Obcecado pela Protegida: O Tutor Grego e a Bailarina
Capítulo 10
Minutos antes
A ansiedade da estreia desapareceu.
Enquanto esperava as cortinas se abrirem, momentos atrás, para minha primeira apresentação solo, tudo o que senti foi paz porque finalmente um dos meus sonhos está se tornando realidade.
Eu não tenho muitos, mas aqueles que me dou o direito de desejar, são a razão pela qual eu me levanto todas as manhãs.
Hoje é a minha prova de fogo. Eu consegui com apenas poucas semanas na escola de dança de madame Villatorro o que muitos bailarinos profissionais passam toda uma existência almejando.
Não há espaço para falhas. Preciso da perfeição esta noite.
Eu percebi, ao longo da semana, o olhar dos outros bailarinos para mim. Uma mistura de despeito com raiva,
mas o que eles não sabem, é que eu não dou a mínima importância para seus julgamentos.
Eu até mesmo ouvi duas das minhas colegas de profissão cochichando no banheiro sobre o fato de que comprei uma vaga na nossa prestigiada escola, o que, qualquer um que conheça minimamente madame Villatorro sabe que não só é uma mentira, mas também um absurdo.
Madame tem uma reputação no mundo da dança de ser extremamente exigente em suas escolhas para a escola. Ela já recusou inclusive uma princesa, cujo pai, rei de uma pequena monarquia europeia, quis comprar o lugar para sua menina com barras de ouro.
Obrigo-me a limpar a mente de qualquer coisa que não seja a estreia. Não importa o que pensam de mim. Eu sei o quanto me dedico. Madame me disse anteontem que todos os que se destacam, carregam consigo um alvo nas costas.
O sucesso incomoda, ela me falou, porque faz com que as pessoas olhem para o próprio umbigo e percebam que não estão evoluindo.
Eu não sei se isso é verdade. Não estou preocupada com o que os outros bailarinos acham. Eu não me preocupo que
um deles ou todos eles alcancem o sucesso, eu foco somente em como eu chegarei lá.
Flexiono os pés uma última vez antes que as cortinas se abram e sinto uma pontada de dor. Se eu tirar a sapatilha, sei o que verei: dedos inchados e com calos de horas e horas de prática. Apesar de ser a minha ponte para alcançar o estrelato com que sonho, meus pés não são uma parte do corpo que gosto. Na verdade, eles me envergonham. É uma das razões pela quais nunca vou à piscina ou praia, nem na minha casa, nem mesmo nas aulas de natação do internato.
Eu implorei para o meu tutor que negociasse no colégio para que o balé pudesse ser definido como meu esporte, livrando-me de qualquer coisa que me obrigaria a ficar descalça na frente dos outros alunos ou professores.
Às vezes, meus pés doem mesmo quando já estou deitada para dormir. Eles pulsam pelo esforço diário, mas eu nunca reclamo.
O balé é minha escolha, minha vida.
Agora mesmo eles latejam, mas quem se importa?
Sonhos nunca vêm de graça. Estou disposta a pagar qualquer preço pelos meus.
Além do mais, eu me acostumei com a dor. Há algo de prazeroso nela.
Sinto o rosto esquentar quando penso nisso. Soa um pouco distorcido ter prazer com dor, e eu não entendo por que me sinto desse jeito, apenas que é assim que sou.
Onde as crianças reclamavam quando caíam, eu me levantava e seguia em frente. Onde choravam quando lhes aplicavam vacinas, eu observava a agulha entrar e não entendia a razão do escândalo em torno daquilo.
Eu pensei muito a respeito disso e depois que me tornei adulta, cheguei à conclusão de que dor para mim experimentar a dor significa que eu posso sentir e se posso sentir, estou viva.
Como sempre faço antes de começar uma apresentação, eu me desligo de tudo à minha volta.
Estou a um passo de entrar e meu sangue ferve. Emoção se espalhando por cada célula minha.
Ouço o burburinho da plateia e sei que o teatro está lotado. Todo o lugar vibra em energia.
Eu prometi a mim mesma que guardaria a noite de hoje na memória, mas a emoção da estreia é tão grande que quando dou por mim, estou pairando no palco, o corpo inteiro tomado de adrenalina.
Quando foi que a música começou? O que eu senti quando me deparei com a plateia esperando por mim? Eu não poderia dizer.
Sinto o sangue bombeando e flashes de rostos me encarando na multidão sentada, mas concentro a atenção principalmente em mim mesma.
Eu alcancei o estado de êxtase em que sempre mergulho durante a dança.
Não há mais ninguém, só eu e a música orquestrada.
Faltando pouco para o fim, eu sorrio e é um dos poucos verdadeiros que dou em anos.
Felicidade. A mais pura felicidade é o que estou sentindo agora, porque eu sei que não desapontei madame. Eu não desapontei a mim mesma.
Cambré, balancé, échappé.
Executo cada movimento primorosamente, com o respeito que merecem.
E finalmente, chega ao fim.
O coração incha dentro do peito. Emoção e alegria como nunca senti trazem lágrimas aos meus olhos e há em mim um sorriso tão espontâneo que não sei se algum dia poderei pará-lo.
A plateia se levanta e me aplaude de pé.
Eu corro minha vista por eles, automaticamente procurando JeAnne, mas logo eu me lembro que ela não está aqui.
Resfriou-se e não quis correr o risco de contaminar as pessoas. Afasto a tristeza e dou início aos agradecimentos.