Obcecado pela Protegida: O Tutor Grego e a Bailarina

Capítulo 23

— Você está me dizendo que o escorpião que a picou foi geneticamente modificado? — Christos pergunta na chamada de vídeo com a minha família, parecendo tão chocado quanto eu fiquei quando o chefe da equipe médica que a atendeu levantou essa possibilidade.

Nossa volta a Nova Iorque teve que ser adiada. Apenas Dionysus retornou, mas Hades continua comigo.

Para minha surpresa, antes de receber alta do hospital, Serenity me fez um pedido: ela quer vender a casa na qual nasceu. Disse-me que mesmo que um dia volte a Nova Orleans, não pretende morar mais aqui.

Eu, claro, questionei a razão. É o último elo que tem com os pais mortos. Nós mantemos até hoje a casa que meus pais possuíam em nossa ilha na Grécia, por puras razões sentimentais, já que raramente vamos lá. Cada um agora

tem a própria ilha. Talvez, com o nascimento dos meus sobrinhos e com Zeus e Dionysus casados, isso mude.

A resposta de Serenity foi lógica, e triste também. Ela disse que a casa da infância que se lembrava era o internato. Todas as suas recordações se resumem a JeAnne e o colégio alemão.

Ela sabe quem foram os pais e me disse que às vezes sonha com cenas de sua infância, mas nada claro, como se estivesse assistindo a um filme antigo, sem a presença dos dois. Pedaços soltos de memória.

Assim, ao invés de uma mudança temporária, em que a maior parte das coisas seria mantida na Louisiana, eu mandarei que enviem tudo o que ela deseja guardar para o apartamento em Manhattan.

— Não temos certeza ainda — enfim respondo. — Mas o médico acha que essa é a única explicação possível.

— Por que ele pensa assim? — Zeus questiona.

— Porque o escorpião que picou Serenity era um Tityus Serrulatus. Uma espécie letal, conhecido também como escorpião amarelo brasileiro. Ele pode causar a morte entre uma e seis horas depois da picada.

— Mas não foi o que aconteceu.

— Não e por isso ele desconfio na mudança genética. O

médico disse que já leu sobre um episódio assim uma vez, há muito tempo, mas era uma aranha. Foi enviada para matar um líder político daqui mesmo da Louisiana. Mas no incidente que me relatou, a aranha teve a genética transmutada para aumentar seu potencial de ação. Ele estudou o caso na escola e quando viu o animal que picou Serenity, o reconheceu imediatamente e sabia que se ela tivesse mesmo sido exposta à potência total do veneno…

Eu não consigo terminar. Não me considero um cara particularmente sensível, mas me deixa louco pensar que uma garota tão jovem poderia perder a vida por um ato de estúpida insanidade.

— Ela não sobreviveria — Odin completa o que eu não disse.

— O que vamos fazer? — Meu irmão mais velho pergunta e apesar de todas as merdas que estão acontecendo, sorrio.

Se há uma certeza sob o céu, é que entre nós, o problema de um é o problema de todos.

— Levá-la para ficar comigo, em primeiro lugar —

respondo e vejo a sobrancelha de Christos alcançar a testa.

Eu sei a razão. Sou o mais desapegado dos quatro irmãos.

O conceito de família para mim é forte, afinal, sou grego, mas fora dela, eu mantenho vários conhecidos, nada além disso. Não sou responsável por qualquer outro ser vivo além de mim mesmo.

— Serenity é minha, por ora. Eu abortei o plano de enviá-la para o apartamento que havia escolhido inicialmente.

Todos eles acenam com a cabeça, concordando, e eu sei que em meu lugar, fariam o mesmo. O que eu não digo, é que desde a noite em que a levei para jantar, há dois anos, minha tutelada deixou de ser uma obrigação para se tornar uma obsessão. Uma a qual eu combato em uma base diária.

— Eu vou investigar — Odin diz e não me surpreende.

Ele não é uma boa pessoa para se ter como inimigo, ainda mais se você é alguém que mantém segredos.

— A única coisa que eu não entendo é, se Serenity tiver razão e ele esteve escondido no camarim dela desde a primeira vez em que se apresentou aqui na Louisiana, há

dois anos, como o filho da puta pode ter entrado sem que os guarda-costas o apanhassem.

Meu primo dá de ombros.

— Sorte. Ou talvez ele tenha estudado o local antes de ir.

Se ela tivesse nos contado na ocasião, seria mais fácil de conseguir acessar as filmagens. Isso não me levaria mais do que poucos minutos, não importa em que parte do mundo tivesse acontecido.

— Ouve a si mesmo? — Dionysus pergunta. — Isso é assustador para caralho.

— É prático. A tecnologia é a minha arma, qualquer um que atravesse meu caminho,é o inimigo. Se você não tem nada a esconder, não precisa ter medo de mim.

— Doutor Kostanidis, posso falar com o senhor um minuto?

Eu havia acabado de sair da biblioteca da casa de Serenity. Hades seguiu para um hotel, porque meu irmão é esquisito assim: ele nunca dorme fora da própria casa ou na casa de estranhos, seja em que parte do mundo for, o que resulta em vários imóveis espalhados pelo planeta muito pouco utilizados. Como não temos imóveis em Nova Orleans, eu preferiu ficar em um hotel.

— Sim? — respondo, já sabendo quem falou comigo.

Debra está com Serenity conversando sobre a apresentação dela na escola de dança de Nova Iorque. Com tudo o que está acontecendo, eu não tive tempo de dar os parabéns à minha tutelada por ter sido escolhida para primeira bailarina, embora já tenha mandado uma joia e flores assim que soube.

Desse modo, a única pessoa que sobrou é a babá. A mulher chamada JeAnne e que Serenity trata com o mesmo carinho que faria com uma parente.

Não passou despercebido a mim que ela está com um aspecto doentio, muito magra e quando nos encontramos no hospital, os olhos estavam vermelhos pelo choro.

Eu não me comovo com dramas alheios, mas admiro aqueles que conseguem doar amor incondicional a pessoas que não têm seu próprio sangue, como é o caso de Eleanor,

a madrasta da minha cunhada Madison e pelo visto, a babá de Serenity também é assim.

Pelo que eu pude descobrir até agora, JeAnne dedicou a vida inteira a cuidar da minha tutelada.

— O que deseja, senhora?

— Eu quero falar com o senhor. Estou doente — ela diz sem preâmbulos, confirmando o que eu já desconfiava. —

Mas não quero que Serenity saiba… ainda. Eu gostaria muito de ir com vocês para Nova Iorque amanhã, mas não posso.

— Precisa de alguma coisa?

— Não. O salário que o senhor me paga é mais do que generoso, assim como o seguro-saúde, de primeira. A única coisa que quero lhe pedir, na verdade, implorar, é para que cuide dela.

— Essa é a minha intenção.

Ela me dá outro aceno de cabeça.

— Sim, eu acredito, mas não estou dizendo apenas sobre a parte da segurança dela. Serenity cresceu sozinha naquela escola. Ela tem uma capacidade imensa de se fechar em si mesma. Toda a disciplina que mantém, como

comer pouco, dormir o tempo que se determinou e as horas infinitas que gasta com a prática do balé… eu me preocupo que seja uma espécie de defesa que criou. Ela se protege de viver, fingindo que está vivendo.

— Como assim?

— O balé é o lugar seguro dela. Ela não se arrisca a dar um passo além. Tem vinte anos, mas não viveu nada ainda.

— E quanto a Otis?

Ao invés de responder imediatamente, seus lábios formam uma linha fina.

— Senhora?

— Ele é apenas um menino. Bonzinho, mas mimado. Está aquém dela. Serenity não o ama, se quer minha opinião. O

que estou pedindo, e nem sei se tenho esse direito, é que cuide para que ela viva um pouco. Está dentro do seu papel de tutor também, certo?