Oncologia em Cães e Gatos
46 Neoplasias Articulares em Cães e Gatos
Introdução
Tumores intra-articulares em cães e gatos são afecções neoplásicas raras, porém na maioria dos casos são de ocorrência maligna. As principais neoplasias que acometem as articulações são os sarcomas de células sinoviais, sarcomas histiocíticos, os mixomas sinoviais e condrossarcomas sinoviais, além dos lipossarcomas. As neoplasias benignas que são diagnosticadas no espaço articular são os sinoviomas em gatos e os lipomas em cães.
No entanto, pode haver presença de tumores que ocorrem próximos à articulação (extra-articulares) e, em virtude do comportamento invasivo, comprometem essa estrutura. Na maioria dos casos, a invasão intra-articular ocorre em razão da presença de sarcomas ósseos classificados como tumores centrais ou medulares, periféricos ou periosteais. Os centrais ou medulares são os mais comuns e são representados pelos osteossarcomas (OSA) e fibrossarcomas. Os periosteais são representados pelos condrossarcomas, fibrossarcomas e OSA, os quais são menos agressivos quando comparados com os tumores de origem medular.
Existem ainda outros tumores extra-articulares que podem invadir a articulação, como o rabdomiossarcoma, o hemangiossarcoma, os sarcomas histiocíticos, os plasmocitomas, os sarcomas sinoviais e os sarcomas indiferenciados. Porém, é raro o acometimento de uma articulação por neoplasias metastáticas.
Incidência
O sarcoma de célula sinovial é a neoplasia mais comumente encontrada nas articulações e é mais frequente em cães de porte grande com idade média a avançada, com média de 9 anos. Observa-se uma proporção de três machos para cada duas fêmeas e não há predisposição racial, apesar de estudos apresentarem frequência predominante em cães da raça Rottweiler. A articulação do joelho é a mais comumente acometida, mas pode ocorrer no cotovelo, ombro e tarso.
Os outros tumores intra-articulares primários em sua maioria são raros e podem ocorrer em cães de pequeno, médio e grande porte. Não há predileção para ocorrência em fêmeas ou machos e a média de idade é de 5 a 15 anos.
Um estudo realizado por Craig et al.1 descreveu a presença de 39 casos de cães com mixoma sinovial, sendo as raças Doberman Pincher (26%) e Labrador Retriever (26%) as mais afetadas por essa neoplasia, seguidas por Basset Hound (10%), Rottweiler (8%) e Shetland (5%). A idade média foi de 8,5 anos e ocorreu maior incidência nas fêmeas (64%) do que nos machos (36%). Os locais de desenvolvimentos dos tumores foram joelho (38%), dígitos (26%), tarso (20%), cotovelo (8%), carpo (5%) e vértebras (3%).
Os tumores de origem óssea extra-articulares, que invadem o espaço articular, são mais comuns em cães de médio porte, grandes e gigantes, e as raças mais acometidas são São Bernardo, Dinamarquês, Rottweiler, Setter Inglês, Pastor-alemão, Golden Retriever, Fila Brasileiro e Mastiff. A idade de maior ocorrência é em torno de 6 a 9 anos e os machos apresentam frequência ligeiramente maior que as fêmeas.
Etiologia
A etiologia exata das neoplasias intra-articulares ou extra-articulares que invadem as articulações ainda permanece desconhecida, porém traumas, processos inflamatórios crônicos, exposição constante à radiação ionizante, uso de implantes ortopédicos para correção de fraturas, mutações genéticas e infartos ósseos são indicados como fatores de predisposição ao desenvolvimento dessas neoplasias.
■ Comportamento biológico As neoplasias intra-articulares malignas em cães e gatos apresentam comportamento localmente agressivo caracterizado por tumefação periarticular dos tecidos moles, lise e destruição óssea em um ou ambos os lados da articulação. Pode ocorrer invasão dos linfonodos satélites e das metástases a distância em parênquima pulmonar, fígado e baço.
Os sarcomas sinoviais podem iniciar seu desenvolvimento em áreas próximas às articulações, podem acometer tendões, região da bursa, bainhas tendíneas e ligamentos e, posteriormente, invadem as articulações, principalmente do joelho, tarso, carpiano, escapuloumeral e cotovelo.
Em Medicina com humanos, é descrita também a invasão de tendões, bainhas tendíneas, estruturas bursais, ligamentos e articulações. Sua maior incidência é em jovens na faixa etária de 15 a 35 anos e observa-se pequena predominância em pacientes do sexo masculino.
Já o comportamento das neoplasias extra-articulares de origem óssea que podem invadir as articulações depende muito da origem e da classificação. Por exemplo, neoplasias de origem central ou medular são mais agressivas que os tumores ósseos de origem periosteais. Entre essas neoplasias, o OSA é altamente invasivo e metastático, causando no local de desenvolvimento da lesão tumefação das estruturas adjacentes (músculo, tendões, subcutâneo e pele), além de lise óssea, fissuras e microfraturas, que podem ocasionar fraturas patológicas. Os principais locais de implantação das metástases são linfonodos regionais, parênquima pulmonar, fígado, baço e outros ossos. Em Medicina, esses tumores apresentam calcificação irregular em 15% dos pacientes e caráter recidivante, além da ocorrência de metástase em linfonodos regionais e a distância, principalmente em parênquima pulmonar. Quando os pacientes apresentam recidiva após a exérese cirúrgica, o prognóstico é pior.
As neoplasias de caráter benigno intra ou extra-articular apresentam desenvolvimento lento, porém infiltrativo, no entanto não têm caráter metastático regional ou a distância e se caracterizam principalmente pela recidiva local quando não é possível a ressecção da lesão com margens adequadas de segurança.
Sinais clínicos
Os sinais clínicos das neoplasias intra-articulares primárias ou extra-articulares que invadem a articulação são semelhantes. Os pacientes podem apresentar sinais clínicos agudos ou desenvolver sintomas no decorrer da evolução da doença neoplásica.
Cães com neoplasias articulares manifestam anorexia e caquexia, aumento de volume regional, claudicação aguda ou crônica e dor. Além disso, os pacientes posicionam o membro e o apoiam em forma de pinça, provavelmente em virtude do acometimento do ligamento cruzado cranial e das formações osteofíticas, levando a desconforto e a instabilidade do joelho.
Em pacientes humanos, dor, aumento de volume, tumefação, hipertermia local e dificuldade de ambulação são os principais sintomas clínicos relatados.
No caso de neoplasias metastáticas, esses pacientes podem apresentar aumento de volume dos linfonodos regionais, dificuldade respiratória, efusão pleural em casos de metástases pulmonares e aumento de volume abdominal por formação de ascite secundária às metástases em fígado ou baço.
Diagnóstico
O diagnóstico das neoplasias articulares geralmente segue os princípios preconizados nas neoplasias do esqueleto apendicular, com algumas peculiaridades. Como citado anteriormente, as neoplasias articulares são raras e comumente não constituem as primeiras posições nos diagnósticos diferenciais de claudicações. Esse fato torna o diagnóstico desafiador para o médico-veterinário.
A maioria das neoplasias articulares não é identificada nas fases iniciais e, tipicamente, os pacientes são previamente submetidos a terapias recorrentes com agente anti-inflamatório em razão dos sinais de claudicação. Muitas vezes, a claudicação recorrente acaba confundindo essa condição patológica com outras afecções ortopédicas, como a displasia coxofemoral, a ruptura do ligamento cruzado cranial e a displasia do cotovelo. Há relatos de cães com diagnóstico de ruptura crônica do ligamento cruzado cranial que, após a artrotomia e a coleta de material para exame histopatológico, foram diagnosticados com sarcoma de célula sinovial.
Geralmente, é observado aumento de volume periarticular. Essas massas apresentam crescimento lento na maioria dos casos, mas podem apresentar um crescimento mais acelerado com o desenvolvimento da neoplasia e o grau de malignidade. Comumente, são tumefações de tamanho variável e firmes à palpação, podendo apresentar áreas flutuantes e pouco dolorosas.
Na maioria dos casos, a análise de histórico, anamnese, achados do exame físico e ortopédico não é suficiente para presumir o diagnóstico. Mesmo o exame radiográfico, muito utilizado para direcionar o diagnóstico das neoplasias ósseas, não é considerado extremamente valioso nesses casos. Radiografias bem detalhadas da articulação acometida podem sugerir a presença de alterações articulares, as quais frequentemente são inespecíficas, podendo ser confundidas com fenômenos degenerativos decorrentes de osteoartrose. Contudo, algumas lesões são evidentes e podem, de fato, sugerir a presença de uma neoformação articular.
Diferentemente das neoplasias do esqueleto apendicular, os achados radiográficos das neoplasias articulares não são característicos, podendo ser encontrados diferentes padrões, como lesões de aspecto explosivo, líticas, proliferativas ou mistas. As neoformações que não invadem ou acometem as superfícies articulares ósseas podem ser muito discretas e inespecíficas ao exame radiográfico. É também comum o acometimento de ambos os lados das articulações envolvidas.
Outras modalidades de diagnóstico por imagem são fundamentais na determinação de uma neoplasia articular. A realização da tomografia computadorizada e/ou da ressonância magnética é muito útil no diagnóstico mais preciso da presença de possíveis neoformações articulares. As imagens adquiridas são mais específicas, com riqueza de detalhes, o que facilita sobremaneira a diferenciação das afecções articulares mais comuns. A tomografia computadorizada é utilizada rotineiramente para o diagnóstico da displasia do cotovelo em cães, enquanto a ressonância magnética pode ser muito valiosa na análise dos tecidos não ósseos da articulação. Essas modalidades de diagnóstico têm se tornado cada vez mais populares em Medicina Veterinária.
Mais recentemente, tem sido utilizada a artroscopia, que permite visualização direta do compartimento articular e, muitas vezes, a coleta de material para exame complementar.
Os exames de diagnóstico por imagem são úteis, mas frequentemente não é possível fechar o diagnóstico. Dessa forma, a coleta de fragmentos articulares ou da massa neoformada é imprescindível para a determinação do diagnóstico definitivo. Nos aumentos de volume evidentes, pode-se utilizar desde a citologia aspirativa com agulha fina até a coleta de fragmentos de biopsia e análise histopatológica posterior. Algumas neoplasias podem ser diagnosticadas por meio da análise citológica do líquido sinovial, entretanto as alterações sinoviais, frequentemente, não são específicas.
As biopsias articulares (tecido ósseo ou mole) não são procedimentos simples, pois envolvem, muitas vezes, uma artrotomia. Dessa forma, necessitam de sedação ou anestesia dos pacientes. Nas lesões nas quais se prevê a artrotomia exploratória, é obrigatória a realização do procedimento em ambiente cirúrgico, respeitando-se todos os princípios de antissepsia. Quando o tumor é evidente e acomete as porções mais externas à articulação, pode ser possível a realização de uma biopsia ambulatorial (mediante sedação) ou mesmo a citologia por agulha fina. A utilização de trépanos ósseos ou agulhas para biopsia facilita a coleta das amostras. Apesar de não ser amplamente utilizado na rotina veterinária de pequenos animais, o fluoroscópio pode ser útil na realização de procedimentos de coleta menos invasivos, especialmente em lesões menos visíveis e palpáveis.
É importante salientar que os resultados dos exames de citologia devem ser interpretados com prudência, uma vez que os sarcomas não se esfoliam facilmente. São relatados cerca de 70% de diagnósticos corretos em citologias por agulha fina, entretanto um resultado negativo não exclui a possibilidade de neoplasia.
Antes de iniciar o tratamento, é recomendada a pesquisa por metástases, visto que a maioria das neoplasias articulares é maligna. As metástases não são comuns nos sarcomas de células sinoviais, mas metástases para pulmões, linfonodos e fígado são relatadas nos sarcomas histiocíticos. A realização de exames radiográficos ou tomográficos da cavidade torácica é fundamental para a verificação de possíveis metástases pulmonares. Na ocasião do exame radiográfico, são recomendadas três posições (lateral esquerda e direita e ventrodorsal). A ultrassonografia abdominal é o exame de escolha para a pesquisa de metástases em órgãos abdominais. A seriação desses exames muitas vezes é necessária, pois micrometástases não visibilizadas podem apresentar crescimento no decorrer do tempo.
Após o tratamento, que na maioria dos casos é cirúrgico, a massa
neoplásica deve ser encaminhada para o exame histopatológico (Figura
46.1) e imuno-histoquímico, mesmo que se tenha realizado a biopsia incisional antes da ressecção cirúrgica. A imuno-histoquímica tem sido utilizada efetivamente como ferramenta de diferenciação das principais neoplasias articulares, especialmente entre os sarcomas sinoviais, histiocíticos e mixomas.
Alguns OSA de ossos longos podem estar localizados próximos às articulações, mas raramente acometem essas estruturas. De qualquer forma, devem ser considerados diagnóstico diferencial, pois podem causar reação do periósteo adjacente e extenso edema de tecidos moles. As artrites e artroses de qualquer natureza podem ser confundidas com neoplasias articulares, mas há diversas ferramentas diagnósticas para diferenciá-las. As fraturas articulares mal tratadas podem causar alterações crônicas que eventualmente poderão ser confundidas, mas o histórico do paciente poderá revelar a presença dessa lesão. Não são comuns as fraturas patológicas secundárias às neoplasias articulares, diferentemente ao que é observado em pacientes com neoplasias ósseas malignas, especialmente os OSA do fêmur em cães. Os cistos sinoviais apresentam-se como massas bem circunscritas aderidas à cápsula articular ou bainha tendínea e devem ser diferenciados das neoplasias articulares.
Figura 46.1 Sarcoma sinovial em articulação do cotovelo. Cão da raça Golden Retriever, fêmea, 6 anos. É possível notar a proliferação de células neoplásicas que têm forma discretamente alongada (componente fibroblástico) ou epitelioides (componente sinovioblástico). Elas proliferam-se formando lençol celular e algumas cavidades/fendas pelas células sinovioblásticas (coloração: hematoxilina e eosina de harris; aumento de 100 ×). Imagem cedida por Juliana Werner.
Estadiamento
Não são relatadas formas de estadiamento específicas para as neoplasias articulares, entretanto algumas adaptações podem ser feitas baseadas no estadiamento das neoplasias ósseas em cães e gatos.
Tratamento
O tratamento das neoplasias articulares não é bem estudado e descrito, entretanto, por serem condições geralmente malignas, a cirurgia radical é a forma mais utilizada na atualidade.
Com o avanço das modalidades de diagnóstico por imagem e das cirurgias preservadoras e reconstrutivas, espera-se que os tumores articulares possam ser tratados de forma diferente. Na Medicina Humana, utilizam-se os exames de tomografia computadorizada e ressonância magnética para determinar a real extensão das neoplasias articulares, tanto para os tecidos moles como para as estruturas ósseas. Associados aos avanços nas terapias neoadjuvantes e adjuvantes, consegue-se ter sucesso na preservação da função do membro nesses pacientes. É utilizada uma ampla gama de sistemas protéticos para auxiliar a reconstrução da função articular associados a conhecimentos de microcirurgia para as reconstruções de tecidos moles, incluindo vasos sanguíneos, tendões e estruturas nervosas.
Em Medicina Veterinária, muitos fatores ainda limitam a utilização desses princípios. A excisão está relacionada com altas taxas de recidiva. A amputação alta é o procedimento cirúrgico mais comumente realizado no tratamento das neoplasias articulares, especialmente em razão do baixo custo, da simplicidade da técnica e da reduzida taxa de complicações. Geralmente, os pacientes toleram muito bem a amputação, com exceção daqueles portadores de outras afecções ortopédicas ou neurológicas que não permitam a deambulação em três membros. É importante salientar que a qualidade de vida é ótima em pacientes amputados, assim como é observado em cães e gatos tratados para neoplasias ósseas malignas.
A cirurgia radical objetiva a obtenção de ampla margem de segurança, e as técnicas cirúrgicas e os princípios utilizados seguem as exigências das amputações das neoplasias ósseas malignas.
Naqueles pacientes nos quais a metástase encontra-se presente, a cirurgia deve ser avaliada cuidadosamente. Os reais benefícios da amputação e outras formas de tratamento adjuvante devem ser estudados. Na maioria dos casos, o tempo de sobrevida não é alterado após a realização da cirurgia. Até o presente momento, não são relatados tratamentos efetivos para os focos metastáticos nos casos de neoplasias articulares.
■ Quimioterápico antineoplásico O emprego da quimioterapia antineoplásica no tratamento das neoplasias intra-articulares ou extra-articulares que invadem as articulações tem como objetivo aumentar a sobrevida dos pacientes, atuando principalmente no combate das lesões metastáticas. Porém, a utilização da quimioterapia como única forma de tratamento na maioria das vezes não proporciona bons resultados. Dessa forma, os melhores resultados são obtidos com a associação da quimioterapia com a cirurgia ou da quimioterapia com a radioterapia.
Os principais fármacos quimioterápicos utilizados no tratamento de neoplasias intra-articulares e extra-articulares que invadem articulação dos cães e gatos são cisplatina, carboplatina, doxorrubicina, mitoxantrona, actinomicina-D e ciclofosfamida, além dos inibidores de ciclo-oxigenase-2. Esses fármacos podem ser usados de forma isolada (monoquimioterapia) ou associados (poliquimioterapia), em geral, os melhores resultados são vistos com o emprego da poliquimioterapia. É importante lembrar que a cisplatina não deve ser utilizada em gatos em razão da sua alta toxicidade observada em pacientes desta espécie.
Craig et al.1 utilizaram apenas a quimioterapia antineoplásica (doxorrubicina) associada ao piroxicam no tratamento de 3 cães, de um total de 39, com sarcoma sinovial. Os pacientes eram das raças Dobermann Pinscher, Rottweiler e outro era sem raça definida (SRD). Os cães apresentaram sobrevida, respectivamente, de 8, 3 e 7 meses. Nesse mesmo estudo, foi tratado um quarto cão, SRD, com quimioterapia (doxorrubicina e ciclofosfamida) associada à amputação. Nesse caso, o paciente apresentou sobrevida muito superior (5 anos) aos cães tratados somente com a quimioterapia antineoplásica.
Em humanos com neoplasias intra-articulares, os principais fármacos empregados no tratamento são ifosfamida, ciclofosfamida, dacarbazina,
doxorrubicina e cisplatina. Beck et al.2 relataram um caso de sarcoma sinovial bifásico em tíbia proximal com invasão de tecidos moles em paciente humano que, após a amputação, foi utilizado como protocolo quimioterápico adjuvante a doxorrubicina, ifosfamida e dacarbazina. Até a data de publicação deste trabalho, o paciente apresentava 8 meses de sobrevida e ainda continuava em tratamento quimioterápico.
Em um estudo realizado por Eilber et al.3, foi observado um maior tempo de sobrevida nos pacientes com sarcoma sinovial que receberam a quimioterapia adjuvante comparado aos que não receberam. Em trabalho de
Lewis et al.4, 42 pacientes receberam quimioterapia adjuvante; desses, 25 pacientes foram tratados apenas com um único agente (doxorrubicina) e 17 com poliquimioterapia (doxorrubicina, dacarbazina, ciclofosfamida, ifosfamida). Porém, nesse estudo, os pacientes que receberam quimioterapia adjuvante apresentaram taxas de metástases e mortalidade relacionadas com o tumor semelhantes às dos pacientes que não receberam a quimioterapia. Embora os sarcomas sinoviais apresentem sensibilidade à quimioterapia antineoplásica, alguns estudos não têm demonstrado de forma importante um benefício de sobrevivência.
Kampe et al.5, por sua vez, realizaram um estudo que examinou a eficácia da quimioterapia adjuvante. Como resultado, 93% dos pacientes estavam livres da doença em um seguimento médio de 37 meses. Esses dados promissores devem ser vistos como um alerta principalmente em relação ao diagnóstico precoce, pois mais de um terço dos pacientes apresentava tumores pequenos (< 5 cm), fato que se relaciona com um melhor prognóstico.
Da mesma forma, dois estudos alemães – um conduzido por Schmidt et
al.6 e outro por Pappo et al.7 –, que utilizaram poliquimioterapia para crianças e adolescentes com sarcoma sinovial, sugerem uma melhora na sobrevida em comparação com uma série histórica de pacientes submetidos à amputação cirúrgica somente. Porém, esses resultados são difíceis de serem avaliados, pois não foram estudos randomizados e a eficácia da quimioterapia não foi estratificada de acordo com o tamanho do tumor. Além disso, os pacientes com recidiva ou doença metastática na apresentação foram incluídos nesses ensaios. Em um estudo retrospectivo
realizado por Singer et al.8 com pacientes apresentando sarcoma sinovial, o emprego da quimioterapia não se traduziu em uma maior sobrevida dos pacientes, quando comparados aos pacientes submetidos somente à cirurgia.
Mesmo com resultados controversos, a opinião dos autores deste capítulo é que a quimioterapia antineoplásica sempre deve ser instituída após a exérese do tumor, na tentativa de minimizar a ocorrência de lesões metastáticas. Além disso, novos protocolos quimioterápicos devem ser estudados para que no futuro o prognóstico dos pacientes submetidos à quimioterapia adjuvante seja melhor que nos dias atuais.
■ Radioterapia
A radioterapia é uma ótima modalidade para o tratamento de neoplasias localizadas, sendo utilizada como terapia única ou associada à quimioterapia antineoplásica ou à cirurgia. Assim como a quimioterapia, a radiação não é capaz de diferenciar células normais ou neoplásicas, danificando quaisquer células em proliferação. Em razão dessa ação, é observada a ocorrência de efeitos colaterais após a radiação das neoplasias.
A radioterapia na maioria das vezes é utilizada no tratamento de tumores localizados de origem sarcomatosa ou carcinomatosa que não respondem bem ao tratamento quimioterápico ou quando a exérese cirúrgica é complicada. Em casos de neoplasias intra-articulares, principalmente no tratamento dos sarcomas sinoviais, existe a indicação de controle local da neoplasia e não de cura, em virtude da incidência de metástases a distância. Além disso, assim como nas neoplasias ósseas, a utilização da radioterapia tem ação também no controle da dor.
Em Medicina Humana, a utilização do tratamento radioterápico em sarcomas sinoviais é comum nos casos em que não é realizada a amputação do membro, e sim somente a exérese da lesão. Em razão da dificuldade de se obter margens limpas, a radioterapia é empregada para minimizar a
ocorrência de recidiva local. Lewis et al.4 observaram recorrência local de apenas 10% em sua série de 112 pacientes com sarcoma sinovial localizados em extremidade. A maioria dos pacientes (n = 87; 78%) foi submetida à ressecção da lesão, e não do membro. As margens cirúrgicas foram microscopicamente positivas em 15 casos. Além disso, 52 pacientes receberam radioterapia adjuvante. A braquiterapia foi administrada a 32 pacientes; já a irradiação de feixe externo foi utilizada para o tratamento de 14 casos; e a irradiação do feixe de externo combinado e a braquiterapia foram administradas a 6 pacientes. Aproximadamente metade dos pacientes neste estudo também foi submetida à radioterapia adjuvante. Os autores, assim, atribuíram essa menor taxa de recorrência à melhoria das técnicas cirúrgicas, assim como ao uso de radioterapia adjuvante.
Prognóstico
O prognóstico para as neoplasias intra-articulares ou extra-articulares que invadem a articulação é reservado em virtude da grande incidência de metástases a distância. Em pacientes humanos, os tumores com tamanhos acima de 5 cm apresentam maiores chances de desenvolver a metástase a distância quando comparados às lesões menores de 3 cm, portanto o tamanho dos tumores é um importante fator prognóstico.
Outro fator prognóstico relevante é a invasão metastática de linfonodos regionais no momento do diagnóstico. Esses pacientes apresentam uma sobrevida inferior à dos pacientes sem a presença de invasão metastática nesses sítios.
Em estudo realizado por Pappo et al.7 com crianças apresentando sarcoma sinovial, tanto localizado como metastático no momento do diagnóstico, foi observada a importância do grau de invasão do tumor nas estruturas como nervos, vasos e ossos, pois, quanto maior era o grau de invasão, pior o prognóstico desses pacientes.
Dessa forma, até o momento sabe-se que o prognóstico das neoplasias articulares está relacionado com o tamanho da lesão, o grau de invasão tumoral e a presença de metástases.
Perspectivas futuras
Por intermédio da realização de um maior número de estudos visando à elaboração de novos protocolos de tratamento em relação às neoplasias articulares, no futuro o prognóstico dos pacientes com essa afecção provavelmente será melhor que nos dias atuais. Além disso, será possível minimizar a ocorrência dos efeitos colaterais dos tratamentos existentes atualmente.
É importante que ocorra uma melhor conscientização dos proprietários de cães e gatos em relação ao diagnóstico precoce das mais variadas neoplasias, entre elas as articulares, pois, como já foi demonstrada em estudo com pacientes humanos, a precocidade de diagnóstico está relacionada com a obtenção de melhores resultados no tratamento dessas neoplasias.
No futuro, o uso de próteses articulares em cães e gatos em um maior número de casos contribuirá para reduzir as cirurgias de amputações em situações de neoplasias articulares, permitindo o controle local da lesão e contribuindo para uma boa recuperação pós-operatória.
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