Oncologia em Cães e Gatos

Carlos Roberto Daleck, Andrigo Barboza De Nardi · Capítulo 7 de 63 · parte 1/3

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Oncologia em Cães e Gatos

1 Epidemiologia e Etiologia do Câncer

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Introdução

O termo epidemiologia é de origem grega, em que epi significa “sobre”, demos refere-se à população e logia é “estudo”. Por definição, epidemiologia é o estudo da distribuição das várias formas de câncer na população, a observação e a análise das variações de sua ocorrência em diferentes grupos ou comunidades e os fatores de risco associados. Estudos observacionais do câncer, comparações com as diferentes populações, espécies, centros de saúde e registros de câncer possibilitam:

 

• Descrever as características gerais de ocorrência da doença na população • Gerar e avaliar hipóteses sobre os fatores causais da doença • Entender a distribuição dos casos de câncer no espaço geográfico • Avaliar o impacto social, econômico e cultural da doença • Realizar alocação dos recursos para pesquisa, prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação dos pacientes de forma fundamentada, considerando o impacto de cada tipo de câncer na sociedade • Avaliar o impacto, o custo e os benefícios das medidas de intervenção populacional na prevenção e no diagnóstico precoce do câncer.

 

Indicadores epidemiológicos

A avaliação das diferentes neoplasias em termos de desagravos sociais, econômicos e individuais pode ser feita por meio de uma série de indicadores. A maioria desses índices está bem estabelecida; o desafio reside na obtenção representativa, confiável e constante das informações. Esses indicadores podem ser vitais (incidência, mortalidade, prevalência, sobrevida, frequência, anos perdidos por morte prematura, e anos em média perdidos por morte prematura), sendo simples, unidimensionais e objetivos, ou relacionados com a qualidade de vida e o impacto social e econômico (p. ex., anos de vida perdidos e vividos com incapacidades, custo da doença), sendo complexos e multidimensionais.

 

■ Definições

Incidência

Número de casos novos de câncer diagnosticados em uma população definida, geralmente apresentado por casos a cada 100 mil indivíduos por ano. A introdução de instrumentos ou intervenções populacionais que aumentam a precocidade do diagnóstico tende a aumentar a incidência da neoplasia no período.

O índice torna-se representativo com o trabalho de sistemas de informação em saúde como os Registros de Câncer de Base Populacional. Estes consistem em sistemas elaborados para coletar informações sobre todos os casos de câncer presentes na população. Eles consolidam informações multicêntricas complementando informações individuais a partir das diferentes fontes de coleta e eliminando dados duplicados (atendimento do mesmo paciente em uma ou mais instituições). São responsáveis por produzir análises estatísticas descritivas e inferenciais que possam guiar políticas públicas de controle do câncer. Em países onde Registros de Câncer de Base Populacional não existem, a incidência é estimada pela mortalidade ou pela utilização de bases de dados correlatas, como as provindas de Seguradoras de Saúde em Animais.

 

Mortalidade

É o número de óbitos em determinada população, que também pode ser representada por óbitos a cada 100 mil indivíduos. É comum ser evidenciados trabalhos em Medicina Veterinária que mostram a proporção de causas de morte por doença em um hospital, serviço de necropsia ou cemitério animal, mas são raros os que calculam a mortalidade de uma população não hospitalizada.

 

Razão incidência/mortalidade

É a razão entre os novos casos de câncer e os óbitos por eles causados. Quanto mais próxima de 1, pior é o prognóstico aos pacientes e, consequentemente, maior o impacto social da doença.

 

Sobrevida

O seguimento dos pacientes (follow-up) é a principal fonte de informações para análises de sobrevida. Pode ser composto de um grupo específico de pacientes ou obtido diretamente pelos dados dos Registros de Câncer.

 

Frequência

É a proporção da ocorrência de casos de câncer, em geral, sem utilizar um denominador populacional que a torne representativa de uma população específica. Normalmente, é obtida por estudos retrospectivos de hospitais, clínicas ou laboratórios. São dados de representação parcial, altamente sujeitos aos vieses de seleção, devendo ser considerados cuidadosamente ao serem extrapolados para outra população de animais. A obtenção desses dados, em geral, requer menor infraestrutura e investimento; esse índice é mais fácil de ser encontrado na literatura, apresentando importantes informações sobre a ocorrência local dos casos de câncer e, quando avaliado de forma multicêntrica, possibilita a obtenção de dados gerenciais. Quando fala-se de dados gerenciais, faz-se referencia à qualidade do atendimento, à característica dos proprietários de cães da região e a outras variáveis que permitem a melhoria dos serviços regionais e a melhor alocação de recursos humanos e financeiros por eles.

 

Prevalência

É o número de pacientes portadores de neoplasias malignas em determinado período; inclui novos casos diagnosticados, pacientes em tratamento e em seguimento. É a somatória dos casos novos com os anteriormente diagnosticados e com os registros de pacientes que permanecem vivos. Este indicador é influenciado pelo número de casos novos na população, pela sobrevida e pela mortalidade. Quando se trata de câncer, muitos autores consideram casos mesmo os pacientes em remissão da doença. Pode-se avaliar uma prevalência parcial considerando, em seres humanos, somente pacientes com 1 (tratamento inicial), 3 (seguimento clínico) ou 5 anos de diagnóstico (em remissão). A prevalência pode ser um bom indicador para gerenciar serviços de saúde, pois define o número de pacientes que necessitam de atendimento ou acompanhamento médico. Pode ser obtida por Registros de Câncer com longo período de atuação ou por meio de pesquisas de campo, como estudos transversais – embora essa abordagem tenda a subestimar a real prevalência.

A incidência e a mortalidade tendem a demonstrar melhor o impacto da doença na sociedade e, em geral, são medidas que influenciam diretamente os valores dos demais indicadores. A alocação de recursos, entretanto, é mais bem direcionada quando esses índices são avaliados simultaneamente com os demais.

 

Anos perdidos por morte prematura

Este indicador considera um agravo de maior impacto social os óbitos em indivíduos jovens. Esta informação possibilita uma avaliação mais complexa, considerando conjuntamente a sobrevida e a mortalidade. O indicador de anos perdidos por morte prematura (years of life lost, YLL) é o cálculo de quantos anos foram perdidos por morte precoce em virtude do câncer em uma população. O tempo perdido por morte prematura é a somatória da diferença, de cada indivíduo doente, entre a sua expectativa de vida e a data de óbito. Por exemplo, a expectativa de vida de seres humanos do Japão, por ter os maiores valores, foi considerada o padrão humano.

 

Anos em média perdidos por morte prematura É a divisão entre a quantidade de anos perdidos na população (YLL) pelo número de indivíduos acometidos por neoplasias. O indicador de anos em média perdidos por morte prematura (average years of life lost, AYLL) permite entender a influência média de uma neoplasia na esperança de vida de um indivíduo com a doença. Esse dado provém de uma média populacional e não deve ser consideradofator prognóstico.

Nos EUA, por exemplo, a American Cancer Society estima que, em 1997, 809 mil anos de vida foram perdidos por causa do câncer de mama (YLL), equivalendo à média de 19,3 anos de vida perdidos por cada mulher acometida (AYLL).

É importante destacar que a elevada incidência de alguns tipos de câncer na população pode aumentar a quantidade de anos perdidos (YLL), mesmo que o AYLL de cada indivíduo seja pequeno. Dessa forma, o AYLL é um melhor indicador quando se trata de indivíduos e o YLL quando se quer avaliar uma população.

Anos de vida perdidos e vividos com incapacidades Em 1994, Murray definiu as bases metodológicas para um índice global, com a capacidade de ser usado para todas as doenças e que pudesse unir o peso da morbidade e da mortalidade de uma doença. Esse conceito foi trabalhado pelo World Bank e depois adotado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Esse índice é importante para:

 

• Gerenciar prioridades em serviços e pesquisas em saúde • Identificar grupos de risco e focar medidas de intervenção • Prover medidas comparáveis nos diversos programas, intervenções, avaliações setoriais e planejamentos em saúde.

 

O índice de anos perdidos e vividos com incapacidades, (disability adjusted life year lost, DALY) é uma medida que gera um valor resultante de um escore entre 0 (sem desagravo) e 1 (morte) para cada ano perdido de vida por morte precoce ou morbidade. Esse escore é definido conforme o sexo, a idade e o desagravo pelo qual o indivíduo é acometido. O DALY é considerado uma evolução do quality adjusted life years (QALY), identificado como um indicador complementar.

 

Custo da doença

É o custo financeiro de uma doença para a sociedade. Pode ser divido entre custos diretos com o tratamento, aqueles por morbidade e os por mortalidade. Os custos por mortalidade são muito parecidos com YLL e consideram o valor monetário da perda de possíveis anos de trabalho pelo indivíduo.

Há muitas outras metodologias para a avaliação do impacto econômico do câncer. Em Medicina Veterinária, os cálculos devem ser avaliados criteriosamente porque o valor intrínseco do animal e sua capacidade produtiva e reprodutiva são distintos do ser humano.

Estudos observacionais

Os estudos em epidemiologia do câncer, basicamente, servem para avaliar o impacto da doença na sociedade, entender fatores de risco ou proteção e compreender os efeitos de intervenções de prevenção, diagnóstico precoce ou tratamento sobre indicadores epidemiológicos, qualidade de vida e

sobrevida dos pacientes. Na Tabela 1.1, é apresentado um sumário dos tipos de estudo desenvolvidos, lembrando que variações e adaptações existem e dependem dos objetivos de cada pesquisador.

O câncer é uma doença causada por múltiplos fatores etiológicos. Esses fatores de risco, para serem confirmados, devem passar por uma série de

critérios de causalidade definidos por Hill (1965)*:

 

• Força: intensidade da associação entre o fator causal e a doença. Quanto maior for o risco ou a chance de o indivíduo exposto desenvolver a doença em relação ao não exposto, maior a força da associação • Consistência: relatos similares em outros estudos reafirmam a relação causal encontrada no estudo. Associações sem consistênciapodem ser verdadeiras, já que diferentes metodologias de estudo são empregadas e as características populacionais são diferentes

• Especificidade: quando um fator está relacionado somente com a doença estudada, é mais provável que ele seja um fator causal • Relação exposição-resposta (gradiente biológico): caso a intensidade da exposição esteja diretamente relacionada com a intensidade da resposta (p. ex., incidência da doença), trata-se de um indicativo de que seja um fator causal

• Plausibilidade biológica: evita que sejam consideradas associações estatísticas sem sentido. Deve-se reconhecer que podem existir relações verdadeiras, mas que a literatura ainda não é capaz de explicar suas bases biológicas • Relação temporal: um fator, para ser causal, deve ocorrer antes do surgimento da doença. Embora seja uma relação óbvia, em alguns tipos de experimento, como estudos transversais e caso-controle, nem sempre é possível avaliar essa relação temporal entre causa e efeito

 

Tabela 1.1 Sumário dos tipos de estudos observacionais, experimentais e revisões de

literatura para pesquisa em Oncologia Veterinária.

 

Estudos observacionais*

 

Relato de caso Descrição de casos permitindo entender a evolução e o desfecho

de uma doença ou intervenção pouco relatada na literatura ou que tenha caráter inédito ou inovador

 

Séries de caso Descrição que permite entender de forma mais ampla e

sistemática a evolução e o desfecho de uma doença ou

intervenção pouco relatada na literatura ou que tenha caráter inédito ou inovador em um grupo de pacientes

 

Estudo ecológico Avaliação de dados agregados da população sobre indicadores da

doença (p. ex., incidência, mortalidade, prevalência) em relação ao nível de exposição dos fatores estudados (p. ex., nível de

poluição do ar, qualidade da água ou índices socioeconômicos). Estudo de baixo custo, de rápida execução e que necessita de dados con áveis provindos de sistemas de informação ou outros estudos populacionais descritos na literatura. É uma metodologia que permite a geração de hipóteses de forma rápida e e ciente, mas com limitação quanto a comprovação das relações causais. Após estudos ecológicos, a realização de estudos de caráter

individual permite análises inferenciais para comprovação das hipóteses geradas. A falácia ecológica é o viés intrínseco desse tipo de estudo e consiste na incapacidade de se dizer que os

indivíduos que contribuíram para a geração dos indicadores de fato tiveram o mesmo nível de exposição indicado para a

população da qual fazem parte

 

Estudo transversal Informações sobre ocorrência e fatores causais são obtidas

simultaneamente de uma amostra populacional em um ponto temporal especí co. Em geral, são usadas para avaliação de

condições comuns e de longa duração. Em muitos casos, pelo fato de os dados serem obtidos simultaneamente, é difícil estabelecer a relação temporal entre causa e efeito

 

Estudo caso-controle Estudo em que um grupo com o desfecho (caso) e outro sem o

desfecho (controle) são avaliados quanto aos fatores de risco ou proteção a que foram expostos. Necessita de pouco tempo e de poucos recursos nanceiros para ser executado. É especialmente interessante para a avaliação de doenças de ocorrência rara (em que os casos já estão agrupados pelo pesquisador), uma vez que a variável procurada é o nível de exposição, não o surgimento de novos casos na população. A maior di culdade desse tipo de

estudo é a escolha do grupo-controle a m de evitar vieses de seleção. Em muitos casos, é impossível determinar a relação

temporal entre causa e efeito

 

Estudo de coorte Estudo em que se acompanha um grupo populacional exposto e

outro não exposto (controle) ao fator de exposição avaliado e se compara a ocorrência da doença ao longo do tempo nessas duas populações. Os grupos populacionais são escolhidos pelo

pesquisador, mas não os indivíduos que compõem cada

população. É o estudo observacional que gera os resultados mais concretos e de mais força para inferir sobre causalidade,

entretanto, necessita do acompanhamento dessa população ao longo do tempo, o que faz com que a pesquisa demande quantias consideráveis de tempo, recursos humanos e nanceiros

 

Estudos experimentais O pesquisador, por meio de indução direta ou indireta, observa a

doença e suas características em um ou mais grupos

experimentais, permitindo inferências com a comparação em um ou mais grupos-controle

 

Revisões da literatura**

 

Revisão de literatura Revisão de artigos da literatura de forma empírica, congregando e

comparando dados sem metodologia padronizada

 

Revisão sistemática Revisão da literatura a partir de metodologia padronizada de

busca e seleção de artigos

 

Metanálise Revisão sistemática associada à comparação estatística dos

resultados publicados por vários autores

 

*Estudos observacionais: o pesquisador observa a ocorrência da doença e suas características em um indivíduo, um grupo ou uma população e os analisa de forma descritiva ou inferencial, comparando

com outros grupos populacionais. **Revisões da literatura: o pesquisador revisa a literatura em busca de material que subsidiará a pesquisa.

 

• Coerência: o fator estudado não deve confrontar todo o conhecimento estabelecido sobre a história natural da doença • Reversibilidade: a retirada do fator de risco reduz a ocorrência da doença. Essa informação muitas vezes é difícil de ser obtida em estudos observacionais, sendo mais plausível ser avaliada em estudos experimentais.

 

Transição epidemiológica

A transição epidemiológica é o processo de mudança no perfil de morbidade e mortalidade das doenças em uma população. Observa-se o acontecimento simultâneo da substituição de doenças transmissíveis pelas não transmissíveis e causas externas, do deslocamento dos grupos de risco da população mais jovem para a mais idosa e do predomínio de morbidade em vez da mortalidade. Esse processo é acompanhado da transição demográfica, caracterizada pelo envelhecimento da população mundial. Os animais de companhia, pela íntima convivência com seus proprietários, principalmente em países desenvolvidos, compartilharam as mesmas condições geradas em seus donos pelo processo de transição epidemiológica. É provável que a alta prevalência das doenças malignas nas espécies canina e felina esteja correlacionada com a maior longevidade desses animais, além do crescente aumento populacional. A literatura é enfática ao afirmar que a longevidade excepcional de cães e gatos está associada ao aparecimento de doenças complexas, como o câncer. A prevenção das doenças infectocontagiosas, mediante esquemas vacinais, os avanços tecnológicos – permitindo maior precisão diagnóstica e terapêutica – e o fornecimento de dietas específicas por meio de rações balanceadas e terapêuticas, possibilita que cães e gatos tenham maior expectativa de vida. E, assim, a incidência das neoplasias aumenta, pois, quanto maior o tempo de vida do animal, maior é a sua exposição aos agentes cancerígenos.

Em países desenvolvidos como a Dinamarca, a Suécia, os EUA e o Japão, as principais causas de morte em cães são as doenças crônico-degenerativas. No Brasil, a transição epidemiológica ainda está acontecendo para cães e gatos. Na cidade de São Paulo, foi estimado, para cães, que as doenças infecciosas são as principais causas de morte e as principais responsáveis pela diminuição na longevidade da população. Essas poderiam ser prevenidas por adesão a medidas de imunoprofilaxia e vermifugação. As doenças neoplásicas foram a segunda causa de morte encontrada pelos autores, equivalendo a 13,28% dos casos, com sobrevida mediana de 84 meses. Uma avaliação dos óbitos no Hospital Veterinário da Universidade Norte do Paraná (UNOPAR), em Arapongas (PR), entre julho de 2005 e julho de 2009, demonstrou longevidade de 59,97 e 82,79 meses em cães e gatos, respectivamente. Nesse estudo, as doenças infecciosas ou parasitárias foram as principais causas de morte (47,27%) em cães, seguidas por distúrbios causados por agentes físicos (13,18%) e, depois, por neoplasias (10%). Os casos de neoplasia foram representados por 68,18% de animais idosos e a longevidade média foi de 125,4 meses. Em um levantamento retrospectivo dos protocolos de necropsia do Laboratório de Patologia Veterinária da Universidade Federal de Santa Maria, constatou-se que as doenças infecciosas e parasitárias são a maior causa de morte (35%), especialmente importantes em animais jovens (55,3%) e adultos (27,5%). As neoplasias representam a maior causa de morte somente em animais idosos (32%), seguidas por doenças degenerativas (22,6%).

 

Sistemas de informação em saúde A obtenção desses indicadores só é possível com o fluxo de dados sobre os

pacientes (Tabela 1.2) – e também de seus proprietários quando se faz referência aos animais de companhia –em sistemas de informação de saúde. Os sistemas básicos que governam os indicadores são os sistemas de Informação de Mortalidade, Registros de Câncer Hospitalares e de Base Populacional, além dos censos populacionais. A implantação e a manutenção desses sistemas de coleta sistemáticos requerem recursos, treinamento técnico especializado e uma série de padrões e protocolos para a garantia da representatividade e qualidade das informações armazenadas nos bancos de dados.

Em 1990, estimou-se que 18% da população mundial era coberta por um registro de câncer; desse grupo, 64% eram países desenvolvidos e 5%, países em desenvolvimento. Nesse mesmo ano, somente 42% da população humana mundial era coberta por um sistema vital de registro de mortalidade. A necessidade de uma infraestrutura específica, da formação de profissionais em Epidemiologia do Câncer, do treinamento de equipe e da capacidade de trabalho e coleta multicêntrica nos dados faz com que essa informação não consiga ser obtida para seres humanos em muitos países – na África e na Ásia, segundo o GLOBOCAN de 2008, apenas 11 e 8%, respectivamente, da população é coberta por um sistema de registro. Ao selecionar apenas registros considerados de alta qualidade, a fração da população mundial cai para 8%, com África e Ásia responsáveis unicamente por 1 e 4% dessa população, respectivamente.

Registros de Câncer podem ser hospitalares ou de base populacional. Os Registros Hospitalares de Câncer (RHC) visam a dispor de uma fonte sistemática de dados nas respectivas unidades sobre a ocorrência do câncer, utilizando as informações coletadas para avaliar a evolução dos pacientes, gerar trabalhos científicos e melhor alocar os recursos utilizados para diagnóstico e tratamento. Os Registros de Câncer de Base Populacional são responsáveis por determinar a incidência da doença, mortalidade e sobrevida, em determinada área geográfica, e usam informações dos RHC locais, sistemas de informação de mortalidade e banco de dados de laboratórios.

Tabela 1.2 Informações básicas a serem pesquisadas em um registro de câncer.

 

Nível Variável Comentário

 

Paciente

 

Identi cação Número de registro Gerado pelo registro

individual

Nome –

 

Sexo Condição reprodutiva, se

conhecida

 

Data de nascimento Estimado, se não conhecido

(ano de nascimento)

 

Endereço do proprietário –

 

Tumor Data do diagnóstico –

 

Base diagnóstica Microscópico ou não

microscópico

 

Topogra a (localização) Tumor primário

 

Morfologia (histologia) Indicar o sistema de

codi cação

 

Comportamento Benigno/maligno

Fonte de informação Tipo: clínico, laboratorial e

necropsia

 

Fonte do dado: nome da

clínica, laboratório ou

patologista

 

Adaptada de Nödtvedt et al., 2012.1

 

Os registros de câncer em Medicina Veterinária têm existido em pequeno número e, em geral, com baixo tempo depermanência, além de natureza esporádica. Os primeiros inicia-ram suas atividades na década de 1960, e a maioria está inativada. Na América do Norte, pode-se citar o Kansas University Neoplasm Registry Records (1961-1972), o California Animal Neoplasm Registry (1963-1967), o Veterinary Medical Data Base (1964, ainda ativo), o Tulsa Registry of Canine and Feline Neoplasms (1972-1977), o Purdue Comparative Oncology Program (1979, ainda ativo), o de Cornell (1980, ainda ativo) e o Comparative Oncology and Genomics Consortium (2006, ainda ativo – é um banco de tumores). Na Europa, é possível citar o Norwegian Canine Cancer Registry (1990, ainda ativo), o Animal Tumor Registry de Gênova, Itália (1985-2002), o Animal Tumour Registry de Veneto, Itália (2005, ainda ativo) e o Danish Veterinary Cancer Registry (2006, ainda ativo). Alguns relatos são feitos no Reino Unido, onde se usam informações de cães assegurados. Alguns registros surgem com abrangência internacional, via internet, e com proposta de voluntariado para os médicos veterinários, como o VetCancer Registry

(<www.vetcancerregistry.com>), em 1994, e o Texas Veterinary Cancer

Registry (<texasvetcancerregistry.com>), em 2011. Uma revisão mais detalhada sobre registros de câncer animal, sua história e benefícios para a

Medicina Veterinária pode ser encontrada na ánalise de Brønden et al.2

Por realizarem uma coleta sistemática das informações ao longo dos anos de forma multicêntrica e em constante evolução, os Registros de Câncer Animal, em geral, são as melhores fontes para obtenção de dados sobre Epidemiologia do Câncer em Animais. A extrapolação desses dados para a realidade brasileira, entretanto, deve ser cuidadosamente considerada, uma vez que o ambiente, o estado reprodutivo, o perfil racial e genético da população de cães e gatos variam muito entre os países. No Brasil, em 2013, foi fundado o Registro de Câncer Animal de São Paulo, ligado ao Núcleo de Apoio à Pesquisa em Oncologia Veterinária (NAP-ONCOVET) e à Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), com suporte financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Em agosto de 2010, na Norwegian School of Veterinary Science, Oslo, Noruega, aconteceu um workshop dos Registros de Câncer Animal dos diferentes países. Nesse encontro, foram indicadas as informações mínimas que devem ser coletadas por um registro de câncer animal, mas que podem ser usadas como modelo para a coleta de informações na prática clínica.

Mesmo com o advento da captação eletrônica de dados, a dificuldade para se obter uniformidade nos dados permanece um grande desafio. Para viabilizar as comparações, formularam-se codificações internacionais, padronizando-se informações como grau, comportamento e estadiamento do tumor.

Para registrar um paciente, seu diagnóstico e os procedimentos realizados na prática hospitalar, deve-se adotar um sistema de codificação. Atribuir um código numérico ou alfanumérico a uma variável é fundamental para podermos estabelecer comparações entre as diferentes instituições, evitando classificações errôneas e facilitando a análise estatística da informação. Em estudos observacionais, muitas vezes é necessário gerar os próprios códigos, porque eles nem sempre estão padronizados ou conferem com a necessidade da pesquisa. Na Medicina Humana, alguns dos códigos e classificações mais importantes que podemos citar para uso em Epidemiologia do Câncer são:

 

• Classificação Internacional de Doenças (CID): essa classificação teve início em 1893, servindo como base para classificar e codificar as causas de morte. Após a Segunda Guerra Mundial, a OMS tornou-se responsável pela publicação dessas classificações (CID). Em 1999, foi lançada a 10a edição, vigente até o momento

• Classificação Internacional de Doenças para Oncologia (CID-O): essa publicação foi elaborada especificamente para doenças oncológicas e separa os códigos de topografia (localização) e morfologia (diagnóstico). Até 1968, a OMS utilizava a CID para a classificação de doenças oncológicas, entretanto os códigos somente indicam a localização e a malignidade tumoral. Em virtude da necessidade de associar o diagnóstico morfológico, foi lançada a 1a edição da CID-O, associando a topografia da 9a edição da CID com o Manual de Nomenclatura de Tumores e Códigos (MOTNAC), desenvolvido pela American Cancer Society. O College of American Pathologists (CAP) adotou a morfologia da CID-O como uma das bases do SNOMED e mantém convênio para utilizar os diagnósticos morfológicos para oncologia em sua base de dados • Classificação de Tumores Malignos (TNM): foi desenvolvida por Pierre Denoix entre 1943 e 1952. A International Union Against Cancer (UICC), em 1968, publicou o primeiro Livre de Poche (livro de bolso) com a agregação dos estudos de estadiamento tumoral realizados a partir da proposta feita por Denoix. Atualmente, está na 7a edição do livro, denominado TNM, e serve como guia para gerar o estádio para os diferentes tipos de câncer em seres humanos

• Systematized Nomenclature of Medicine Clinical Terms (SNOMED CT): sistema de codificação elaborado para registros eletrônicos em saúde. Extremamente detalhado e codificado para o uso de computadores, que pode ser mapeado traduzido para gerar resultados conforme a CID. Foi elaborado pelo American College of Pathologists e, desde 2007, é mantido e distribuído pela International Health Terminology Standards Development Organisation (IHTSDO).

 

Os sistemas humanos a seguir foram citados porque foram a base para a formação de algumas importantes classificações sobre agravos e procedimentos em saúde na Medicina Veterinária:

 

• TNM (OWEN, 1980): é a publicação oficial da OMS para estadiamento clínico e patológico de doenças oncológicas em animais. Foi elaborado em dois encontros em Genebra nos anos de 1978 e 1979 com base na publicação humana da Union for International Cancer Control (UICC). Continua o principal guia de estadiamento na literatura veterinária • Veterinary Nomenclature Codes (VeNom): sistema de termos veterinários desenvolvido pelo VeNom Coding Group em cola-boração com a Royal Veterinary College (RVC) e a University of Glasgow Faculty of Veterinary Medicine (UGFVM) e a PDSA. Foi desenvolvido com o objetivo de ser tão robusto quanto o SNOMED, porém mais simples e acessível (open access)

• Standard Nomenclature of Veterinary Diseases and Operations (SNVDO): vocabulário veterinário controlado, desenvolvido desde 1964 pela Epizoology Section of the National Cancer Institute and the College of Veterinary Medicine na Michigan State University. Essa nomenclatura foi feita em conjunto com a 5ª edição da Standard Nomenclature of Diseases and Operation (SNOD). É o atual sistema de nomenclaturas e codificações usadas pelo Veterinary Medical Database (VMDB), base de dados americana que conta com aproximadamente 7 milhões de registros de pacientes animais (não exclusiva para doenças oncológicas) • Systematized Nomenclature of Medicine Clinical Terms (SNOMED CT): a American Veterinary Medical Association (AVMA), desde 1995,

selecionou o SNOMED3 (adaptado) como método de codificação oficial para a representação dos conceitos em Medicina Veterinária.

 

A convivência entre cães e seres humanos é um fato relevante nas últimas décadas e, provavelmente, relaciona-se a mudanças nas estruturas familiares. Cada vez mais, o cão e o gato convivem estritamente com o ser humano, tornando-se um membro da família. Com frequência, os animais representam companhia para pessoas idosas, divorciadas, solteiras, crianças e casais sem filhos, existindo assim um grande envolvimento emocional entre o ser humano e os cães e os gatos. Isso faz com que a população de animais de companhia se amplie. Na cidade de São Paulo, SP, Brasil, estima-se que existam 2.507.401 cães e 562.965 gatos, entretanto essas informações não estão disponíveis de forma precisa para todas as regiões.

Registros demográficos completos, em geral, não estão disponíveis para animais de companhia. A maioria dos pesquisadores utiliza dados da população hospitalar, e são poucos os que usam uma população de base estimada ou censitária. Entre as alternativas encontradas, estão os registros oficiais dos governos (p. ex., países como a Dinamarca e a Itália apresentam determinação legal para o registro de posse de cães), dados de Kennel Clubs, a estimativa da população de animais de companhia por inquérito domiciliar (como nos distritos de Alameda e Contra Costa, Califórnia, EUA) e os registros da população atendida pelos médicos veterinários e por meio dos cadastros públicos de vacinação ou das empresas de seguro animal (como no Reino Unido). Registros de cadastros não oficiais, por não corresponderem à adesão total, costumam gerar subestimativas, e os registros dos hospitais perdem o refinamento da delimitação geográfica dos pacientes. A falta de censos, certificações de mortes e registros de neoplasia geram estudos epidemiológicos que dificilmente são comparáveis.

 

Epidemiologia

■ Neoplasias no mundo

Em 1961, o Kansas University Neoplasm Registry Records do Department of Veterinary Pathology, College of Veterinary Medicine, Kansas State University, iniciou o registro de dados clínicos e patológicos (diagnóstico histopatológico por amostras biopsiadas em ato cirúrgico) em equinos e caninos, portadores de tumores, atendidos naquela universidade. Em 1972, o Registro encerrou suas atividades, completando 3.837 casos caninos e 287 equinos. Desde então, uma série de registros de câncer animal surgiu e começou a gerar dados referentes à incidência populacional e à ocorrência hospitalar multicêntrica de neoplasias benignas e malignas em cães e gatos.

A Tabela 1.3 mostra resultados publicados dos registros Animal Tumor Registry of the Vicenza and Venice Provinces of Veneto Region, Itália, Eletronic Medical Record de Ontário, Canadá, de uma seguradora animal no Reino Unido, Animal Tumor Registry of Genoa, Itália, California Animal Neoplasm Registry, EUA, e Tulsa Registry of Canine and Feline Neoplasms, EUA.

Em uma pesquisa de dados post-mortem, realizada em 1982 nos EUA, incluindo 2 mil cães, concluiu-se que o câncer foi a causa mais comum de óbito, representando aproximadamente 23% das mortes. Em 1999, no Reino Unido, 16% dos cães foram a óbito por câncer.

 

Tabela 1.3 Incidência de neoplasias em cães e gatos conforme publicado pelos

Registros de Câncer Animal ou correlatos.

 

Estudo País Incidência de neoplasias a cada 100 mil

cães por ano

 

Maligna e Benigna Maligna benigna

 

Cães Vascellari et Itália 282,2 140 143

al. (2009)4

 

Reid-Smith Canadá 3.965 3.113* 852

et al. (2000)5

 

Dobson et al. Reino 1.948 1.200,1* 747,9

(2002)6 Unido

 

Merlo et al. Itália 1.070* 760 310

(2008)7

 

Dorn (1967)8 EUA 1.515* 1.134 381

 

McVean et al. EUA 1.416 909* 507

(1978)9

 

Estudo País Incidência de neoplasias a cada 100 mil

gatos por ano

 

Maligna e Benigna Maligna benigna

 

Gatos Vascellari et Itália 77 14 63

al. 4 (2009)

 

Reid-Smith Canadá 429 110* 319

et al. (2000)5

 

Dorn (1967)8 EUA – – 155

McVean et al. EUA 496 84* 412

(1978)9

 

*Dados calculados a partir dos resultados apresentados no estudo. Os dados não foram padronizados para idade. A diferença na incidência pode ser decorrente das diferenças etárias nas diversas populações.

 

Sobre a distribuição dos vários tipos de neoplasias, na maioria dos levantamentos estatísticos, constata-se que os tumores de pele e os de tecido mole são os mais frequentes. Na sequência, as neoplasias mais diagnosticadas compreendem as de glândulas mamárias, as de tecido hematopoiético, incluindo os linfomas, além dos tumores ósseos, urogenitais, endócrinos, do trato digestório e orofaríngeos.

Em uma pesquisa realizada no Reino Unido, os três tumores mais diagnosticados foram os de natureza benigna e compreenderam o histiocitoma cutâneo canino, o lipoma e o adenoma, seguidos dos mastocitomas e dos linfomas. Dorn, avaliando a base de dados do California Animal Neoplasm Registry, comparando os locais das neoplasias mais frequentes entre humanos, cães e gatos, constatou que as neoplasias cutâneas são as mais incidentes em ambas as espécies, seguidas das neoplasias mamárias em mulheres e cadelas e leucemia e linfoma em gatos. No Danish Veterinary Cancer Registry entre 2005 e 2008, os locais mais frequentes foram pele e anexos (43%), trato genital feminino, incluindo neoplasias mamárias (28%), e sistema hematopoiético e órgãos cardiovasculares (6%). Ainda como resultado, os tumores mais frequentes em cães machos foram os de tecido conjuntivo (17%), testículos (16%), pele (melanoma) (14%), orofaringe (10%), linfoma (10%), ossos (4%), estômago e intestino (3%). Nas fêmeas, predominou a neoplasia mamária (51%), seguida das de tecido conjuntivo (9%), pele (melanoma) (8%), linfoma (6%), orofaringe (5%), fígado e sistema biliar (2%) e ossos (2%). A

Tabela 1.4 mostra resultados de outros trabalhos.

Estudos epidemiológicos na literatura internacional, de forma geral, mostram que a raça Boxer tem sido considerada predisposta ao desenvolvimento de neoplasias, principalmente mastocitomas e linfomas. Estudos também relatam que cães da raça Bernese Mountain Dog são predispostos para o desenvolvimento de histiocitose maligna (> 25%), assim como os Scottish Terriers para carcinomas vesicais (18 vezes a mais de chance em comparação com os cães sem raça definida) e cães de grande porte para o desenvolvimento de osteossarcomas. Outro estudo mostrou que Cocker Spaniels Americanos têm risco maior de desenvolverem neoplasias benignas [1,42 (1,17 a 1,72)] e neoplasias malignas [1,81 (1,11 a 2,96)] em comparação com cães sem raça definida. Golden Retriviers têm um risco aumentado para neoplasias malignas [2,30 (1,43 a 3,70)] e Bichon Frisés, para desenvolvimento de neoplasias benignas [0,51 (0,33 a 0,79)]. Outro trabalho mais minucioso calculou o risco relativo das raças mais acometidas por diferentes tipos de neoplasia (região mamária, testicular, linfoma, histiocitose maligna e osteos-sarcoma). As raças com mais risco foram: Boxer (linfomas), Float Coated Retrivier (histiocitose maligna), Schnauzer Gigante (linfomas), Cocker Spaniel Inglês (mamária), Rotweiller (osteos-sarcomas), Setter Inglês (mamárias), Bernese Mountain Dog (histiocitose maligna), Dobermann (osteossarcomas), Labrador (linfomas) e Pastor-alemão (mamárias). Em relação à idade, a maioria dos animais acometidos por neoplasias é considerada adulta e, principalmente, idosa, com variação na faixa etária entre 6 e 12 anos. Em geral, as neoplasias acometem mais fêmeas do que machos, levando em consideração que as neoplasias mamárias são as neoplasias diagnosticadas com mais frequência na rotina veterinária.

 

■ Neoplasias em animais domésticos no Brasil Após análises de vários relatos sobre estudos epidemiológicos publicados principalmente por Serviços de Patologia e de Oncologia Veterinária das universidades e instituições de ensino e pesquisa nacionais, foram identificados os seis tipos de neoplasia mais diagnosticados em cães e gatos

(Quadro 1.1). Nesse estudo, as neoplasias mais detectadas compreendem as de pele e tecido subcutâneo, depois de tumores mamários, hematopoéticos e ósseos.

Um estudo retrospectivo foi realizado no Serviço de Patologia Animal do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina Veterinária e

Zootecnia da USP por Kimura et al.10 Todos os casos com o diagnóstico principal de neoplasia (1993-2002) foram recuperados. Um total de 12.118 espécimes de biopsia e necropsia foi processado pelo serviço de diagnóstico durante o período. Entre estes, 1.971 casos (16%) eram neoplasias, a maioria em caninos (92%, n = 1.813), seguidos por felinos (4%, n = 82), equinos (3%, n = 61) e bovinos (1%, n = 15). Animais sem raça definida (SRD) foram mais acometidos entre cães (27%, n = 492) e gatos (40%, n = 33). Holstein (47%, n = 7) e Mangalarga (28%, n = 17) foram as raças mais comumente afetadas em bovinos e equinos, respectivamente. A incidência de tumores por gênero não demonstrou diferença significativa entre as espécies. Cães e gatos eram acometidos por neoplasias com mais frequência na faixa etária de 6 a 10 anos. As neoplasias mais frequentes em cães foram as mamárias (13%, n = 244), enquanto o carcinoma espinocelular foi o mais diagnosticado em gatos (18%, n = 14), bovinos (53%, n = 8) e equinos (33%, n = 5).

 

Quadro 1.1 Distribuição das neoplasias mais diagnosticadas, de acordo com dados

obtidos pela análise de estudos epidemiológicos nacionais.

 

Neoplasias de pele e tecido subcutâneo

 

Tumores mamários

 

Neoplasias hematopoéticas

Tumores orofaríngeos

 

Tumor venéreo transmissível em cães

 

Tabela 1.4 Dados de neoplasias em cães conforme publicados pelos Registros de

Câncer Animal de Base Populacional ou correlatos.

 

Proporção do tumor por Incidência* Incidência* localização (%)

 

Localização Macho Fêmea Número Macho Fêmea

 

Pele e tecido 56,1 30,8 1.437 378 187

mole

 

Tecido 1,9 56,4 205 25 1.525

mamário

 

Cavidade oral 4 1,6 210 120 56

 

Linfoma não 3,2 1,5 134 229 182

Hodkgin

 

Genitourinário 13,4 3,2 139 192 0

 

Autor (país) Vascellari et Dobson et Merlo et al.,

al., 2009 al., 2002 2008

(Itália)4 (Reino (Itália)7

Unido)6

*Casos a cada 100.000 indivíduos por ano.

 

Em um estudo epidemiológico em cães tratados no Hospital Veterinário da Universidade Federal do Paraná (HV-UFPR), no período de janeiro de 1998 a novembro de 2006, verificou-se alta frequência de neoplasias mamárias (46,07% do total de tumores), seguida de mastocitomas (10,93%), dos quais 35% comprometeram cães da raça Boxer. Diferenciando-se dos relatos internacionais, em terceiro lugar foi diagnosticado o tumor venéreo transmissível (3,54%), depois os linfomas

(3,38%). Na Figura 1.1, demonstra-se a predominância das doenças neoplásicas nas fêmeas caninas. Pode-se observar que, em uma população de 649 cães acometidos por neoplasias, 471 eram fêmeas, correspondendo a 72,5% da casuística.

A predisposição racial para o desenvolvimento de neoplasias está

demonstrada na Tabela 1.5. De acordo com a distribuição nessa tabela, constatou-se maior envolvimento de cães sem raça definida, Pastor-alemão, Poodle e Boxer, em ordem decrescente.

A classificação histopatológica dos vários tumores em cães atendidos no

período de investigação está relacionada na Tabela 1.6. A frequência absoluta e relativa das neoplasias em cães relacionada com a idade está

demonstrada na Figura 1.2, em que se observou maior predisposição ao desenvolvimento de tumores em animais com idade variando entre 6 e 12

anos. Conforme a Figura 1.3, os tumores mamários representam aproximadamente 46% de todas as neoplasias na fêmea canina, sendo 67,9% dessas malignas.

Figura 1.1 Demonstração da frequência dos tumores em cães, distribuída conforme o sexo, diagnosticada pelo Serviço de Oncologia do Hospital Veterinário da Universidade Federal do Paraná, campus de Curitiba, no período de janeiro de 1998 a novembro de 2006.

 

Figura 1.2 Distribuição do número de neoplasias em cães atendidos no Hospital Veterinário da Universidade Federal do Paraná, campus de Curitiba, no período de janeiro de 1998 a novembro de 2006, de acordo com a idade em anos.

 

Tabela 1.5 Incidência de neoplasias em cães, diagnosticadas no Hospital Veterinário da

Universidade Federal do Paraná, campus de Curitiba, no período de janeiro de 1998 a

novembro de 2006, distribuída conforme a raça.

 

Raça Número de animais Porcentagem

 

Akita 6 0,92

 

Basset Hound 4 0,62

 

Boxer 70 10,79

 

Chow-chow 2 0,31

 

Cocker Spaniel Inglês 49 7,56

 

Collie 4 0,62

Dachshund 12 1,85

 

Dálmata 6 0,92

 

Dobermann 25 3,85

 

Dogue Alemão 14 2,16

 

Fila Brasileiro 19 2,93

 

Fox Paulistinha 2 0,31

 

Fox Terrier 2 0,31

 

Husky Siberiano 10 1,54

 

Pastor-alemão 82 12,63

 

Pequinês 2 0,31

 

Pinscher 15 2,31

 

Poodle 47 11,4

 

Rottweiler 19 2,93

 

Samoieda 2 0,31

 

São Bernardo 6 0,92

Setter Inglês 6 0,92

 

Sheep Dog 6 0,92

 

Schnauzer 2 0,31

 

Weimaraner 6 0,92

 

Yorkshire 2 0,31

 

Cães sem raça de nida 202 31,12

 

Total 649 100

 

A ocorrência das neoplasias mamárias foi maior nas fêmeas da espécie

canina com idade entre 7 e 12 anos, conforme a Figura 1.4.

Para concluir, por meio de estudo epidemiológico realizado na UFPR, constataram-se algumas correlações com prováveis fatores etiológicos dos tumores mamários, como o fato de que 48,2% das fêmeas tinham sido tratadas previamente com hormônios anticoncepcionais. Quanto à dieta, 52,63% das pacientes não eram alimentadas somente com rações balanceadas. Também se observou que 68,4% das fêmeas com idades entre 7 e 12 anos foram acometidas por tumores mamários malignos.

Por meio da correlação de dados, foi possível detectar alta incidência de mastocitomas afetando a raça Boxer. De um total de 71 casos de mastocitomas atendidos no período da investigação, 35% eram de cães da raça Boxer. Quanto à predisposição racial de linfomas, observou-se maior prevalência nesta mesma raça nas idades entre 5 e 10 anos. Em nenhuma das neoplasias ou dos mastocitomas e dos linfomas foi possível detectar ou associar prováveis agentes etiológicos externos.

Tabela 1.6 Porcentagem de tumores em cães atendidos no Hospital Veterinário da

Universidade Federal do Paraná, campus de Curitiba, no período de janeiro de 1998 a

novembro de 2006.

 

Classi cação Número de tumores Porcentagem

histopatológica

 

Adenoma de mama 81 12,91

 

Adenoma de adrenal 2 0,31

 

Adenoma de glândula 8 1,27

hepatoide

 

Adenoma sebáceo 13 2,07

 

Adenocarcinoma sebáceo 2 0,31

 

Adenocarcinoma de intestino 2 0,31

delgado

 

Adenocarcinoma de mama 129 20,57

 

Carcinoma basocelular 5 0,79

 

Carcinoma broncoalveolar 1 0,16

 

Carcinoma de células 2 0,31

transicionais

 

Carcinoma espinocelular 7 1,11

Carcinoma indiferenciado 14 2,23

 

Condroma 4 0,63

 

Condrossarcoma 2 0,31

 

Fibroma 4 0,63

 

Fibrossarcoma 9 1,43

 

Epúlide acantomatoso 2 0,31

 

Epúlide bromatoso 2 0,31

 

Epúlide ossi cante 1 0,16

 

Hemangioma 14 2,23

 

Hemangiopericitoma 3 0,47

 

Hemangiossarcoma 19 3,03

 

Histiocitoma 11 1,75

 

Liomioma 8 1,27

 

Linfoma 22 3,50

 

Lipoma 14 2,23

Mastocitoma de grau I 17 2,71

 

Mastocitoma de grau II 50 7,97

 

Mastocitoma de grau III 4 0,63

 

Melanoma 12 1,91

 

Meningioma 2 0,31

 

Mixossarcoma 1 0,16

 

Osteocondrossarcoma 1 0,16

 

Osteoma 4 0,63

 

Osteossarcoma 4 0,63

 

Rabdomioma 14 2,23

 

Sarcoma indiferenciado 2 0,31

 

Seminoma 12 1,91

 

Sertolioma 4 0,63

 

Tricolenoma 2 0,31

 

Tumor de células intersticiais 14 2,23

 

Tumor de células de Sertoli 4 0,63

benigno

 

Tumor de células de Sertoli 8 1,27

maligno

 

Tumor misto benigno de 15 2,40

mama

 

Tumor misto maligno de 74 11,80

mama

 

Tumor venéreo transmissível 2 0,31

 

Total 627 100

 

Figura 1.3 Frequência das neoplasias malignas e benignas da glândula mamária observadas nas fêmeas da espécie canina durante o período de investigação pelo serviço de Oncologia Veterinária do Hospital Veterinário da Universidade Federal do Paraná, campus de Curitiba, no período de janeiro de 1998 a novembro de 2006.

Figura 1.4 Distribuição do número de casos de neoplasias mamárias conforme a idade, diagnosticadas no Hospital Veterinário da Universidade Federal do Paraná, campus de Curitiba, no período de janeiro de 1998 a novembro de 2006.

 

 

■ Neoplasias mamárias em cães e gatos As neoplasias mamárias são as diagnosticadas com mais frequência nas fêmeas da espécie canina, representando aproximadamente 25 a 50% de todos os tumores diagnosticados. Estima-se que a taxa de incidência anual de cadelas desenvolvendo neoplasias mamárias seja de 198 em cada 100 mil. Todas as raças podem ser afetadas, com maior incidência em Pastor-alemão, Dobermann, Poodle e Cocker Spaniel. Apresentam com mais frequência o tumor, fêmeas com idade avançada, em torno de 10 anos, e esterilizadas após vários estros. Aproximadamente 50% das neoplasias mamárias são malignas.

Os fatores de risco mais descritos para as neoplasias mamárias em cadelas compreendem a estimulação estrogênica, o emprego de contraceptivos e a alimentação rica em gorduras.

Quanto aos fatores de proteção, recomenda-se a castração cirúrgica precoce antes do primeiro estro, além da administração de rações balanceadas, evitando-se o excesso de ingestão de gorduras. O efeito protetor conferido pela gestação em idade mais jovem observado na mulher não foi constatado em fêmeas das espécies canina e felina.

Nas gatas, as neoplasias mamárias representam o terceiro tipo mais diagnosticado, menos frequente em comparação às fêmeas da espécie canina, sendo secundária aos tumores de pele e aos do sistema hematopoético. As fêmeas entre 10 e 14 anos são as mais afetadas, e a predisposição maior ocorre na raça Siamesa. De acordo com levantamentos epidemiológicos, estima-se que a incidência anual esteja em torno de 12,8 em 100 mil gatos, sendo de 25,4 para 100 mil gatas. De 80 a 96% das neoplasias mamárias são malignas, a maioria representada pelos adenocarcinomas, altamente metastáticos nos pulmões e linfonodos regionais. Como na cadela, a duração da exposição a estrogênio e progesterona está associada à carcinogênese. A supressão hormonal por meio da ovariectomia anterior ao primeiro estro reduz o risco da tumorigênese mamária em 0,05%, aumentando para 8% após o primeiro estro e 26% após o segundo ciclo estral. O maior consumo de gorduras e carne vermelha também está associado à carcinogênese mamária em gatas. Não houve correlação entre a idade da primeira gestação e o desenvolvimento tumoral nessa espécie.

 

■ Tumores de pele em cães e gatos Na literatura, há unanimidade na afirmativa de que as neoplasias de pele e subcutâneas sejam as mais diagnosticadas em cães. Há divergências nos estudos epidemiológicos sobre os tumores de pele, na maioria das vezes citados como representantes de um terço de todas as neoplasias que se desenvolvem nessa espécie. Nos gatos, são secundários aos tumores linfoides, além de representarem um quarto de todas as neoplasias nessa espécie. Estima-se que a incidência esteja em torno de 450 casos de neoplasias cutâneas em 100 mil cães e de 120 em 100 mil gatos. Cerca de 80% dos tumores de pele são benignos em cães. Em gatos, essa porcentagem está em torno de 59%. Com frequência, os papilomas são descritos como os mais diagnosticados em cães, seguidos pelos lipomas. Entre as neoplasias malignas, os mastocitomas são considerados os mais frequentes em cães, observando-se que são mais invasivos localmente do que metastáticos.

Aproximadamente dois terços das neoplasias de pele em cães são benignos e se originam a partir do epitélio das estruturas anexas, como glândulas sebáceas e sudoríparas, além dos folículos pilosos. No que se refere ao tipo, podem ser tumores epiteliais, tumores mesenquimais e tumores de células redondas.

As neoplasias de pele mais diagnosticadas em cães compreendem os mastocitomas, hemangiossarcomas, carcinomas, melanomas, carcinomas de células basais e linfomas cutâneos. Os gatos são mais acometidos pelos carcinomas de células basais, mastocitomas, carcinomas de células escamosas e fibrossarcomas.

Aproximadamente 20 a 30% das neoplasias de pele são malignas em cães, ao passo que em gatos a prevalência de tumores malignos de pele varia de 50 a 65% dos casos. As neoplasias cutâneas são mais frequentes em cães mais velhos, e o gênero não interfere na incidência.

Continuar: parte 2 de 3