Oncologia em Cães e Gatos
14 Criocirurgia
Histórico do tratamento crioterápico Homero (900 a.C.) e Hipócrates (400 a.C.) foram os primeiros a empregar a terapia de baixas temperaturas para o controle de hemorragias e no tratamento de edemas provocados em batalhas. Durante séculos, o emprego da terapia de baixas temperaturas foi descrito e utilizado de maneira experimental e até mesmo como instrumento de tortura, como as usadas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Em decorrência do avanço da ciência, a partir do século 17, muitos relatos da utilização da crioterapia foram descritos. Em 1845, James Arnott sugeriu a utilização de uma mistura de gelo e sal para o tratamento de neoplasias inoperáveis.
Em Medicina Veterinária, a criocirurgia começou a ser empregada como uma técnica cirúrgica alternativa no tratamento de neoplasias e doenças inflamatórias ou infecciosas granulomatosas que não respondiam às terapias convencionais.
É possível dizer que o ponto de partida da criocirurgia moderna ocorreu após um médico e um engenheiro desenvolverem um equipamento em que poderiam acondicionar o nitrogênio líquido a ser empregado no tratamento. Irving Cooper e Arnold Lee conseguiram, com o uso de ponteiras e sondas acopladas a um recipiente contendo o nitrogênio líquido, direcionar com certa precisão o congelamento de lesões teciduais. A partir deste protótipo, diversos outros foram produzidos e aperfeiçoados. Em 1966, a empresa americana Brymill Co. desenvolveu um equipamento que se tornou o modelo comercial; surgiu então o Cry ac, que até hoje é o mais utilizado mundialmente.
Com o surgimento desses equipamentos associados à melhoria das técnicas, a criocirurgia vem se consolidando como uma importante opção no tratamento de doenças infecciosas, inflamatórias e, principalmente, neoplásicas de pele, tanto benignas como malignas, e também em diferentes órgãos, na Medicina Humana e na Veterinária. Esta técnica apresenta pequeno sangramento, é rápida e minimamente invasiva, e eficaz em lesões paliativas cujo prognóstico seja desfavorável, e no tratamento definitivo de outras lesões.
A crioterapia consiste na aplicação terapêutica de uma substância capaz de remover o calor dos tecidos sem obrigatoriamente provocar destruição tecidual. Dessa maneira, técnicas como massagem com gelo, criocirurgia, crioalongamento, crioimersão e lavagem de queimaduras com água fria podem ser consideradas crioterapias.
A criocirurgia tem como objetivo a morte de todas as células de um tecido-alvo comprometido, produzindo o mínimo de dano ao tecido normal adjacente. Também é uma técnica que limita a produção de metástases, sem os efeitos indesejáveis da radioterapia e da quimioterapia; é segura, pouco cruenta, apresenta raras ocorrências de infecções secundárias, o que é importante no tratamento em pacientes debilitados, idosos ou em risco anestésico. Ademais, possibilita a abordagem de lesões de difícil acesso, como as de cavidade oral, conduto auditivo e nasal, região palpebral, região interdigital, reto, períneo e áreas extensas para suturas.
A aparência das lesões parecem não apresentar bom efeito estético em virtude da ocorrência de crostas hemorrágicas, necroses que se sucedem após a terapia. A involução das lesões necessita de 3 semanas. A necrose do tecido leva à descamação e à secagem da ferida, o que torna a cura mais lenta do que nas feridas por excisão cirúrgica. Lesões na face, nas pálpebras, no nariz, nas orelhas e no pescoço geralmente se curam entre 4 e 6 semanas, enquanto tumores maiores localizadas no tronco e nas extremidades podem demorar aproximadamente 8 semanas. Todavia, a criocirurgia apresenta-se também como um método terapêutico valioso para a abordagem de lesões agressivas, cujo tratamento radical, na maioria das vezes, traria danos estéticos e funcionais ao paciente. A criocirurgia causa poucas alterações nas fibras colágenas, assim as cicatrizes por segunda intenção oferecem um excelente resultado cosmético.
Indicações
Embora ainda haja um maior emprego no tratamento de dermatopatias, na Medicina é indicada para o tratamento de mais de 60 tipos de lesões dermatológicas inflamatórias ou neoplásicas, além de mais de 15 neoplasias malignas. A criocirurgia tem sido utilizada no tratamento de diferentes enfermidades de sistemas ou órgãos, embora seja mais aplicada em Dermatologia, como nos granulomas de origem infecciosa ou estéreis, nas piodermites profundas, nas hiperplasias, nos cistos, nas fístulas, nas lesões
pré-malignas e nas neoplasias benignas ou malignas. O Quadro 14.1 exemplifica a maioria das neoplasias nas quais a técnica pode ser empregada. Contudo, com o avanço do conhecimento, as aplicações se ampliaram tanto na Medicina como na Veterinária, para diferentes neoplasias em outros órgãos como olhos, próstata, fígado, pâncreas, pulmão, linfonodos, ossos e sistema nervoso.
Quadro 14.1 Principais neoplasias criotratadas nas diferentes áreas da Medicina
Veterinária.
Dermatologia
Papilomas, cistos sebáceos, cistos inter e supradigitais, hemangiomas, mastocitomas,
melanomas, carcinomas de células escamosas, pólipos em conduto auditivo e orelhas, tumores
de células basais
Anais, perianais e cauda
Dermatite actínica, adenomas, fístula perianal, furunculose, pólipo retal, carcinoma retal,
prolapso retal, hipertro a de glândulas da cauda, neoplasias de glândulas da cauda
Cavidade oral
Úlceras, melanomas, papilomas, epulis, osteossarcomas, adamantinomas, bromas e
brossarcomas, carcinomas de células escamosas, carcinomas tonsilares (tonsilectomia)
Tumores nasais
Fibrossarcoma, adenocarcinoma, condrossarcoma, sarcoma, carcinoma, osteossarcoma
Oftalmologia
Lensectomia (catarata), pannus (tracoma), glaucoma (incluindo buftalmos)
Pálpebras
Papiloma, nevos, melanoma, histiocitoma, mastocitoma, broma, adenoma sebáceo, carcinoma
basal, ceratoacantoma, carcinoma espino celular
Ossos
Osteossarcoma, condrossarcoma
Sistema Urinário
Tumores de próstata, tumores de bexiga
Vasculares
Hemangioma e hemangiossarcomas, hemangiopericitoma
Adaptado de Podekonjak KR, 1982; Lane JG, 1974; Greiner et al., 1975; Withrow SJ, 1980.1-4
Mecanismo do dano e da morte celular | Crionecrose
A crionecrose é a lesão celular direta, em resposta à exposição à temperatura negativa extrema. A célula desidrata, e ocorre alta concentração dos solutos que causam danos à membrana celular e às enzimas e proteínas intracelulares. Outro mecanismo é a lesão vascular, porque o congelamento resulta em estase vascular, principalmente na microcirculação. Como resultado, ocorre isquemia com posterior necrose tissular. A ocorrência da crionecrose pode ser classificada de acordo com o tempo em fase imediata, retardada e tardia.
■ Fase imediata
A fase imediata acontece ainda durante o ciclo de congelamento/descongelamento, no qual as células são destruídas instantaneamente em decorrência de quatro eventos simultâneos. O primeiro evento ocorre com o congelamento da água contida nos tecidos, que forma cristais extracelulares. O segundo evento é a formação de cristais de gelo, intra ou extracelular, dependendo do ciclo, ou seja, da velocidade com que o tecido é congelado e, em seguida, descongelado. O congelamento lento produz grandes cristais, principalmente no meio extracelular, em que são menos letais, mas provocam desequilíbrio osmótico. Entretanto, quando o congelamento ocorre rapidamente, formam-se cristais intracelulares, e, na sequência do descongelamento lento, os pequenos cristais inicialmente inócuos se transformarão em grandes cristais, que serão deletérios para a célula. Este processo é conhecido como recristalização.
A ação do gelo nos tecidos está relacionada com os efeitos diretos nas células e na estase vascular após o descongelamento. O importante conhecimento de que “quanto mais rápido o congelamento e mais lento for o descongelamento, maior será a necrose celular” se mostra evidente na ação da criocirurgia.
Durante o processo de congelamento, ocorre a formação de cristais de gelo nos meios intra e extracelulares. A formação de gelo no meio extracelular altera o gradiente osmótico entre os meios, produzindo um efeito hiperosmolar que extrai água do meio intracelular, induzindo uma concentração tóxica de eletrólitos, a qual provoca danos irreversíveis à célula. Este aumento resulta em alterações do pH nas macromoléculas e na membrana da célula.
De maneira física e mais direta, ocorrem outras injúrias às células. Durante o processo rápido de congelamento a baixas temperaturas, formam-se pequenos cristais de gelo, os quais provocam danos em importantes organelas, como as mitocôndrias e o retículo endoplasmático, induzindo uma destruição celular irreversível.
O terceiro evento é a desnaturação de proteínas a partir de complexos lipoproteicos das membranas celulares, que têm ligações instáveis e sensíveis às mudanças físicas causadas pelo congelamento, o que desencadeia dano e destruição das membranas celulares.
O choque térmico se refere à lesão celular causada pela mudança brusca de temperatura, independentemente dos efeitos diretos do congelamento. Essa mudança pode danificar a célula em algumas circunstâncias, mesmo sem haver congelamento.
■ Fase retardada
Fase retardada ocorre algumas horas após o fim do ciclo, na área de exposição ao criógeno, e é caracterizada pelos efeitos da estase vascular. As principais alterações nesta fase são a aglutinação, o tamponamento e a aderência de células vermelhas entre si e à parede do vaso. Como resultado da estase vascular, ocorrem trombose e isquemia, seguidas de hipoxia ou, até mesmo, anoxia, mudança de pH e morte celular. As alterações histológicas no tecido congelado se assemelham às do infarto. A anoxia celular consequente da perda da circulação é considerada o principal mecanismo de lesão na criocirurgia.
A lesão criogênica provoca estase vascular e anoxia tecidual, resultando em necrose isquêmica. A estase vascular está restrita ao local de exposição do criógeno e acontece em decorrência da permeabilidade dos vasos, resultando em hemoconcentração. A formação de trombos ocorre em 65% dos capilares e entre 35% e 40% das vênulas a uma temperatura que varia de 3 a 11°C; no entanto, a trombose completa dos vasos é detectável à temperatura de -15 a -20°C após 30 min de congelamento. As alterações histológicas no tecido congelado se assemelham às do infarto. A anoxia celular consequente da perda da circulação é considerada o principal mecanismo de lesão na criocirurgia.
■ Fase tardia
A chamada “fase tardia ou imunológica” seria de especial interesse no tratamento de neoplasias malignas. Este fenômeno ocorre em virtude da formação de substâncias antigênicas de anticorpos antineoplásicos, resultantes da criocirurgia, o que alteraria a constituição antigênica celular. De acordo com esta hipótese, após a criocirurgia, o sistema imune seria sensibilizado pelo tecido destruído e estimulado a combater células remanescentes, que não foram totalmente destruídas pelo procedimento cirúrgico. Podkonjak relatou a regressão de sarcoides não tratados em equinos, adjacentes a sarcoides criotratados, e sugeriu que tenha ocorrido
estimulação imunológica.1 Já em um experimento realizado em coelhos,
Nishida et al.5 demonstraram que linfócitos de animais com neoplasias tratadas com a crioterapia quando transfundidos em animais com neoplasias semelhantes apresentaram um efeito citotóxico maior do que aqueles transfundidos a partir de animais não tratados. Essa resposta parece ser específica para cada tipo de tecido, sendo estimulada pela liberação de antígenos específicos do tumor durante ou após o congelamento.
Agentes criógenos
Os agentes criogênicos são gases que podem ser convertidos ao estado líquido e têm a capacidade de extrair calor de tecidos vivos. Diferentes gases atingem diferentes temperaturas e pontos de ebulição, e estas características ditam sua adequação ao uso na criocirurgia, pois o tecido-alvo deve chegar rapidamente a no mínimo -20°C. Os agentes mais utilizados são o nitrogênio líquido e o argônio, e o nitrogênio líquido é o agente de escolha na criocirurgia, por ter ponto de ebulição extremamente baixo (-195,8°C) e ser efetivo em lesões benignas e malignas. Ele é incolor, inodoro, não inflamável, atóxico, inerte e, embora seja extremamente potente, é seguro à manipulação, desde que precauções básicas sejam tomadas. Alguns cuidados recomendados incluem não manipular metais congelados pelo nitrogênio, não estocá-lo ou transportá-lo em recipientes herméticos e não ter contato direto com o líquido. Deve ser armazenado em botijões apropriados que tolerem vazamento e evaporação. Comparado aos outros agentes, é o mais barato, tem a maior capacidade de penetração e promove um congelamento rápido. O nitrogênio líquido pode ser aplicado por meio de spray por sondas abertas, sondas fechadas, sondas por spray confinado (cryochamber), e menos frequentemente por swabs e derramamento direto na lesão.
A escolha da forma de aplicação é feita por meio da avaliação da lesão, porém na rotina clínica o spray tem sido o mais comumente utilizado, em virtude de sua praticidade. São desejáveis a realização de biopsia para a escolha da técnica e o estabelecimento do prognóstico, entretanto, em pacientes idosos e de risco, pode-se realizar a coleta do material no ato criocirúrgico.
Equipamentos e técnicas
O equipamento utilizado é um recipiente cilíndrico com capacidade para
300 ou 500 mℓ de nitrogênio líquido (Figura 14.1). Na aplicação por meio de spray, o nitrogênio líquido, quando confinado em recipiente fechado, tem sua pressão aumentada e tende a buscar a abertura existente. A velocidade de saída do nitrogênio é controlada por um gatilho, e o gás é liberado por meio de uma cânula em que são acopladas ponteiras com diferentes diâmetros. A pressão do jato é inversamente proporcional ao diâmetro do orifício de saída.
As ponteiras para o spray são classificadas de A a D, sendo A aquelas com maior diâmetro (1,2 mm) e usadas para lesões maiores do que 1,5 cm; B, com diâmetro de 0,8 mm e usadas para lesões de 1 a 1,5 cm; C, com diâmetro de 0,57 mm e usadas para lesões de 0,5 a 1 cm; D, com diâmetro de 0,4 mm; e a ponteira de acne, utilizadas para a realização da técnica de
varredura em lesões cutâneas extensas, como dermatite actínica (Figura
14.2). A vantagem deste método é que ele possibilita o tratamento de lesões planas, em relevo ou pedunculadas, com aplicação no ponto médio da lesão (as ponteiras B e C são as mais usadas); e de lesões lineares, nas quais se faz um movimento de vaivém (a ponteira A ou a de acne). A desvantagem é o risco de penetração do gás em tecido subcutâneo quando utilizado em úlceras. No caso de neoplasias palpebrais ou mesmo em pequenos nódulos em região interna de narina e conduto auditivo, é possível utilizar a ponteira
de jato aberto “bent spray” (Figura 14.3).
O uso do spray pode ser em sistema aberto (Figura 14.4), ou seja, o jato é direcionado para a lesão, sem nenhum aparato para contê-lo, como no caso das ponteiras abertas; confinado, quando se utiliza ponteiras de cone
confinado, também denominadas cryochamber (Figura 14.5), para direcionar o jato ou para controlar o diâmetro do congelamento; ou fechado,
quando se recorre a sondas fechadas mini probe (Figura 14.6). Uma leve compressão da sonda contra a lesão fará com que o contato entre elas seja mais efetivo, por também diminuir a vascularização local. São menos eficazes que o spray, por fornecerem menor penetração, porém são tidas como o meio mais seguro de aplicação do nitrogênio.
Figura 14.1 ® Aparelho cry-o-gun de 300 e 500 mℓ. Imagem cedida pela Cry-ac do Brasil.
Figura 14.2 Ponteiras abertas e fechadas. A. Ponteiras de spray aberta. B. Ponteiras de cone confinado. C. Ponteiras de sondas fechadas (flat probe). D. Ponteiras abertas (bent spray). E. Acne aperture, indicada para descamação superficial de áreas extensas. Imagem cedida pela Cry-ac ® do Brasil.
Figura 14.3 A a B. Criocirurgia utilizada em paciente canino com melanoma em região palpebral inferior.
Figura 14.4 Uso do spray em sistema aberto, direcionando o jato para a lesão.
A sonda deve ser encostada no tecido em temperatura ambiente e só depois iniciar o congelamento. Após o contato, haverá uma crioadesão
(Figura 14.7), que acontece a 0°C. Quando o halo de congelamento desejado é atingido, aguarda-se o desprendimento espontâneo da sonda, para que não haja avulsão do tecido aderido. Sangue, exsudatos ou até mesmo gel lubrificante são excelentes meios para uma melhor crioadesão
(Figura 14.8).
Figura 14.5 Paciente canino portador de neoplasias na região da cabeça tratado por meio do uso de uma ponteira aberta com jato confinado (cryochamber).
Figura 14.6 Sonda fechada (mini probe), utilizada quando se deseja um efeito de menor penetração.
Figura 14.7 Crioadesão. A. Ocorre após o contato da sonda fechada (concave probe) em temperatura de 0°C na lesão. B. Após o congelamento da sonda, começa a formar o halo de congelamento da lesão.
Figura 14.8 Halo de congelamento sendo obtido no processo de crioadesão.
A técnica de aplicação direta do nitrogênio por derramamento é raramente utilizada em virtude do risco de extravasamento e de agressão a tecidos periféricos a lesão. Resultado também relacionado com insucessos é a técnica com o swab, pois não se consegue uma boa penetração nos tecidos-alvos.
Para a aplicação da criocirurgia em lesões de grandes dimensões ou de superfície irregular, recomenda-se a excisão prévia da maior quantidade de tecido comprometido, o que reduz a área que deverá ser congelada e leva a obter uma superfície mais homogênea, o que diminui o tempo necessário para o congelamento.
É importante ressaltar que o método visual para a análise da profundidade de congelamento é empírico. Existem outros métodos para avaliação, como a palpação, que, além do halo, avalia a profundidade e a mensuração da temperatura com agulhas termossensíveis ligadas a um pirômetro, segundo registros literários. Contudo, os autores não recomendam a manipulação da lesão, uma vez que isso promoverá um tempo de descongelamento mais rápido, diminuindo a eficácia da técnica.
A técnica planejada e precisa na aplicação de nitrogênio não descarta os cuidados com os tecidos adjacentes. Para limitar a expansão do nitrogênio aos tecidos adjacentes, podem-se utilizar os cones do tamanho da lesão. Os cones podem ser de neoprene ou ainda os utilizados no otoscópio se as lesões forem menores. Também são úteis as compressas cirúrgicas, de campo operatório, os filmes radiográficos, as colheres de plástico e as espátulas de madeira, desde que tenham bordas lisas e não levem agressão ao tecido.
Preparo do paciente
Em se tratando de um paciente com neoplasia ou lesão pré-maligna, um exame clínico completo do paciente e exames complementares como hemograma, avaliação bioquímica sérica, radiografias do local da lesão e de tórax devem ser realizados para descartar a possibilidade de metástases. Deve-se realizar também um exame citológico ou biopsia para que no ato criocirúrgico já se saiba a origem da lesão. Deve ser realizada tricotomia ao redor da lesão para evitar a possibilidade de o nitrogênio permanecer por mais tempo nos pelos e congelar a pele sadia e para evidenciar melhor a área a ser congelada e a margem de segurança.
Pequenas neoplasias como adenomas perianais e verrugas podem ser congeladas sem anestesia. Isso é vantajoso em pacientes geriátricos nos quais o risco de óbito é maior durante a anestesia geral, embora nesses casos o indicado seja uma anestesia local infiltrativa. Esta apresenta duas funções, uma primeira como anestesia propriamente dita e uma segunda que promove o afastamento dos vasos que eventualmente estejam situados abaixo da lesão e aumenta a eficácia da técnica.
O conhecimento do tipo celular é importante na escolha da técnica, porque células e tecidos com grande conteúdo de água são mais suscetíveis ao congelamento do que aqueles com menos (tendões e ossos), assim como tumores, que de acordo com sua origem também respondem de forma variada ao congelamento. Células mesenquimais são mais resistentes quando comparadas às epiteliais. Os melanócitos são as células mais sensíveis ao frio, seguidos, em ordem decrescente, por células epiteliais, do estroma fibroso, das grandes artérias, dos nervos, de cartilagens e do tecido ósseo. Sabe-se, ainda, que os tecidos neoplásicos contêm muito mais água que os normais. Pode-se, com exceção do ósseo, considerar que tecidos vivos, de animais, têm propriedades térmicas constantes. No entanto, técnicas mais atuais tratam neoplasias de tecido ósseo com graus variados de sucesso. O suprimento sanguíneo faz diferença na técnica adotada em regiões ou neoplasias que tenham grande aporte sanguíneo e/ou se localizem próximo aos grandes vasos, apresenta um congelamento mais lento e um descongelamento mais rápido, diminuindo a eficácia da técnica.
Embora a crioterapia produza uma sensação de queimadura, se a mesma área for congelada novamente após alguns dias, pouca ou nenhuma sensação de ardência será percebida. Observou-se em pacientes humanos a redução ou a ausência de sensibilidades dolorosa, tátil e térmica, com recuperação total entre 1 e 5 anos. O pós-operatório normalmente apresenta edema e exsudato nas primeiras 24 h; úlcera, ferida aberta ou tumores localizados em junções mucocutâneas podem exsudar, mas rapidamente cessarão.
A maior parte das lesões se apresenta no pós-cirúrgico como escaras secas que se destacarão do tecido sadio em 4 ou 5 dias, caindo entre o 10o e o 14o dia. Caso necessário, pode ser feita uma suave limpeza da área, com gaze e solução fisiológica, mas a maioria das lesões pós-criocirúrgicas cicatriza naturalmente. Raramente são necessários antibióticos porque o congelamento é bactericida e o tecido morto age como um tampão biológico. Infecções pós-operatórias são extremamente raras, exceto em situações em que há osso morto exposto. Entretanto, quando a parte necrosada se destaca e cai, o tecido de granulação começa a se fechar por contração e epitelização e o processo cicatricial se completa entre 14 e 21 dias, salvo se as lesões forem muito grandes. A maioria dos animais não demonstra dor após 24 h, em razão da necrose dos terminais nervosos, e acaba ignorando o local crionecrosado, mas eventualmente pode ser necessária a colocação de bandagem, colar elisabetano ou sedação.
Tratamento
Ciclo é o nome dado à sequência congelamento/descongelamento, cuja velocidade determinará se ocorrerá ou não destruição tecidual. Quanto maior o número de ciclos, maior será a crionecrose, ou seja, a lesão tissular. E sessão é a repetição da criocirurgia após o período de 14 ou 21 dias. Como rotina, recomenda-se o tratamento de neoplasias benignas com dois ciclos e duas sessões com intervalos de 14 dias, se houver necessidade. E, para as neoplasias malignas, são recomendados três ciclos e no mínimo três sessões a intervalos de 21 dias, conforme caso clínico apresentado na
Figura 14.9.
As células do epitélio tegumentar são destruídas à temperatura de -10°C; os melanócitos, a -3°C; e células de carcinomas espinocelulares, em torno de -30°C, entre outros tipos de neoplasia. Trabalhos experimentais demonstraram que células neoplásicas de distintas origens são destruídas completamente entre -38°C e -40°C; a temperatura ideal para tratamento das neoplasias malignas é de -50°C.
“Quanto mais rápido for o congelamento e lento o descongelamento, maior será a necrose celular”, pois, com o descongelamento lento, o equilíbrio entre os meios intra e extracelular não se restabelece. O tempo durante o qual o tecido deve permanecer congelado é também discutido pelos autores, e pode variar de 30 s a 20 min. Já em neoplasias de órgãos internos, como fígado, pâncreas, próstata e ossos, o tempo para o congelamento varia entre 5 e 40 min.
Figura 14.9 Paciente canino com hemangiossarcoma (HSA) em região abdominal. A. Lesão hemorrágica característica de HSA. B. Sessão de criocirurgia, utilizando-se ponteira aberta. C. Aspecto da lesão 21 dias após a sessão de criocirurgia.
Existe uma regra para lesões dermatológicas que sugere dividir o tempo de congelamento recomendado para a lesão entre o necessário para se atingir o halo desejado e o resto do tempo para mantê-lo. Logo, uma lesão com requisito de 60 s teria o halo formado nos 10 a 15 primeiros segundos e os 45 a 50 s restantes serviriam para sua manutenção. Em relação ao tempo de descongelamento, este deve ser igual ou maior a duas vezes o tempo de congelamento total (TDT > 2 × TCT).
Recomenda-se evitar o uso de um ciclo único, pois este procedimento diminui muito a taxa de morte celular. As principais neoplasias, benignas e malignas, nas diferentes áreas da veterinária, tratadas pela criocirurgia como terapia única ou em associação com outras técnicas e condutas
terapêuticas, estão descritas no Quadro 14.1.
A crioterapia pode ser empregada em lesões neoplásicas, de prognóstico bem reservado, com localização de difícil acesso por técnicas tradicionais e em animais de idade avançada, revelando-se efetiva, prática, não onerosa, o que por muitas vezes evita a eutanásia.
Cuidados
Os principais cuidados baseiam-se na higiene diária com o auxílio de gaze umedecida em solução fisiológica. Bandagens são indispensáveis em regiões do tronco e dos membros, e deve-se sempre ter o cuidado de trocá-las. Antes de um novo procedimento de criocirurgia, as crostas e os tecidos necróticos formados devem ser cuidadosamente removidos.
O uso de antibióticos somente é indicado quando o hemograma aponta um desvio à esquerda. Nessas condições, a cultura e o antibiograma são recomendados.
O uso de ponteiras fechadas que promovem a crioadesão e também de jato confinado (cryochamber) deve ser feito com extrema técnica e muito cuidado, pois pode promover uma avulsão do tecido congelado.
Complicações
Qualquer procedimento que não seja realizado com técnica adequada pode ocasionar efeitos indesejáveis. O congelamento excessivo de um tecido causará uma grande necrose tecidual, provocando a perda de estruturas e
causando um dano maior do que o apresentado na lesão inicial (Figura
14.10).
A criocirurgia causa morte tecidual. Consequentemente, ter-se-á um tecido necrótico com odor desagradável e o aspecto às vezes impactante ao proprietário. Esses efeitos devem ser muito bem explicados antes de iniciar o tratamento.
Lesões em região interna de orifício nasal podem causar estenose, devendo-se atentar ao fato para evitar um desconforto ao animal.
Considerações finais
A criocirurgia é o congelamento do tecido pelo uso de um criógeno até indução de necrose. A escolha da técnica é definida pela avaliação da lesão e do diagnóstico prévio por meio da biopsia. Para diferentes patologias, é possível utilizar técnicas e ponteiras que melhor executem o tratamento
(Figura 14.11). A vantagem da técnica decorre do fato de ser um procedimento menos oneroso, podendo ser realizado com anestesia local em pacientes idosos ou de risco, ser pouco cruenta, ter bom efeito cosmético e pouca sensação dolorosa. Além disso, pode ser associada a outras formas de tratamento como a cirurgia, a quimioterapia e a radioterapia, constituindo-se em um tratamento curativo, adjuvante ou paliativo em casos de pacientes portadores de neoplasia. Efeitos indesejados estão associados à escolha de técnica inadequada e ao congelamento excessivo, o que conduz à estenose cicatricial, à destruição tecidual e a deformidades. A realização dessa técnica em múltiplos órgãos na rotina cirúrgica de pequenos animais requer melhor documentação científica para avaliar sua eficácia, colateralidades e definir fatores prognósticos nos pacientes oncológicos.
Figura 14.10 A. Aspecto da lesão inicial. B. Lesão ocasionada pelo excesso de congelamento.
Figura 14.11 A e B. Uso da sonda fechada (mini probe plana) para tratamento de pequenas neoplasias focais. Paciente canino apresentando hemangiossarcoma (HSA).
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