Oncologia em Cães e Gatos

Carlos Roberto Daleck, Andrigo Barboza De Nardi · Capítulo 63 de 63

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Oncologia em Cães e Gatos

57 Eutanásia

Introdução

A palavra eutanásia, origem grega, significa “boa morte” (eu: boa; thanasia: morte). Na nomenclatura médica, o termo eutanásia é definido como o procedimento que induz a morte, sem dor ou sofrimento, de um paciente atingido por uma doença incurável e sem opções terapêuticas.

Em Medicina Humana, a eutanásia é legalmente aceita em alguns países, mas o debate ainda merece muita discussão de todas as esferas envolvidas.

Em Medicina Veterinária, a eutanásia é uma prática lícita e faz do médico-veterinário um profissional com experiência única nesse quesito. Ao veterinário, é permitido discutir o tema em detalhes com colegas de profissão e também com os proprietários, considerando a eutanásia um direito dos animais.

Segundo normatização do Conselho Federal de Medicina Veterinária1, a eutanásia é um procedimento clínico e de responsabilidade exclusiva do médico-veterinário. Esta deve ser empregada de forma tecnicamente regulamentada, seguindo preceitos éticos específicos e atendendo aos princípios de bem-estar animal.

Morte e eutanásia em Oncologia Veterinária Em Medicina Veterinária, nas especialidades dedicadas ao tratamento de doenças com alta morbidade e mortalidade e que podem levar à perda de autonomia do paciente associado à dor e ao sofrimento, como a Oncologia, o assunto eutanásia sempre encontra espaço para reflexão.

Não é incomum que os proprietários depositem suas expectativas e incertezas a respeito da evolução da doença de seus animais diretamente nos veterinários e na equipe, questionando o tratamento e suas implicações de forma ansiosa e, muitas vezes, associando-os à tristeza, raiva ou ainda depressão. A atuação de outros profissionais na equipe veterinária, como psicólogos, pode ser extremamente útil na abordagem e no acolhimento dos proprietários. O psicólogo também pode atuar no sentido de aliviar as tensões geradas na equipe veterinária como consequência de uma rotina psiquicamente intensa e desgastante.

A experiência frequente dos médicos-veterinários oncologistas com a morte de seus pacientes, naturalmente ou por eutanásia, pode contribuir

para alterações de humor e depressão e, segundo Than et al.2, pode elevar o risco de suicídio.

 

Eutanásia realizada na clínica veterinária Da mesma forma como outros vários procedimentos clínicos e cirúrgicos, a eutanásia deve ser normatizada no rol de atividades da clínica veterinária para que, independentemente do profissional executante ou da equipe a serviço, todos os passos preconizados sejam realizados sempre da mesma maneira. Também é recomendável que todo e qualquer outro funcionário que esteja presente na clínica ou no hospital durante a realização de uma eutanásia tenha sido adequadamente orientado quanto a uma postura adequada à situação, em respeito ao momento emocionalmente delicado do proprietário. Nesse sentido, o treinamento de todos os funcionários pelos próprios veterinários ou, ainda, por psicólogos pode ser extremamente útil sobre “o que falar”, “como agir” e “o que não fazer”.

É importante que a clínica veterinária solicite ao proprietário que registre sua decisão pela eutanásia por meio de autorização por escrito para que o veterinário realize o procedimento.

É recomendável que o ambiente no qual o procedimento de eutanásia será realizado seja restrito e aconchegante. Salas com baixa luminosidade, silenciosas e climatizadas são mais adequadas do que os ambientes extremamente iluminados, azulejados e metálicos, como os das salas de ambulatórios veterinários. Portanto, o ideal é qua a clínica veterinária tenha uma sala específica para essa finalidade.

Muitos proprietários querem permanecer do lado de seus animais durante todo ou parte do procedimento de eutanásia e, caso isso seja solicitado, deve ser respeitado, como um momento de despedida.

Animais alertas ou que apresentam resistência à contenção devem ser sedados previamente. Proprietários que presenciam a perda de consciência de seus animais de forma tecnicamente adequada sentem-se bem em constatar que, uma vez em plano anestésico profundo, estes não experimentarão nenhum tipo de sensação dolorosa ou sofrimento nas etapas sucessivas. Os passos seguintes, até a constatação do óbito, também podem ser realizados na presença do proprietário, se assim ele desejar.

Tecnicamente, o procedimento de eutanásia inclui a administração de fármacos, por via intravenosa, que induzam, sequencialmente, perda de consciência imediata, parada respiratória e cardíaca.

A perda da consciência é realizada por meio de indução anestésica. O plano ideal a ser atingido é o estágio III, plano 3, em que não mais se observam a presença dos reflexos protetores, como os reflexos palpebrais, interdigitais e de deglutição. A partir do plano anestésico profundo atingido, segue-se a administração de fármaco que induza bloqueio neuromuscular dos músculos intercostais e diafragmáticos, causando parada respiratória, que deve ser imediatamente seguido da administração intravenosa rápida de cloreto de potássio, o que acarretará fibrilação ventricular e parada cardíaca.

No mercado veterinário, existem produtos comerciais específicos para esse fim, como o T61, uma associação dos fármacos embutramida (anestésico geral que paralisa o centro respiratório), mebezônio (agente curarizante que causa paralisia dos músculos estriados esqueléticos, incluindo os músculos respiratórios) e tetracaína (anestésico local com objetivo de diminuir a dor no local da injeção), e o euthasol, associação de um anestésico barbitúrico e de fenitoína sódica que, na dose letal, induz depressão do sistema respiratório e dos centros vasomotores, que evolui para colapso cardiovascular e do sistema nervoso central.

O óbito do paciente deve ser confirmado pela ausência de pulso periférico, cianose, midríase não responsiva à luz e traçado eletrocardiográfico isoelétrico.

Os enfermeiros e técnicos encarregados dos cuidados e preparo do corpo do animal após o óbito devem assumir postura de respeito, principalmente na presença do proprietário. Envolver o corpo com cobertores e lençóis ou ainda outros objetos que o proprietário separou para este momento é uma forma de respeito e consideração ao luto do proprietário, assim como a permanência por algum tempo, após o óbito, em seu ritual de despedida.

 

Eutanásia realizada na residência do animal Alguns proprietários solicitam que o procedimento de eutanásia seja realizado na residência do animal para que ele tenha a oportunidade de morrer em um contexto totalmente familiar, com a atenção e a presença das pessoas importantes para o paciente e, em alguns casos, na presença de outros animais de convívio.

Independentemente do local em que a eutanásia seja realizada, os passos de indução de sono anestésico procedido por parada respiratória e cardíaca devem seguir os mesmos preceitos técnicos.

Funeral

O destino final do corpo e o tipo de funeral geralmente são decididos pelos proprietários.

Ainda é bastante frequente o desejo dos proprietários de enterrar seus animais em locais onde estes gostavam de estar ou passear, como sítios ou chácaras, porém esses destinos não são adequados, pelo risco de contaminação ambiental. A decomposição de cadáveres de animais gera necrochorume, um composto de bactérias e substâncias tóxicas que pode contaminar o solo e o lençol freático. O procedimento mais adequado é realizar o enterro em cemitérios destinados a animais por serem áreas reservadas para esse fim.

Mais recentemente, a cremação tem se tornado especialmente solicitada, pois permite que as cinzas do animal retornem aos proprietários para que estes deem a elas o destino que considerarem adequados.

 

Luto dos proprietários

O processo de luto envolve a sensação de impotência, culpa e vazio. Encarar uma nova rotina, sem a presença do animal, especialmente no caso de proprietários que mantinham vínculos significativos, é um reforço à tristeza e pode levar à depressão.

Não é raro os proprietários relatarem que seu luto não é reconhecido pelos familiares, colegas de trabalho ou mesmo pelos amigos e sentirem-se constrangidos quando criticados por pessoas que consideram banal a morte de um ser que “não passa de um cão ou um gato”. O luto não reconhecido pode transformar o sofrimento solitário e silencioso em um trauma.

O luto normal é considerado um processo em que o profundo pesar que o proprietário sente pela morte de seu animal diminui gradativamente até que a lembrança do animal querido não seja mais motivo de tristeza, e sim saudade. Alguns proprietários podem apresentar mais dificuldade em elaborar a perda de seus animais e, dessa forma, não concluir o processo do luto, o que é importante para a formação de novos vínculos afetivos e a manutenção dos vínculos já existentes.

Adrian et al.3 realizaram um levantamento considerando 106 proprietários que concordaram em responder a um questionário sobre o impacto dos sentimentos de tristeza relacionados com a morte de seus animais de companhia. O estudo constatou que sentimentos definidos como tristeza e luto eram relativamente comuns em pelo menos 6 meses em cerca de 30% dos proprietários questionados e que 5 a 12% dos proprietários desenvolveram sintomas significantes de luto complicado e distúrbio de estresse pós-traumática.

 

Considerações finais

O momento em que a eutanásia torna-se uma opção para pacientes com câncer é sem dúvida uma constatação muito frustrante tanto para proprietários como para veterinários.

É uma situação de grande exigência para o veterinário e para sua equipe, pois estes devem atuar tecnicamente de forma impecável, em respeito ao paciente e, ao mesmo tempo, serem sensíveis à dor e ao sofrimento do proprietário.

Embora a experiência da eutanásia seja normalmente acompanhada de tristeza e frustração, o tema pode ser um estímulo à reflexão de assuntos pouco discutidos na sociedade, como o adoecer por câncer, a finitude do ser humano e o direito à morte sem sofrimento.

 

Referências bibliográficas

1. CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA VETERINÁRIA – CFMV. Resolução nº 1000 de 11

de maio de 2012. Dispõe sobre procedimentos e métodos de eutanásia em animais. Disponível

em: <http://portal.cfmv.gov.br/>. Acesso em: 01/05/2014.

2. THAN, L.; CRANE, M. F.; PHILLIPS, J. K. The distinct role of performing euthanasia on

depression and suicide in veterinarians. Journal of Occupational Health Psychology, v.17, p. 123, 2014.

3. ADRIAN, J. A.; DELIRAMICH, A. N.; FRUEH, B. C. Complicated grief and posttraumatic

stress disorder in humans’ response to the death of pets/animals. Bull. Menninger Clin., v.73, p. 176, 2009.

 

Bibliografia

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA VETERINÁRIA – CFMV. Guia brasileiro de boas práticas

para a eutanásia de animais. Disponível em:

<http://www.cfmv.gov.br/portal/_doc/guiabbp_eutan%C3%A1 sia_animal.pdf/>. Acesso em:

01/05/ 2014.

HETTS, S.; LAGONI, L. The owner of the pet with cancer. Vet. Clin. North. Am. Small Anim. Pract.,

v. 20, p. 879, 1990.

ROLLIN, B. E. Euthanasia, moral stress, and chronic illness in veterinary medicine. Vet. Clin. North

Am. Small Anim. Pract., v. 41, p. 651, 2011.

 

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