me dei para realinhar a mente e torço para que seja o bastante.

A minha história explodiu em toda a mídia. Não houve como abafá-la. Eu também não queria continuar vivendo uma mentira, em todo o caso.

Neste processo de só falar a verdade, eu contei a Ares que nunca namorei Otis. Ele riu, orgulhoso, o bastardo arrogante e todo meu.

Eu precisei me reinventar literalmente. Sequer tinha uma certidão de nascimento verdadeira ou mesmo um número de seguro social.

Depois de muito pensar, decidi manter o mesmo nome —

Serenity Clementine — com o sobrenome da minha mãe biológica, Lawrence.

Eu ainda quero, antes de sair da Louisiana, ir ao túmulo da menina cuja vida, sem ter conhecimento disso, eu

roubei.

Eu também darei uma entrevista coletiva daqui a alguns dias, contando toda a minha história, para pôr um fim às especulações.

Foi Elina, a esposa de Odin, quem deu esse conselho. Ela disse que se eu nunca falasse no assunto, como um elefante branco no meio da sala que todos fingem ignorar, a imprensa de tempos em tempos continuaria me atormentando.

Foi essa a razão também que me fez decidir visitar JeAnne pela última vez.

— Eu posso entrar com você — meu namorado diz.

— Não. Pode assistir, se quiser, através do vidro, mas tenho que fazer isso sozinha.

Eu tentei imaginar o que sentiria quando finalmente nos reencontrássemos, mas depois de dez minutos sentada em frente a ela, é como olhar uma estranha.

Ares me disse que é rancoroso, que a família toda é.

Confessou que ama com a mesma intensidade com que odeia. Eu não. Acho que tenho uma capacidade anormal de

“desamar”, mas que não chega a se transformar em ódio.

Eu não sabia se ver JeAnne mexeria com as minhas emoções. Pensei que fosse sentir raiva, mas só há um imenso vazio dentro de mim.

Ela falou sem parar desde que cheguei.

Tentou justificar seus atos, jogou com a minha memória, relembrando momentos felizes, e falou da minha mãe também.

Nada disso fez meu coração amolecer como pensei que aconteceria. — Você me usou.