Obcecado pela Protegida: O Tutor Grego e a Bailarina

Capítulo 49

Pego a saída dos fundos e dentro de poucos segundos encontro-me na rua.

O ar fresco do meio do dia não me acalma. Eu me sinto mal, enjoada, enquanto tento processar tudo o que ouvi.

As memórias voltam com força total. Eu nunca me lembrei dos meus pais. Nunca senti qualquer laço com eles e a resposta é porque eles não são nada meus.

Sinto os olhos encherem-se de lágrimas e ando a esmo até encontrar um táxi. Peço para ele apenas dirigir, sem lhe especificar um destino e fecho os olhos, recostando a cabeça no assento.

Agora está claro por que Ares não me pediu em casamento. Ele desconfiou que eu menti esse tempo todo e, de acordo com aquela conversa com Odin, acaba de ter a confirmação.

 

Capítulo 49

Eu deveria tê-la acordado, sei que Serenity está descansando em nosso quarto, mas a notícia que acabo de receber de Odin torna urgente uma conversa cara a cara com JeAnne.

Ela tem se recusado a me receber ou qualquer um de minha parte desde o dia em que foi presa. Porém, estou indo encontrá-la agora. Eu preciso conseguir respostas dessa infeliz.

Estou ficando louco. O que diabos eles fizeram com a verdadeira Serenity? E minha mulher, onde está a família dela? Preciso solucionar o enigma antes de contar tudo a ela.

Enquanto o motorista me leva até o presídio feminino onde ela está, eu envio uma mensagem para meus irmãos avisando onde estou indo. Os advogados já estão vindo me encontrar. O que quer que JeAnne diga, precisarei de testemunhas.

Não duvido que em pouco tempo meus irmãos cheguem também, mas eu não posso esperar por eles. Tenho urgência em desvendar essa trama sórdida.

Eu deixei um bilhete para Serenity dizendo que estive em casa, mas que saí para um compromisso.

Eu preciso encontrar um jeito de protegê-la pelo que sei que virá. Temos que descobrir onde está a verdadeira herdeira e quando a verdade vier à tona, o mundo da minha mulher vai virar do avesso.

O carro mal estaciona no presídio e eu recebo mensagens quase simultâneas de Zeus, Hades e Dionysus.

Os três me avisam que estão vindo como eu sabia que fariam, mas mesmo amando meus irmãos, eu às vezes gostaria que eles dessem um pouco mais de espaço para manobra.

Eu preciso resolver isso sozinho.

Desço do carro sem me preocupar em respondê-las.

Assim que entro no presídio onde JeAnne está presa, aguardando julgamento, um dos meus advogados me liga confirmando que ele não só conseguiu que o diretor

autorizasse minha visita, como JeAnne concordou em me receber.

Eu não sou ansioso, mas não é a minha vida que está em jogo, é a felicidade e principalmente a sanidade mental de Serenity, então sinto como se o coração martelasse dentro do peito.

Leva cerca de trinta minutos até que eles me instruam sobre o que posso ou não fazer quando estiver com a prisioneira e nesse meio tempo, dois dos meus advogados chegam.

Entramos os três, mas diferentemente de quando a encontrei pela última vez, na delegacia, JeAnne não está algemada, apesar de uma guarda se manter atrás da cadeira em que está sentada.

Eu fico impactado quando a vejo. Está mais magra, os olhos fundos. Mesmo sabendo de tudo o que fez, principalmente a razão que a levou a ser presa, é difícil aceitar que a mulher à minha frente, que cuidou de Serenity a vida inteira, conspirou com Deus sabe quem, possivelmente a tirou de sua família e roubou parte de sua vida.

— Eu sei que ela não é quem você afirma — falo, porque nem por um segundo passou pela minha cabeça que minha mulher esteja envolvida nessa conspiração.

Para minha surpresa, ela move a cabeça para cima e para baixo, concordando.

— Como descobriu?

— Os pés da bebê nas fotografias. A criança dos Blanchet nunca poderia ter sido uma bailarina.

Ela cobre o rosto com as duas mãos e chora.

Eu não sei por quanto tempo fica com a cabeça deitada no tampo da mesa, em prantos.

— Quem ela é e onde está a verdadeira Serenity, JeAnne?

— Morta.

— Porra!

É claro que eu desconfiava daquilo, mas eu tinha um fio de esperança de que não fosse verdade.

— Precisa me contar tudo, JeAnne. Eu sei que ama Serenity — falo com cuidado, porque, no fundo, do seu jeito distorcido, talvez ela a ame mesmo. Basta ver que afirmou ter colocado as giletes dentro do sapato de Serenity para

que eu pudesse protegê-la, levando-a para longe dos palcos.

— É por isso que resolvi ajudar, porque a amo. Mas depois que eu lhe contar tudo, minha vida estará em risco. Eles são muito poderosos. Quero dizer, ele é, mas seu protegido, o verdadeiro mal, também.

— Quem são eles, JeAnne, e principalmente, por que tramaram algo assim?

— O senhor Edgar Hazen foi sócio do pai de Serenity —

ela começa, contando o que eu já sabia e confirmando que a desconfiança de Odin estava correta. O maldito ex-sócio é o causador de tudo aquilo. — Eu não sei de detalhes, mas me lembro que logo depois que a menina, a verdadeira Serenity, nasceu, eles romperam a amizade. Eu só fui descobrir a verdade há pouco tempo. A esposa do senhor Roger, Leticia, teve um caso com o sócio do marido. Todos acreditaram que a sociedade acabou porque o senhor Hazen estava roubando o pai de Serenity, e pode ser parcialmente verdade, eu acho, mas acredito que o que contou muito foi a a traição. O senhor Hazen invejava o senhor Blanchet e tentou lhe roubar tudo: a empresa e a

esposa. Roger Blanchet percebeu o que estava acontecendo e seguiu seu próprio caminho, longe do ex-sócio. De repente, ele tinha tudo: mulher, filha e fez fortuna muito rápido.

Eu aceno com a cabeça, começando a juntar as peças do quebra-cabeça.

— Eu não sei se ele foi o culpado pela morte dos meus ex-patrões, talvez tenha sido só uma oportunidade que ele encontrou para se vingar. Nunca chegamos a conversar sobre isso, mas assim que eles morreram, o senhor Hazen surgiu com uma proposta: me daria um milhão de dólares se eu o ajudasse com o seu plano.

— E de que plano estamos falando?

— Trocar a verdadeira Serenity pela minha sobrinha.

— O quê?

— Eu não sei como, mas ele descobriu que eu tinha uma sobrinha. Na verdade, Serenity, sua namorada, é filha de uma prima minha de segundo grau, alguém muito pobre e que nem sabia quem era o pai da bebê. Essa minha prima, Mila Lawrence, morreu ao dar à luz, deixando a criança aos

meus cuidados. Ninguém sabia que ela existia. Minha sobrinha nunca foi registrada.

— Por que não?

— Eu poderia tê-lo feito, mas me apeguei à criança e tive medo que se a levasse a um cartório, os assistentes sociais seriam chamados e eles a tirariam de mim. Ela, na verdade, é dois meses mais velha do que a menina dos Blanchet.

— Continue.

— Tudo contribuiu para o plano dele. O senhor VanLith nunca tinha visto a filha do senhor Roger pessoalmente. Ele só a conheceu dois meses depois da morte dos Blanchet.

Elas eram parecidas fisicamente. Passariam por irmãs, inclusive. Ele me ofereceu o dinheiro para fazermos a troca e eu aceitei. Durante esse tempo em que o tutor não a conhecia pessoalmente ainda, eu fiz uma verdadeira lavagem cerebral na minha sobrinha. Diariamente lhe mostrava fotografias dos “pais”, forçando memórias de eventos que nunca aconteceram, até que chegou ao ponto que ela, em sua inocência de criança, começou a repeti-las, como se as tivesse vivido mesmo.

— Por quê? Edgar Hazen é rico e poderoso. Por que se dar ao trabalho de elaborar um plano tão arriscado?

— Porque ele me disse que nunca perdoaria Roger, tanto por lhe roubar a mulher que amava quanto por expulsá-lo da sociedade. Eu não acho que foi só pelo dinheiro. Ele precisaria esperar muito tempo até pôr as mãos nele. Acho que foi porque mesmo depois dos meus patrões mortos, ele queria mostrar quem mandava.

— Como pôde? A filha dos seus patrões estava sob seus cuidados, JeAnne. Tinha o dever de protegê-la!

— Tem que acreditar em mim quando eu digo que não sabia que ele machucaria a criança.

— Eu não acredito, JeAnne. Sabia que ele odiava seu patrão, o invejava. Mesmo à época, já era uma mulher feita.

Deveria saber que ele faria mal à menina.

— Ele não disse que fez mal a ela. Disse que sua morte foi uma acidente. Eu nem mesmo sei como aconteceu.

Eu olho para os meus advogados, que estão atentos a cada palavra. Eu não fiz faculdade de direito. Sou engenheiro de formação, mas até mesmo um leigo seria

capaz de entender que ela acaba de se declarar cúmplice de assassinato.

— Eu gostaria de ver Serenity. Contar-lhe tudo.

— Eu duvido que depois que souber a verdade, ela vá querer te ver. Eu me levanto, pensando em como será difícil começar a contar para minha mulher essa história sórdida.

— Pode ao menos lhe dizer que a amo?

— Isso não é amor, JeAnne. Pode ter se afeiçoado a ela, mas roubou sua identidade. Nunca a amou.

— Ela cresceu com um conforto que nunca teria se eu não tivesse aceitado o acordo.

— Às custas da vida de outra criança. Será que não consegue enxergar isso, porra?

Começo a andar para a porta, completamente enojado.

— Ares, ele tem um cúmplice.

Eu paro e a encaro.

— O quê?

— Eu ainda não contei a história toda. Como acha que ele pretendia colocar a mão na fortuna dela? Ele tem um sobrinho em terceiro grau que, no momento certo, deveria

seduzi-la, mas você entrou em cena e estragou todos os planos. O rapaz ficou descontrolado. Não aceitou mais ordens. Ele está obcecado por Serenity.

Dê-me o nome dele, JeAnne.

Ela demora alguns segundos para falar, mas quando, por fim, revela, eu sei que preciso agir rápido. Ele está muito mais perto do que qualquer um de nós imaginava.