Oncologia em Cães e Gatos

Carlos Roberto Daleck, Andrigo Barboza De Nardi · Capítulo 49 de 63

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Oncologia em Cães e Gatos

43 Neoplasias do Sistema Reprodutivo Feminino

Introdução

 

As neoplasias dos órgãos reprodutivos das fêmeas das espécies canina e felina acometem ovários, útero, vagina, vestíbulo e glândulas mamárias. Os tumores mamários situam-se entre as neoplasias mais comuns nessas espécies. As neoplasias de ovários e útero são mais raras e com frequência representam desafios diagnósticos e terapêuticos. Em cadelas, as neoplasias de vagina e vestíbulo são as mais comuns do sistema reprodutivo, excluindo-se as das glândulas mamárias.

Essas neoplasias têm como característica a forma silenciosa com que progridem e em geral são assintomáticas ou promovem alterações correlatas à síntese excessiva de hormônios, induzindo modificações no estro, queda de pelos, hemometra, piometra e outras enfermidades indiretas.

 

Neoplasias ovarianas

 

■ Incidência Os tumores ovarianos são descritos em todas as espécies, mas são raros. A incidência em cadelas e gatas é baixa, compreendendo entre 0,5 e 6% de todos os tumores caninos descritos e, em felinos, oscila entre 0,7 e 3,6%. Essa baixa incidência decorre da esterilização precoce dos animais, principalmente na Europa e nos EUA. No Brasil, não existem dados efetivos sobre a real ocorrência, mas se especula que seja maior, considerando-se que a esterilização de fêmeas jovens não é uma prática rotineira, principalmente fora dos grandes centros urbanos.

 

■ Comportamento natural Há três categorias de neoplasias ovarianas divididas de acordo com o tipo celular de origem: células epiteliais, células germinativas e cordões sexuais-estromal. Em menor escala, também ocorrem tumores mesodermais e

mesenquimais, como os fibromas (Figura 43.1) e leiomiomas (Figura 43.2). A rara descrição de três tipos de lesão no mesmo ovário foi relatada em uma cadela de 15 anos de idade e incluía o leiomioma – tumor de células da granulosa e cistos foliculares. O comportamento biológico, as metástases e a possibilidade de secreção de hormônios pelo tumor são influenciados pelo tecido que o originou. Raramente, o ovário é local para doenças metastáticas, mas já foram descritos casos de metástases provenientes de neoplasias mamárias e intestinais, carcinomas pancreáticos e linfomas.

 

Neoplasias de células epiteliais

As neoplasias epiteliais se originam das células do epitélio superficial do ovário estendendo-se até o córtex ovariano. Essa categoria inclui adenoma (cistadenoma), adenocarcinoma (cistadenocarcinoma) e carcinoma indiferenciado. Esse tipo de neoplasia corresponde a 40 a 50% dos tumores ovarianos em cadelas e é raro em gatas. Estão mais predispostos os animais de meia-idade a idosos e não há predisposição racial. O adenoma é um tumor benigno e representa a neoplasia mais comum de origem epitelial e a segunda neoplasia ovariana mais frequente em cadelas. Em geral, caracteriza-se por múltiplas formações císticas e normalmente é unilateral, mas existem relatos de ocorrência bilateral.

O adenocarcinoma é a neoplasia ovariana maligna de origem epitelial mais frequente (64%) e, em geral, tem ocorrência bilateral. A forma clássica do adenocarcinoma é associada à implantação peritoneal difusa, além disso alguns mecanismos podem desenvolvê-la, como edema do tumor ovariano, que pode promover o extravasamento extracapsular de fluido; esfoliação de células tumorais, induzindo a metástase transcelômica, em que essas células implantadas podem exercer pressão e obstruir vasos linfáticos peritoneais e diafragmáticos; e ocorrência de secreções por células metastáticas peritoniais implantadas. Metástases de adenocarcinomas foram observadas em linfonodos renais e para-aóticos, omento, fígado e pulmões.

Carcinoma indiferenciado é o termo utilizado para denotar neoplasias cuja morfologia embrionária e ausência de secreção hormonal não permitem a identificação da origem de uma célula epitelial específica.

 

Neoplasias de células germinativas

As camadas das células germinativas são ectoderma, mesoderma e endoderma, podendo as neoplasias ter origem em uma ou em todas as camadas. Os tumores ovarianos de células germinativas mais comuns são o disgerminoma, o teratoma e o teratocarcinoma.

Figura 43.1 Fibroma ovariano (10,5 × 9,0 × 8,5 cm) de uma cadela adulta, sem raça definida. A. Nota-se o ovário contralateral sem alterações, envolvido pela bolsa ovariana. B. Aspecto macroscópico da neoplasia (FIB) e ovário contralateral (seta) sem alterações, seccionados no sentido longitudinal.

 

Figura 43.2 Leiomioma ovariano bilateral em cadela adulta, sem raça definida. A. Aspecto macroscópico externo. B. Aspecto macroscópico após secção longitudinal da neoplasia.

 

Disgerminomas surgem de células germinativas indiferenciadas e, portanto, consistem em uma população relativamente uniforme de células semelhantes às células germinativas primordiais ovarianas, por isso assemelham-se à morfologia testicular, sendo então denominados seminomas ovarianos. Sua apresentação é comumente unilateral, seu crescimento se dá por expansão e sua taxa de metástase está entre 10 e 30%, sendo locais frequentes os linfonodos abdominais, havendo, porém, relatos de acometimento em fígado, rins, omento, pâncreas e glândulas adrenais. Os disgerminomas constituem aproximadamente 8% dos tumores ovarianos

na espécie canina (Figura 43.3) e cerca de 20% das neoplasias ovarianas em

gatos (Figura 43.4). Podem ser achados durante procedimentos cirúrgicos ou necropsia.

Já os teratomas são neoplasias compostas por células que se diferenciaram em duas ou mais camadas de células germinativas, podendo-se encontrar combinações de tecidos ectodérmicos, mesodérmicos ou endodérmicos. Esses tumores surgem nas gônadas de animais jovens, podendo originar-se no estádio embrionário ou fetal do desenvolvimento. A faixa etária por ocasião do diagnóstico em cadelas é de 1 a 11 anos e em gatas é de 2 a 6 anos.

Os teratomas foram descritos como cistos dermoides porque as massas são representadas por cistos revestidos por pelos e epitélio pavimentoso ceratinizado, envolvendo com frequência tecido adiposo, cartilagem, tecido ósseo, fibras musculares, dentes e tecido nervoso.

Radiograficamente, esses tumores são os com maior probabilidade, entre todos os tumores ovarianos primários, de demonstrar densidades calcificadas, em decorrência da presença de tecido ósseo na maioria deles.

Os teratocarcinomas são teratomas indiferenciados contendo tanto elementos maduros quanto embrionários. Em geral, observam-se metástases com taxa ao redor de 32%, sendo os órgãos abdominais os preferenciais, localizando-se também nos pulmões, no mediastino cranial e nos ossos.

Figura 43.3 Disgerminoma ovariano (seta) de 12 × 7 × 6 cm em uma cadela adulta, sem raça definida, com distocia (útero gestante). A. Aspecto macroscópico da neoplasia. B. Aspecto microscópico da neoplasia. É possível notar a invasão das células neoplásicas no tecido ovariano (setas) com hemorragia focal (estrela). Folículo secundário degenerado (cabeça de seta) é observado próximo à neoformação. Bar = 100 µm hematoxilina-eosina.

 

Neoplasias gonadal-estromais

Os tumores originados do cordão sexual ovariano podem produzir estrogênio e progesterona, causando o surgimento de síndromes paraneoplásicas, como estro persistente, pancitopenia induzida pelo estrogênio, hiperplasia cística do endométrio ou piométrio.

As neoplasias mais frequentes de origem gonadal-estromal são tumores das células da granulosa, tumor das células de Sertoli, tecoma e luteoma.

O tumor das células da granulosa é a neoplasia ovariana mais frequente em cadelas e gatas, representando aproximadamente 50% em ambas as

espécies. Normalmente, são tumores grandes, firmes e unilaterais (Figura

43.5).

Em cães, as neoplasias de células granulosas (Figura 43.6) apresentam comportamento maligno em mais de 20% dos casos, com metástases encontradas nos linfonodos sublombares, no fígado, no pâncreas e nos pulmões, podendo também desenvolver carcinomatose peritoneal.

Figura 43.4 Disgerminoma ovariano de uma gata.

 

 

Os tecomas e luteomas são extremamente raros, apresentam comportamento benigno e não produzem metástases. Já foram relatados casos de tumores das células de Sertoli em cadelas e gatas, mas são raros e podem ser bilaterais.

 

■ Sinais clínicos

Os sinais clínicos de animais portadores de neoplasia ovariana são variados em razão da origem neoplásica. A faixa etária dos animais acometidos varia de meia-idade a idosos, com exceção dos teratomas, comumente observados em animais jovens.

Os animais com tumores de células epiteliais, principalmente os adenomas, apresentam-se assintomáticos até a apresentação de sinais clínicos correlacionados com a presença de massa na região ovariana. Aqueles com neoplasias epiteliais malignas podem apresentar anorexia, perda de peso, abdome dilatado, ascite e efusão torácica, ou ainda sintomatologia relacionada com as metástases, se estas ocorrerem.

Figura 43.5 Tumor das células da granulosa em ovário de cadela adulta.

 

 

Figura 43.6 Tumor das células da granulosa (TCG) maligno e metastático em cadela adulta, sem raça definida. A. É possível observar a neoplasia no ovário direito, com dimensões de 15 × 15 × 13 cm. B. Aspecto macroscópico da neoplasia após secção no sentido longitudinal. É possível notar a cavidade cística (*) no interior da neoplasia.

 

Tumores de células germinativas podem estar associados com disfunções hormonais, mas o mais comum é que sejam assintomáticos. Alguns animais apresentam perda de peso, anorexia, distensão abdominal, depressão, vômito e existem relatos de gatas com disgerminoma que tiveram ascite. Apesar da associação com disfunções hormonais, há relatos de cadelas que apresentaram ciclos estrais regulares e gestação, mesmo com um disgerminoma.

Os sinais clínicos associados aos tumores originados do cordão sexual ovariano podem estar relacionados com a produção hormonal. Os animais normalmente apresentam anorexia, perda de peso, aumento de volume abdominal e massa abdominal palpável. Os tumores funcionais produtores de estrogênio causam aumento de volume da vulva, corrimento vaginal sanguinolento, estro persistente, alopecia e pancitopenia. Os produtores de progesterona provocam o complexo da hiperplasia cística do endométrio/piométrio.

 

■ Diagnóstico

A idade média do diagnóstico das neoplasias ovarianas varia entre 3,5 e 13 anos. A avaliação dos ovários das cadelas e gatas deve ser incluída quando há anormalidade do ciclo estral, pois frequentemente as neoplasias ovarianas estão relacionadas com alterações estrais.

O histórico pode incluir prostração, anorexia, distensão abdominal e perda de peso. O exame físico pode detectar a presença de massa abdominal palpável e efusão pleural e/ou abdominal.

Não costumam ser encontradas alterações laboratoriais consistentes oriundas de neoplasias ovarianas. Portanto, técnicas diagnósticas por imagem são fundamentais, principalmente a ultrassonografia, capaz de detectar e avaliar de modo completo as características macroscópicas de massas, localização, lobulação, presença de cistos, dimensões, entre outras. Citologia aspirativa guiada por ultrassonografia não é recomendada em razão das características das neoplasias da região ovariana, capazes de se implantar na cavidade abdominal e no peritônio, podendo promover alastramento ou novas massas. A avaliação abdominal ou pleural, caso exista, pode auxiliar no diagnóstico. Ademais, radiografias abdominais

podem identificar calcificações sugestivas de teratomas (Figura 43.7). Mesmo sendo rara no momento do diagnóstico, a avaliação radiográfica completa para a identificação de possíveis metástases é importante. Tal avaliação se faz de forma intervalar, quando possível, em períodos mensais a trimestrais. Essa medida permite ao oncologista não apenas diagnosticar novas metástases, mas também planejar o tratamento e definir prognósticos.

 

■ Estadiamento

A classificação por estádios dos tumores ovarianos dos animais, organizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), baseia-se na característica do tumor primário, linfonodos e presença de metástase distante: • Tumor primário (T):

– T0: sem evidência de tumor

– T1: tumor limitado a um ovário

– T2: tumor limitado a ambos os ovários

– T3: tumor estendendo-se até a bolsa ovariana

 

Figura 43.7 Aspecto radiográfico, na posição laterolateral direita, de um teratoma ovariano em cadela. É possível observar áreas de calcificação (seta).

• Linfonodos regionais (sublombares, N):

– N0: sem envolvimento do linfonodo regional

– N1: envolvimento do linfonodo regional • Metástase a distância (M)

– M0: sem evidência de metástase

– M1: evidência de metástase

– M1a: na cavidade peritoneal

– M1b: além da cavidade peritoneal

– M1c: tanto na cavidade peritoneal como além dela.

 

■ Tratamento

A cirurgia é a terapia de escolha para pacientes portadores de neoplasia ovariana. A ovarioisterectomia é a cirurgia indicada em pacientes com neoplasia ovariana, pois alguns tumores são bilaterais, além de poder ocorrer extensão ao útero. A excisão do tumor e apenas do ovário afetado pode ser realizada em pacientes jovens com massa ovariana fortemente sugestiva de teratoma (tumor com densidades calcificadas, sem evidência de metástases ou de secreção de esteroides pelo tumor). Exame cuidadoso de todas as superfícies serosas e remoção ou biopsia de quaisquer lesões suspeitas de doença metastática são recomendados para fins de estadiamento.

O cirurgião deve tomar cuidado para não romper os cistos cheios de líquido durante a cirurgia, minimizando assim a ocorrência de implantação peritoneal das células tumorais presentes nesse líquido.

Quimioterapias paliativas têm sido realizadas e descritas com sucesso, mas não há recomendação por protocolos específicos. Em casos de efusões malignas, podem ser utilizadas instilações intracavitárias de cisplatina.

 

■ Prognóstico

O prognóstico para animais tratados com excisão cirúrgica completa de massas ovarianas isoladas parece ser o mesmo, independentemente de sua particularidade histológica. Em casos não metastáticos, o prognóstico é em geral bom. Quando há evidência de metástases, o prognóstico é pobre, principalmente quando nenhum tratamento é empregado.

O tratamento com quimioterápicos antineoplásicos pode ser considerado em animais portadores de doença metastática, já que demonstra potencial para diminuir ou impedir a progressão tumoral e aumentar a sobrevida. Entretanto, é válido confrontar os fatores sobrevida e qualidade de vida antes de programar essa modalidade de terapia.

 

Figura 43.8 Tumor venéreo transmissível no útero (CoUt) de uma cadela jovem adulta, sem raça definida. A. É possível notar a integridade do tecido do corpo do útero (CUt) e a localização da neoplasia, dorsal à vesícula urinária (VU). B. Neoplasia (NEO) composta por tecido friável.

 

Neoplasias uterinas

 

■ Incidência

A incidência de neoplasias uterinas é tão rara que compreende taxas de 0,3 a 0,4% de todos os tumores em cadelas e de 0,2 a 1,5% em gatas. Os animais mais acometidos são adultos de meia-idade e não há predileção por raça nessas espécies.

 

■ Comportamento natural Os tumores uterinos em animais de companhia podem ter origem epitelial (adenoma, carcinoma e adenocarcinoma) e mesenquimal (fibroma, fibrossarcoma, leiomioma, leiomiossarcoma, lipoma e lipossarcoma). O hemangioma também já foi descrito no útero de gata e os tumores venéreos transmissíveis (TVT) também podem ser encontrados no tecido uterino

(Figura 43.8) de cadelas, apesar de ser uma localização menos frequente.

Em cadelas, a neoplasia uterina mais frequente é o leiomioma (Figura

43.9), representando 85 a 90% de todos os tumores uterinos. É um tumor benigno de comportamento não invasivo em geral, não metastático e de crescimento lento. Contudo, pode acometer cadelas jovens que demonstram sinais de abdome agudo.

O leiomiossarcoma é a neoplasia uterina maligna mais comum nas cadelas, representando aproximadamente 10% dos tumores uterinos.

Em gatas, as neoplasias mais comumente encontradas são o carcinoma e o adenocarcinoma uterino. Há descrições e achados de metástases para linfonodos regionais, cólon, ovários, rins, fígado, pulmões, bexiga, diafragma, glândulas adrenais, olhos e cérebro.

 

■ Sinais clínicos

Os sinais clínicos dos animais portadores de neoplasia uterina dependem de tipo histológico, dimensões e padrão de metástases (caso tenham ocorrido). Em cadelas portadoras de leiomioma ou leiomiossarcoma, podem ocorrer

aumento de volume abdominal e corrimento vaginal (Figura 43.10), mas há animais assintomáticos e os achados são observados na necropsia ou durante a castração. As hérnias inguinais, contendo o útero e o tumor,

podem ocorrer (Figura 43.11). As gatas portadoras de adenocarcinoma normalmente apresentam sinais clínicos quando a doença está avançada. São frequentes os corrimentos vaginais, que variam de purulentos a mucoides até hemorrágicos enegrecidos. Outros sinais observados incluem ciclos estrais anormais, poliúria, polidipsia, êmese e distensão abdominal.

Figura 43.9 Leiomioma uterino de uma cadela adulta, sem raça definida. A. Neoplasia localizada na região de corpo uterino e cérvice (seta), com aderência à vesícula urinária (VU). Nota-se que os cornos uterinos (U) estão livres. B. É possível observar a extensão da neoplasia (seta) após desfazer a aderência à vesícula urinária.

 

 

Figura 43.10 Leiomioma uterino em cadela adulta, sem raça definida. É possível notar o aumento de volume abdominal (A) e sangramento vaginal intenso (B) ocasionado pela neoplasia. C. Localização da neoplasia em um dos cornos uterinos (CoUt), com o corpo do útero (CUt) íntegro. D. Aspecto mascrocópico da neoplasia após secção no sentido longitudinal.

 

■ Diagnóstico

A avaliação laboratorial não fornece resultados esclarecedores ou patognomônicos de neoplasia uterina, mas propicia melhor acompanhamento do paciente. Exames radiográficos permitem visualizar a massa abdominal ou uterina, assim como a ultrassonografia, que é capaz de expor com mais detalhes a neoplasia e sua origem, facilitando a abordagem cirúrgica.

 

■ Estadiamento

Os tumores uterinos em cadelas e gatas podem ser classificados por estádios, segundo a OMS, que adota como base o comportamento do tumor primário, o envolvimento de linfonodos regionais e a presença de metástases:

 

• Tumor primário (T):

– T0: sem evidência do tumor

– T1: tumor não invasivo e pequeno

– T2: tumor invasivo ou grande

– T3: tumor invadindo estruturas vizinhas • Linfonodos regionais (sublombares, N):

– N0: não há linfonodos regionais envolvidos

– N1: linfonodo regional envolvido

– N2: linfonodo justarregional envolvido • Metástase a distância (M)

– M0: sem evidência de metástase

– M1: evidência de metástase

– M1a: na cavidade peritoneal

– M1b: além da cavidade peritoneal

– M1c: tanto na cavidade peritoneal como além dela.

 

Os linfonodos regionais que drenam o útero são os lombares, ilíacos internos e externos e sacrais..

 

■ Tratamento

O tratamento cirúrgico é a melhor opção, sendo a ovarioisterectomia a técnica de escolha. Durante o procedimento cirúrgico, é necessário inspecionar a cavidade à procura de foco metastático; caso seja encontrado, deve-se tentar sua remoção ou retirar um fragmento para enviá-lo a um exame histopatológico, a fim de estadiar corretamente a doença. Quimioterapia e radioterapia não são empregadas por falta de evidências de que possam colaborar com o tratamento do animal, mesmo que paliativamente.

 

■ Prognóstico

O prognóstico para pacientes com neoplasias benignas é excelente e, em geral, a cirurgia é curativa. Nos casos de tumores malignos, o prognóstico é bom, desde que não haja evidência de metástases e que seja possível a remoção completa do tumor. É importante salientar que, em geral, a identificação das neoplasias uterinas e ovarianas costuma ser tardia em decorrência de seu crescimento “silencioso” e o prognóstico deve ser mantido reservado até que seja realizada a avaliação histopatológica e o estadiamento tumoral. Em animais portadores de neoplasias aderidas a outros órgãos e inoperáveis, o prognóstico é ruim. Em gatas portadoras de carcinoma ou adenocarcinoma, em razão do alto poder metastático do tumor, o prognóstico é considerado de reservado a ruim.

 

Neoplasias vaginais e vulvares

■ Incidência Após a incidência das neoplasias da glândula mamária, tumores vulvares e vaginais são os mais comumente observados na rotina oncológica do trato reprodutor feminino de cadelas (2,4 a 4,6%), considerando os tumores desta espécie. As neoplasias vaginais em gatas são extremamente raras.

 

Figura 43.11 Leiomioma uterino em cadela adulta, sem raça definida, associado à hérnia inguinal. A. É possível verificar o aumento de volume da região inguinal (hérnia inguinal). B. Aspecto da neoplasia localizada no corno uterino. C. Aspecto macroscópico do leiomioma uterino, com cavidade cística.

 

A idade dos animais com a neoplasia vaginal varia dos 2 aos 18 anos, dependendo do tipo tumoral. Os TVT são transmitidos durante a cópula e pelo contato íntimo e, por isso, acometem cadelas mais jovens quando comparados com outros tipos de tumores vaginais. Fêmeas das raças Boxer, Poodle e Pastor-alemão apresentam maior incidência de neoplasias vaginais. Fêmeas não castradas são, com frequência, mais predispostas.

 

■ Comportamento natural O tipo histológico mais comum de neoplasias vaginais ou vulvares são os

leiomiomas (Figuras 43.12 e 43.13), que são tumores benignos e se caracterizam por apresentar crescimento lento e baixo poder metastático. Em torno de 85% dos leiomiomas ocorrem no trato reprodutor de cadelas, envolvendo vagina, vestíbulo e vulva. Em áreas endêmicas, o TVT é uma neoplasia comum. Outros tipos tumorais que podem ocorrer na vagina e na

vulva são leiomiossarcoma, fibroma (Figura 43.14), fibrossarcoma,

lipossarcoma, carcinoma, mastocitoma (Figuras 43.15 e 43.16), linfossarcoma e neurofibroma. Outros tipos incluem lipomas, pólipos

(Figura 43.17), melanomas, mixomas e mixofibromas, mas são raros.

As neoplasias vaginais podem se apresentar sob as formas intraluminais ou extraluminais. Os tumores extraluminais apresentam crescimento lento, causam edema na região perineal e é normal que sejam bem encapsulados e pobremente vascularizados. As neoplasias intraluminais são aderidas à

parede vaginal ou vulvar por um fino pedículo (Figura 43.18). Normalmente, são tumores firmes e redondos, podendo ocorrer ulceração em razão da exposição ao meio externo.

Ainda é controverso o papel do estrógeno em leiomiomas. Tem-se verificado que leiomiomas não são observados em cadelas castradas precocemente, antes dos 2 anos de idade. Em outro estudo, observou-se a ocorrência de leiomiomas vaginais em cobaias que receberam estrogênio exógeno. A ocorrência de neoplasias vaginais tanto em cadelas inteiras quanto castradas é um argumento contra essa hipótese.

Além da associação de leiomiomas com a secreção de estrogênio, tem-se investigado a associação dessa neoplasia com cistos foliculares ovarianos, hiperplasia endometrial, hiperplasia mamária e neoplasia mamária.

Figura 43.12 Leiomioma vaginal de uma cadela adulta, sem raça definida. É possível notar as bordas seccionadas da região perineal (setas) para proceder a epsiotomia.

 

■ Sinais clínicos

Os animais portadores de neoplasias vaginais e vulvares podem apresentar edema perineal, prolapso do tecido pela vulva, corrimento vaginal sanguinolento ou purulento, disúria, polaciúria, incontinência urinária e tenesmo.

 

■ Diagnóstico

O diagnóstico de animais portadores de neoplasias vaginais deve se basear no histórico e nos sinais clínicos em combinação com a palpação vaginal, a vaginoscopia, o exame citológico vaginal, a biopsia e, se necessário, a vaginografia contrastada para determinar a extensão da massa. A palpação transretal pode auxiliar a localização das massas vaginais em cadelas pequenas e gatas, principalmente quando não for possível a palpação vaginal.

O diagnóstico diferencial são os prolapsos vaginais e as hiperplasias vaginais. Os tumores vaginais primários são diferenciados dos prolapsos vaginais com base na idade da cadela (os prolapsos ocorrem em animais jovens e os tumores, com exceção do TVT, surgem em animais idosos), na origem da massa (os prolapsos comumente originam-se na região ventral da vagina, cranialmente ao orifício uretral externo, e os tumores podem se originar de qualquer local) e no momento de ocorrência da massa em relação ao ciclo estral (o prolapso ocorre durante o proestro e o estro e raramente no período pós-parto; os tumores ocorrem em qualquer fase do ciclo estral). A hiperplasia vaginal, a exemplo do prolapso, é mais comum durante o proestro e o estro e as mucosas vaginal e vestibular tornam-se edemaciadas, espessas e túrgidas.

 

■ Estadiamento

As neoplasias vaginais em cadelas podem ser classificadas por estádios, segundo a OMS, que adota como base o comportamento do tumor primário, o envolvimento de linfonodos regionais e a presença de metástases:

 

• Tumor primário (T):

– T0: sem evidência do tumor

– T1: tumor menor ou igual a 1 cm em sua dimensão superficial

– T2: tumor maior que 1 cm e menor que 3 cm em sua principal

dimensão; infiltração mínima

– T3: tumor maior que 3 cm ou com infiltração profunda presente

– T4: tumor infiltrando-se em estruturas vizinhas • Linfonodos regionais (sublombares, N):

– N0: não há linfonodos regionais envolvidos

– N1: linfonodos unilaterais móveis

– N2: linfonodos bilaterais móveis

– N3: linfonodos fixos

• Metástase a distância (M)

– M0: sem evidência de metástase a distância

– M1: metástase distante presente.

■ Tratamento

O tratamento cirúrgico é a terapia de eleição para animais portadores de neoplasias vaginais. Normalmente, é necessária a realização da episiotomia dorsal para a completa remoção da massa. A localização, a extensão e o estudo citológico esfoliativo do tumor devem ser determinados antes da cirurgia.

 

Figura 43.13 Leiomioma vaginal em uma cadela adulta, da raça Cocker Spaniel. A. É possível notar aumento de volume da região perineal. B. Aspecto macroscópico da neoplasia. C. Exérese cirúrgica da neoplasia; é possível verificar a sutura da mucosa vaginal (seta preta), após a retirada do tumor, a manutenção do lúmen vaginal (seta amarela) e uretra, com a colocação de sonda uretral (seta vermelha). D. Aspecto da região perineal imediatamente após a cirurgia.

Figura 43.14 Fibroma vaginal em cadela adulta, sem raça definida. A e B. Aspecto da região perineal e vulvar após exérese cirúrgica.

Figura 43.15 Evolução (aproximadamente 8 meses) de um mastocitoma na região perineal/vulvar em uma cadela adulta, sem raça definida. A. Aspecto macroscópico da neoplasia ao primeiro atendimento (1 o dia). Evolução da neoplasia da região perineal (em B, 16o o o dia e em C, 20 dia) e invasão do tecido vulvar (em D, 47 dia), apesar do tratamento quimioterápico. E. Neoplasia na região perineal, no tecido vulvar e no linfonodo inguinal esquerdo (101o o dia). F. Exérese cirúrgica (101 dia). G. Linfonodo inguinal direito comprometido (104o dia). H. Evolução da neoplasia na região abdominal, com intensa reação inflamatória (137 o o dia). I. Nova exérese cirúrgica da neoplasia (157 dia). J. Evolução da neoplasia, com retorno à região perineal e abdominal (204o dia). K. Evolução da neoplasia; nota-se extensa área de necrose tecidual (233 o dia). L. Caquexia intensa; optou-se pela eutanásia (233o dia).

 

Figura 43.16 Mastocitoma perivulvar (seta) em uma cadela adulta, da raça Pitbull.

Figura 43.17 Pólipo vaginal em uma cadela adulta, da raça Cocker Spaniel.

 

Figura 43.18 Leiomioma intraluminal (seta) observado após episiotomia em cadela.

 

Foram descritas vulvovaginectomia e uretrostomia perineal em três cadelas com neoplasia vaginal infiltrativa maligna, mas a dermatite causada pela urina e a infecção do trato urinário foram complicações pós-operatórias significativas e a sobrevida das cadelas oscilou entre 9 semanas e 10 meses.

Em decorrência da hipótese do leiomioma ser hormônio-dependente e pela alta incidência de neoplasias vaginais em fêmeas intactas, a ovarioisterectomia é indicada no momento da cirurgia.

 

■ Prognóstico

Visto que grande parte dos tumores vaginais tem comportamento benigno, o prognóstico é considerado bom, pois a cirurgia geralmente é curativa. Em casos de neoplasias malignas, o prognóstico é considerado de reservado a ruim, em razão da recidiva local após a cirurgia e a ocorrência de metástases.

 

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