Oncologia em Cães e Gatos
54 Timoma
Incidência e etiologia
O timoma é uma neoplasia que se localiza no mediastino anterior, em geral benigno e a ocorrência de metástase é rara. Uma vez que o timo apresenta elementos linfoides e epiteliais, é possível que qualquer um desses
elementos, ou ambos, sirva como células de origem para neoplasias.1
Os timomas são raros em cães e muito menos comuns em gatos e em geral ocorrem em animais mais velhos. A média de idade dos cães com timoma é de 11 anos, ao passo que em gatos é de 9,5 anos. Embora não exista predisposição racial relatada nessas espécies, cães de raças grandes, particularmente Pastor-alemão, Golden Retriever e Labrador Retriever, são mais comumente afetados do que os cães pequenos. Embora a
predisposição sexual não tenha sido identificada2, maior prevalência dessa
neoplasia é observada em fêmeas de cães (65%).3
Comportamento natural
Os timomas se originam do epitélio tímico e podem ser infiltrados por
linfócitos maduros.4 As massas neoplásicas localizadas no mediastino são, na maioria das vezes, encapsuladas, nodulares e frequentemente císticas, podendo apresentar áreas necróticas. Já a consistência varia de macia a firme e a coloração é branco-acinzentada, que, ao corte, podem apresentar áreas de coloração vermelho-enegrecida, caracterizando focos hemorrágicos
e necróticos.1
A classificação da neoplasia em benigna ou maligna é alicerçada na capacidade de invasão do tumor e na possibilidade de remoção cirúrgica. Os timomas benignos são bem encapsulados e não invasivos, ao passo que os malignos invadem as estruturas adjacentes, como veia cava cranial, traqueia, esôfago e pericárdio, dificultando ou impedindo a remoção cirúrgica. As metástases são incomuns, mas podem ocorrer em pulmões, fígado e ossos. Aparentemente, não existe correlação entre a avaliação histopatológica e o prognóstico.
Sinais clínicos
Os sinais clínicos de pacientes com timoma geralmente estão relacionados com o deslocamento dos órgãos da cavidade torácica em virtude da presença de massas mediastinais e incluem letargia, tosse, taquipneia e
dispneia. Além desses, podem aparecer sinais menos frequentes4, como disfagia, regurgitação, hiporexia, perda de peso, intolerância ao exercício e,
em alguns casos, salivação excessiva.3 Os pacientes com timomas não invasivos podem não exibir quaisquer sinais clínicos ou, ainda, podem
manifestar sinais inespecíficos.5
Alguns pacientes apresentam síndrome de Horner, em virtude do envolvimento do tronco vagossimpático. Síndrome da obstrução da veia cava cranial pode ocorrer em razão da obstrução do retorno venoso e linfático de cabeça, pescoço e membros torácicos, resultando em edema nesses locais.
A prevalência de efusões pleurais em cães e gatos com timomas ou linfomas parece ser similar. Portanto, esse achado não pode ser usado para ajudar no diagnóstico diferencial dessas duas neoplasias.
As síndromes paraneoplásicas associadas a timomas em cães e gatos são miastenia gravis (MG), polimiosite, dermatite esfoliativa (apenas em gatos),
hipercalcemia e bloqueio atrioventricular.6 Foi relatado também eritema multiforme em cão associado à timoma, possivelmente por hipersensibilidade de células específicas do paciente contra antígenos associados aos ceratinócitos, os quais são alterados. Esses ceratinócitos unem-se às células T linfocíticas provocando apoptose. Porém, os sinais do
eritema multiforme sumiram após remoção do timoma.7
■ Miastenia gravis associada a timoma A presença de MG é documentada em mais de 40% dos casos de timoma
em cães, mas sua ocorrência é rara em gatos.8 Essa alteração se caracteriza por fraqueza muscular e megaesôfago. A MG adquirida é uma doença imunomediada, na qual há produção de anticorpos contra receptores nicotínicos de acetilcolina nas junções neuromusculares (mas comumente imunoglobulina G). Isso resulta em menor quantidade desses receptores na superfície do sarcolema pós-sináptico, ocasionando prejuízo na junção neuromuscular representada por sinal clínico de fraqueza musculoesquelética. A MG adquirida caracteriza-se por três apresentações clínicas: MG focal com sinais clínicos de laringe, faringe, esôfago ou disfunção dos músculos faciais; MG generalizada apresentando debilidade muscular nos membros anteriores e posteriores com ou sem MG focal; e MG fulminante aguda caracterizada pelo início rápido e grave da debilidade que pode progredir em insuficiência respiratória grave por debilidade muscular intercostal e diafragmática. A MG aguda pode desenvolver-se em
gatos no período pós-cirúrgico após timectomia.9
A fim de se diagnosticar a MG, o sinal mais específico é a presença no soro sanguíneo de anticorpos contra o receptor de acetilcolina (AChRAb). O título de AChRAb acima de 0,3 nmol/ℓ é diagnóstico para MG, embora gatos com título abaixo de 10 nmol/ ℓ podem não demonstrar fraqueza
muscular no momento do diagnóstico.10
O timoma é a causa mais comum para a manifestação de MG, embora outras neoplasias possam ser relatadas por induzi-la, como osteossarcoma,
adenocarcinoma, linfoma e carcinoma do ducto biliar.11
Em relação ao tratamento para a MG, usam-se medicamentos que possam diminuir a ação da colinesterase, os fármacos anticolinesterásicos. A diminuição da degradação da acetilcolina faz com que esta atue por mais tempo, facilitando a transmissão neuromuscular. Apesar de não modificar o número de receptores, melhora sua eficiência. O tratamento com os anticolinesterásicos, como a piridostigmina, é benéfico, mas em muitos casos não é suficiente.
A timectomia, muitas vezes, é outro tratamento indicado. Inúmeros pacientes podem apresentar remissão ou melhoras significativas dos sinais clínicos da miastenia com a timectomia. O tratamento da MG orientado à recessão do tumor produz rápida melhoria e diminuição dos anticorpos receptores da acetilcolina. Como coadjuvante, pode-se utilizar prednisona
(2 mg/kg/dia VO).11
O uso de imunossupressores como a ciclosporina é eficaz, produzindo a remissão dos sintomas, pois diminui a produção de anticorpos contra os receptores de acetilcolina. No entanto, seu uso costuma ser prolongado e sujeito a efeitos colaterais indesejáveis.
Diagnóstico
Ao exame físico, o paciente pode apresentar edema de face, pescoço e membros torácicos em virtude da obstrução da veia cava cranial. A auscultação torácica pode revelar redução dos sons pulmonares – principalmente no mediastino cranial, em virtude da presença do tumor – ou redução dos sons nos campos pulmonares ventrais em decorrência da efusão pleural. Os sons cardíacos podem ser ouvidos na porção dorsal e caudal do tórax em razão do deslocamento cardíaco provocado pelo tumor.
O diagnóstico do timoma, portanto, deverá se basear na identificação e nas características determinantes de acordo com as condutas diagnósticas
sugeridas na Tabela 54.1.
A avaliação laboratorial não é útil para ser correlacionada com o diagnóstico dos timomas. No entanto, quando há megaesôfago e pneumonia aspirativa, espera-se que existam alterações no leucograma com a presença de leucocitose. Embora o aumento de linfócitos periféricos não seja um achado comum em pacientes caninos com timoma, deve-se considerá-lo diferencial. Em pacientes humanos com timoma maligno, a linfocitose periférica coincide com níveis elevados de hormônios, como a α1
timosina.12
Tabela 54.1 Testes diagnósticos e principais características clínicas de paciente com
timoma.
Testes diagnósticos Principais características
Exames complementares
Hemograma Sem alterações signi cativas
Bioquímico Cão: Hiperglobulinemia e hipercalcemia
Gato: Hiperglicemia e moderada elevação
plasmática da atividade aspartato
transaminase e hipercolesterolemia
Citologia ou biopsia da massa mediastínica a Quantidade variável de linfócitos maduros
partir de aspiração por agulha na
Títulos do anticorpo contra receptores da Identi car síndrome paraneoplásica
acetilcolina (miastenia gravis) na presença de fraqueza
generalizada, di culdade de deglutição,
megaesôfago e pneumonia por aspiração
Teste para vírus da leucemia felina e vírus da A maioria dos gatos com linfoma mediastinal
imunode ciência nos gatos é virêmica, o que não ocorre com os gatos
com timoma
Diagnóstico por imagem
Radiogra a torácica (três projeções) Neoplasia localizada no mediastino cranial,
efusão pleural e deslocamento caudal e dorsal
da silhueta cardíaca
Ultrassonogra a Ecogenicidade mista
Tomogra a computadorizada Determinar o grau de invasão e arquitetura
neoplásica
Ressonância magnética Determinar o grau de invasão e arquitetura
neoplásica
Exames especí cos
Histopatologia Aspectos morfológicos neoplásicos
Imuno-histoquímica Utilizada para determinar origem
linfoepitelial, marcando células epiteliais
neoplásicas e linfócitos não neoplásicos
Citometria de uxo Indicado quando há presença de doença
concomitante, neoplasia secundária
As alterações bioquímicas mais comuns associadas à timoma em cães são hiperglobulinemia e hipercalcemia. Já em gatos, ocorrem hiperglicemia, moderada elevação plasmática da atividade da aspartato transaminase e hipercolesterolemia. Em geral, gatos com timoma são idosos e negativos para leucemia viral felina.
As radiografias torácicas geralmente revelam a neoplasia localizada no mediastino cranial, efusão pleural e deslocamento caudal e dorsal da
silhueta cardíaca (Figuras 54.1 e 54.2). A dilatação do esôfago pode ser vista em casos de MG. O exame radiográfico do tórax pouco ajuda na diferenciação entre timomas e linfomas, pois as duas neoplasias são similares na aparência radiográfica – embora os linfomas pareçam se originar com mais frequência no mediastino dorsal, ao passo que os timomas se originam mais frequentemente no mediastino ventral. Na avaliação por eletrocardiografia, os cães podem apresentar bloqueio atrioventricular de terceiro grau. Pela avaliação ultrassonográfica, a maioria dos timomas apresenta ecogenicidade mista e, nos linfomas, é mais comum a presença de massas hipoecogênicas homogêneas.
A tomografia computadorizada em 3D, utilizando contraste, proporciona maior informação das massas mediastínicas, identifica claramente forma e tamanho do tumor, além da ubiquação exata do vaso que nutre o tumor. Essas informações diagnósticas ajudam o cirurgião a determinar a possibilidade de recessão do tumor e tipo de abordagem (esternotomia ou
abordagem intercostal direito ou esquerdo).13
O diagnóstico citológico de lesões mediastinais é normalmente obtido por meio da aspiração com agulha fina percutânea. Esse procedimento pode ser guiado por exame radiográfico (usando três vistas para estabelecer uma localização tridimensional), fluoroscopia ou ultrassonografia. A correlação dos diagnósticos citológicos e histológicos de massas no mediastino demonstrou que o exame citológico em caninos e felinos corroborou com o diagnóstico histológico final, considerando que o exame citológico é um processo relativamente fácil, de baixo custo e adequado para esses tipos de
lesões.14 Como regra geral, a aspiração com agulha fina não deve ser feita em gatos e cães com coagulopatias.
Embora os timomas se originem no epitélio tímico, podem conter um número significativo de linfócitos maduros. A diferenciação entre linfoma e timoma, portanto, com base na punção aspirativa com agulha de uma massa mediastínica pode ser um problema, em especial nos gatos. Então, nesses casos, a anamnese pode ser útil. Para diferenciá-los, é bom ter em mente que o timoma acomete gatos com média de idade entre 9 e 10 anos, ao passo que a média de idade de gatos com linfoma é de 2 a 4 anos e a maioria deles é positiva para a leucemia viral felina. No entanto, esses animais podem apresentam essas doenças em idades diferentes das citadas.
Caso o material obtido por exame citológico não seja adequado para caracterizar o processo neoplásico, deve-se considerar a possibilidade de uma biopsia incisional. Aparentemente, não existe correlação entre as imagens de tomografia computadorizada dos tumores de mediastino e o diagnóstico histológico, mas esse exame é importante para definir o tamanho e a extensão do tumor.
A biopsia excisional é definitiva, e em amostras que apresentam uma proporção muito elevada de linfócitos, a imuno-histoquímica para filamentos intermediários de citoqueratina discriminará aglomerados celulares epiteliais malignos raros que seriam perdidos em citologia ou
coloração histopatológica de rotina.15
Figura 54.1 Radiografia lateral de fêmea Rottweiler, 11 anos, com timoma (seta) ocupando o mediastino cranial.
Figura 54.2 Radiografia lateral após timectomia.
A citometria de fluxo dos tumores tímicos ajuda a diferenciar os casos de timoma dos de linfoma. A citometria de fluxo é uma ferramenta bastante útil para diferenciar as duas causas mais comuns de massas mediastinais: timoma e linfoma. Baseia-se no fato de que os linfócitos tímicos podem se diferenciar a partir de linfócitos periféricos pela expressão simultânea de CD4 e CD8. A confirmação do diagnóstico é determinada com citologia ou histologia para linfoma e histologia para timoma. Diagnosticaram-se 6/6 casos para timoma e 7/7 casos para linfoma. Portanto, a avaliação de aspirados com agulha fina de massas mediastinais por citometria de fluxo pode ser uma ferramenta muito valiosa frente a procedimentos diagnósticos
invasivos.16
■ Diagnóstico diferencial
Os diagnósticos diferenciais para massas no mediastino cranial incluem tanto doença neoplásica quanto não neoplásica (abscessos, cistos tímicos branquiais, hiperplasia tímica, granuloma). O diagnóstico diferencial mais importante em cães e gatos com timoma é o linfoma mediastínico, porque o
tratamento do linfoma não envolve cirurgia.2,8 As principais neoplasias que fazem parte do diagnóstico diferencial são linfomas, quemodectomas, carcinomas ectópicos de tireoide e metástases de outras neoplasias. Na avaliação por eletrocardiografia, os cães podem apresentar bloqueio
atrioventricular de terceiro grau.3 O carcinoma tímico ectópico é um tumor com baixa frequência que provavelmente surge a partir de tecido tímico
encarcerado durante a migração do timo para o mediastino anterior.17
Estadiamento
Diferentes sistemas de estadiamento para o timoma foram desenvolvidos. No entanto, a classificação clínica, patológica e cirúrgica ainda é controversa pela heterogeneidade e variabilidade histomorfológica das
células do timoma. O estadiamento proposto por Masaoka et al.18 é largamente utilizado na prática clínica e tem sido referência, pois considera a presença de invasão e extensão anatômica do timoma tanto clínica como histopatológica.
No estadiamento estabelecido por Aronsohn19, o timoma pode ser completamente contido dentro da cápsula do timo ou pode se espalhar por invasão ou metástase local. Síndromes paraneoplásicas são efeitos distantes de um tumor. Além disso, aproximadamente 50% dos timomas em cães são
associados à MG (Tabela 54.2).
Novos sistemas de classificação são divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), porém ainda não há estudos que mostram que essa nova classificação seja superior na avaliação do prognóstico, embora estudos preliminares revelem uma boa correlação com a escolha do
tratamento.21-23
Tabela 54.2 Critérios de estadiamento do timoma.
Estádio Critério diagnóstico
Estadiamento segundo Masaoka (1981) apud Fossum2
I Tumor bem encapsulado macroscopicamente
Sem invasão capsular microscópica
II IIa – Invasão microscópica à cápsula;
IIb – invasão macroscópica da cápsula até a gordura circundante ou pleura mediastinal
III Invasão macroscópica das estruturas vizinhas (pericárdio, grandes
vasos, pulmões)
IV IVa – Disseminação pericárdica ou pleural
IVb – Metástases linfáticas e hematogênicas
Estadiamento segundo Aronsohn (1985) apud Tomaszek et al.20
I Desenvolvimento completo capsular
II Crescimento pericapsular interno ao tecido mediastínico e
gordura, adjacente à pleura e/ou ao pericárdio
III Invasão em órgãos circundantes e/ou metástase intratorácica
IV Metástase extratorácica
Síndromes paraneoplásicas
P0 Sem evidência de síndrome paraneoplásica
P1 Miastenia gravis
P2 Tumor maligno atímico
Tratamento
Animais com timoma podem ser tratados com cirurgia, radioterapia, quimioterapia, ou com a associação dessas técnicas.
A cirurgia é o tratamento de escolha para os timomas não invasivos. Porém, em virtude da alta capacidade de invasão, essa neoplasia em cães é difícil de ser removida. Em gatos, o procedimento cirúrgico geralmente é mais fácil do que nos cães, pois os tumores são menos invasivos. Nos casos em que exista invasão das estruturas adjacentes, pode-se empregar a cirurgia como terapia citorredutora acompanhada de quimioterapia adjuvante. Tumores pequenos são acessados por toracotomia intercostal. A esternotomia é indicada para a remoção de grandes tumores, pois permite melhor visualização das estruturas circundantes, como a veia cava cranial. Os timomas frequentemente são friáveis e, ocasionalmente, císticos, devendo ser manipulados com cuidado para prevenir a deposição de células
tumorais na cavidade torácica.2
Tratamento cirúrgico de 20 gatos diagnosticados com timoma, sem receber rádio ou quimioterapia, resultou em dois gatos submetidos à eutanásia durante o pós-operatório imediato. Seis cães sobreviveram durante um período de 6 a 36 meses. Três gatos foram submetidos à
eutanásia após 18, 32 e 45 meses com problemas não relacionados.24
Cirurgia como único tratamento em 9 gatos e 11 cães com timoma resultou em somente 1 cão com timoma não invasivo que apresentou reincidência e 2 gatos diagnosticados como timomas invasivos que também tiveram reincidência. A média do tempo de sobrevida foi de 3 anos e após excisão e somente 2 animais (1 cão e 1 gato) apresentaram síndromes
paraneoplásicas.25
A utilização de técnicas cirúrgicas não invasivas por videotoracoscopia para resseção de timomas sugere alguns cuidados: ressecar massas de tamanho modesto, conservando assim vasos, nervos e outras estruturas
vitais, e ter conhecimentos e equipamentos especializados.26
Em cães, a quimioterapia e a radioterapia não são eficazes no tratamento dos timomas. A quimioterapia pode ser usada especialmente em animais com megaesôfago, pois são pacientes que apresentam grande mortalidade pós-operatória. Em geral, a quimioterapia promove a regressão da população de células linfoides e, dessa maneira, é raro alcançar remissões completas ou de longa duração. Algumas associações quimioterápicas utilizadas no tratamento dos linfomas também são usadas no tratamento dos
timomas (Tabela 54.3).
Muitos linfomas tímicos respondem de modo rápido à quimioterapia. Os timomas devem ser suspeitados em pacientes com remissão parcial ou doença estável 10 ou 14 dias após o início da quimioterapia para o tratamento dos linfomas.
A radioterapia raramente é empregada em animais com timoma. Semelhantemente ao que ocorre com a quimioterapia, a radioterapia promove regressão dos timomas, embora a remissão completa e de longa duração raramente seja alcançada. Isso acontece provavelmente porque a radioterapia elimina apenas o componente linfoide da neoplasia, mas o componente epitelial permanece intacto. Além disso, o tratamento radioterápico pode provocar pericardite, derrame pericárdico, miocardite, fibrose pulmonar e do miocárdio, além de alterações na medula espinal.
Tabela 54.3 Protocolos quimioterápicos utilizados no tratamento de linfoma adaptado
para timoma.
Indução da remissão
Protocolo COAP+ Ciclofosfamida: 50 mg/m², VO, a cada 48 h em
cães ou 200 a 300 mg/m², VO, a cada 3
semanas em gatos
Vincristina: 0,5 mg/m², IV, semanalmente
Citosina arabinosida: 100 mg/m² diariamente
por infusão, IV ou SC, por somente 2 dias em
gatos e 4 dias em cães
Prednisona: 50 mg/m², VO, a cada 24 h por 1
semana e depois 20 mg/m², VO, a cada 48 h
Ciclofosfamida: 50 mg/m², VO, a cada 48 h em
cães ou 200 a 300 mg/m², VO, a cada 3
semanas em gatos
Protocolo COP Vincristina: 0,5 mg/m², IV, 1 vez por semana
Prednisona: 40 a 50 mg/m2, VO, a cada 48 h por 1 semana e depois 20 a 25 mg/m², VO, a
cada 48 h
Intensi cação
Caninos L-asparaginase: 10.000 a 20.000 UI/m², IM (1
a 2 doses) ou
Vincristina: 0,5 a 0,75 mg/m², IV, a cada 1 a 2
semanas
Doxorrubicina (adriamicina): 1 mg/m², IV, a
cada 3 semanas ou
Felinos
Mitoxantrona: 4 a 6 mg/m², IV, a cada 3
semanas
Manutenção
Protocolo LMP Clorambucila: 20 mg/m², VO, a cada 2
semanas
Metotrexato: 2,5 mg/m², VO, 2 ou 3 vezes por
semana
Prednisona: 20 mg/m², VO, a cada 48 h
Administrar como descrito anteriormente em
semanas alternadas por 6 tratamentos,
depois a cada 3 semanas por 6 tratamentos
Protocolo COAP adicionais, depois tentar manter o animal em
tratamento a cada 4 semanas. A terapia de
manutenção é continuada até ocorrer a
recidiva do tumor.
Terapia de resgate para caninos
Dexametasona: 0,23 mg/kg, VO ou SC, nos
dias 1 e 8
Actinomicina D: 0,75 mg/m2, IV, em bolus no
Protocolo D-MAC dia 1
(ciclo de 14 dias)
Citosina arabinosida: 200 a 300 mg/m² por
infusão, IV, por mais de 4 a 6 h no dia 1
Melfalano: 20 mg/m2, VO, no dia 8
Protocolo AC Doxorrubicina: 30 mg/m2 (ou 1 mg/m², IV, em
(ciclo de 21 dias) cães abaixo de 10 kg) no dia 1
Ciclofosfamida: 100 a 150 mg/m², VO, nos
dias 15 ou 16
Ciclofosfamida: 200 a 300 mg/m², VO, no dia
10
Protocolo CHOP Doxorrubicina (adriamicina): 30 mg/m2 (ou 1
(ciclo de 21 dias) mg/m², IV, cães abaixo de 10 kg) no dia 1
Vincristina: 0,75 mg/m², IV, nos dias 8 e 15
Prednisona: 20 a 25 mg/m², VO, a cada 48 h
Terapia de resgate para felinos
Doxorrubicina (adriamicina): 1 mg/m², IV, no
dia 1
Ciclofosfamida: 200 a 300 mg/m², VO, no dia
Protocolo AC
10 ou 11
(ciclo de 21 dias)
Dexametasona: 4 mg/gato a cada 1 a 2
semanas podem ser adicionados a este
protocolo
Protocolo MiC Mitoxantrona: 4 a 6 mg/m² por infusão IV por
(ciclo de 21 dias) mais de 4 a 6 h no dia 1
Ciclofosfamida: 200 a 300 mg/m² VO no dia
10 ou 11
Dexametasona: 4 mg/gato a cada 1 a 2
semanas podem ser adicionados a este
protocolo
Protocolo MiCA Mitoxantrona: 4 a 6 mg/m² por infusão IV por
(ciclo de 21 dias) mais de 4 a 6 h no dia 1
Ciclofosfamida: 200 a 300 mg/m² VO no dia
10 ou 11
Citosina arabinosídeo: 200 mg/m² por infusão
IV por mais de 4 a 6 h (misturada no mesmo
recipiente com mitoxantrona) no dia 1
Pode ser adicionada dexametasona a este
protocolo: 4 mg/gato a cada 1 a 2 semanas
Protocolos acessíveis
Prednisona: 50 mg/m², VO, a cada 24 h por 1 semana, em seguida 25 mg/m², VO, a cada 48 h
Clorambucila: 20 mg/m², VO, a cada 2 semanas
Lomustina: 60 a 90 mg/m², VO, a cada 3 semanas em cães, 10 mg (dose total) a cada 3 semanas
em gatos
Prednisona e clorambucila: mesmas doses anteriores
Prednisona e lomustina: mesmas doses anteriores
Adaptada de Couto et al., 2006.27
Smith et al. realizaram estudo retrospectivo (1985-1999) sobre tratamento radioterápico de timona em 17 cães e 7 gatos. Observaram-se resposta geral em 75% (15/20 casos avaliáveis) e parcial em mais de 50% na redução do tumor. A média de sobrevida foi de 248 dias em cães e 720
dias em gatos.28
A indução de granulocitopenia imunomediada após radioterapia em gata castrada com diagnóstico de timoma por meio de biopsia da massa no mediastino cranial levou à imunoterapia supressiva com ciclosporina. A timectomia foi realizada e o pós-operatório prosseguiu o tratamento
clínico.29
A resseção cirúrgica completa é considerada o melhor método de predição para sobrevivência a longo prazo para os seres humanos com timoma. Radioterapia é indicada mais comumente por doença extensa ou recorrente. Uma variedade de medicamentos antineoplásicos tem sido utilizada para tratar timomas inoperáveis ou em casos em que a doença residual está presente após a cirurgia. Cisplatina, ifosfamida e prednisona são considerados os mais eficazes agentes. Além disso, a quimioterapia neoadjuvante demonstrou influência para sobrevivência a longo prazo para
timomas de Masaoka estádios III e IV.4
A MG pode melhorar ou não após a remoção cirúrgica do tumor. Em alguns casos, a melhora pode ocorrer após vários meses. O aparecimento de MG foi relatado em gatos 1 ou 2 semanas depois da ressecção cirúrgica do timoma, cujas razões ainda não estão bem definidas, mas o mesmo fenômeno é observado em seres humanos. É prudente evitar a remoção de timomas em cães com MG ou, pelo menos, protelar a cirurgia até que os sintomas sejam controlados com a terapia medicamentosa.
Prognóstico
O prognóstico depende da capacidade de invasão do tumor, de seu tamanho no momento do diagnóstico e da presença ou ausência de doença paraneoplásica. Na identificação de síndromes paraneoplásicas, o
prognóstico é reservado.2
O fator prognóstico mais importante em cães é a presença de megaesôfago. Quando existe megaesôfago, a probabilidade de o paciente desenvolver pneumonia aspirativa é alta. Nesse caso, os animais devem ser tratados antes da timectomia.
A sobrevida média de cães com megaesôfago no pós-operatório é de aproximadamente 1 semana, em virtude da ocorrência de pneumonia aspirativa. Se não houver megaesôfago associado a timoma, o prognóstico após a ressecção cirúrgica é bom. A expectativa de vida de cães sem megaesôfago é de 16 meses após o tratamento cirúrgico. Cerca de 80% dos animais sem megaesôfago apresentam 1 ano de sobrevida.
A remoção cirúrgica dos timomas em gatos está relacionada com um bom prognóstico. A sobrevida média de gatos, no pós-operatório, é de aproximadamente 21 meses. A complicação cirúrgica mais comum nessa espécie é a presença de hemorragia intratorácica no pós-operatório. Ausência de recidiva foi observada em 10 gatos submetidos à timectomia e
acompanhamentos de 6 a 36 meses.5
O prognóstico para pacientes com tumores que não podem ser removidos durante o transoperatório é reservado, mas a quimioterapia e a radioterapia podem ser benéficas e, em alguns casos, tornar os timomas ressecáveis.
Alguns casos de timoma evoluem lentamente, proporcionando vários meses de sobrevida ao paciente.
Perspectivas futuras
Por se tratar de um tumor raro, a compreensão dos processos fisiopatológicos e das bases moleculares do timoma é fundamental para o entendimento de sua manifestação. A remoção cirúrgica do timoma encapsulado pode resultar na sobrevivência a longo prazo ou cura. Timoma invasivo ou metastático implica prognóstico reservado.
O conhecimento da resposta autoimune das síndromes paraneoplásicas tem permitido a implementação de novas opções terapêuticas. Além disso, o sistema de estadiamento permite um prognóstico preciso e um plano terapêutico mais acurado.
Referências bibliográficas
1. MOULTON, J. E.; HARVEY, J. W. Tumors of lymphoid and hematopoietic tissue. In:
MOULTON, J. E. (ed). Tumors of Domestic Animals. 3. ed. Berkeley: University of California, p. 231-296, 1990.
2. FOSSUM, T. W. Surgery of the lower respiratory system: pleural cavity and diaphragm. In:
__________ Small Animal Surgery. 3. ed. St. Louis: Mosby, p. 926-929, 2008.
3. DE NARDI, A. B. Timoma In: DALECK, C. R., DE NARDI, A. B., RODASKI, S. Oncologia
em Cães e Gatos. São Paulo: Roca, p. 561-564, 2008.
4. WITHROW, S. J. Thymoma. In: WITHROW, S.J.; VAIL, D.M.; PAGE, R.L. Small Animal
Clinical Oncology. St. Louis: Saunders Elsevier, p. 688-691, 2013.
5. BELLAH, J. R.; SMITH, A. N. The thymus. In: SLATTER, D. Textbook of Small Animal
Surgery. 3. ed. Philadelphia: Saunders, p. 1083-1091, 2003.
6. SMITS, B.; REID, M. M. Feline paraneoplastic syndrome associated with thymoma. New
Zealand Veterinary Journal, v. 51, n. 5, p. 244-247, 2003.
7. TEPPER, L. C.; SPIEGEL, I. B.; DAVIS, G. J. Diagnosis of erythema multiforme associated
with thymoma in a dog and treated with thymectomy. Journal of American Animal Hospital Association, v. 47, n. 2, p. e19-e25, 2011.
8. MOORE, A. S.; OGILVIE, G. K. Thymoma, mesothelioma and histiocytosis. Feline oncology:
a comprehensive guide to compassionate care. Veterinary Learning Systems Trenton, p. 389-393, 2001.
9. MEEKING, S. A.; PRITTIE, J.; BARTON, L. Myasthenia gravis associated with thymic
neoplasia in a cat. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care, v. 18, n. 2, p. 177-183,
2008.
10. SHELTON, G. D.; HO, M.; KASS, P. H. Risk factors for acquired myasthenia gravis in cats:
105 cases (1986-1998). Journal of Veterinary Medical Association, v. 216, p. 55-57, 2000.
11. BERGMAN, P. J. Paraneoplastic syndromes. WITHROW, S. J.; VAIL, D. M.; PAGE, R. L.
Small Animal Clinical Oncology. St. Louis: Saunders Elsevier, p. 83-97, 2013.
12. BATLIVALA, T. P.; BACON, N. J.; AVERY, A. C. et al. Paraneoplastic T cell lymphocytosis
associated with a thymoma in a dog. Journal of Small Animal Practice, v. 51, p. 491-494, 2010.
13. HYLANDS, R. Veterinary diagnostic imaging. Thymoma. Canadian Veterinary Journal, v. 47,
n. 6, p. 593-596, 2006.
14. PINTORE, L.; BERTAZZOLO, W.; BONFANTI, U. et al. Cytological and histological
correlation in diagnosing feline and canine mediastinal masses. Journal of Small Animal Practice, v. 55, p. 28-32, 2014.
15. VOS, J. H.; STOLWIJK, J.; RAMAECKERS, F. C. et al. The use of keratin antisera in the
characterization of a feline thymoma. Journal of Comparative Pathology, v. 102, n. 1, p. 71-77, 1990.
16. LANA, S.; PLAZA, S.; HAMPE, K. et al. Diagnosis of mediastinal masses in dogs by flow
cytometry. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 20, p. 1161-1165, 2006.
17. FAISCA, P.; HENRIQUES, J.; DIAS, T. M. et al. Ectopic cervical thymic carcinoma in a dog.
Journal of Small Animal Practice, v. 52, p. 266-270, 2011.
18. MASAOKA, A.; MONDEN, Y.; NAKAHARA, K. et al.: Follow-up study of thymomas with
special reference to their clinical stages. Cancer, v. 48, n. 11, p. 2485-2492, 1981.
19. ARONSOHN, M. Canine thymoma. Veterinary Clinics of North America Small Animal
Practice, v. 15, n. 4, p. 755-767, 1985.
20. TOMASZEK, S.; WIGLE, D. A.; KESHAVJEE, S. et al. Thymomas: review of current clinical
practice. The Annals of Thoracic Surgery, v. 87, n. 6, p. 1973-1980, 2009.
21. OKUMURA, M.; OHTA, M.; TATEYAMA, H. et al. The World Health Organization
Histologic Classification System reflects the oncologic behavior of thymoma… A clinical study of 273 patients. Cancer, v. 94, p. 624-632, 2002.
22. KONDO, K.; YOSHIZAWA, K.; TSYYUGUCHI, M. et al. WHO histologic classification is a
prognostic indicator in thymoma. Annals of Thoracic Surgery, v. 77, n. 4, p. 1183-1188, 2004.
23. NATIONAL CANCER INSTITUTE. Stage information for thymoma and thymic carcinomas.
Disponível em:
http://www.cancer.gov/cancertopics/pdq/treatment/thymoma/HealthProfessional/page3>. Acesso em: 10 jun. 2014.
24. GORES, B. R.; BERG, J.; CARPENTER, J. L. et al. Surgical treatment of thymoma in cats: 12
cases (1987-1992). J. Am. Vet. Med. Assoc., v. 204, n. 11, p. 1782-1785, 1994.
25. ZITZ, J. C.; BIRCHARD, S. J.; COUTO, G. C. et al. Results of excision of thymoma in cats
and dogs: 20 cases (1984–2000). Journal of American Veterinary Medical Association, v. 232, n. 8, p. 1186-1192, 2008.
26. MAYHEW, P. D.; FRIEDBERG, J. S. Video assisted thoracoscopic resection of noninvasive
thymomas using one-lung ventilation in two dogs. Veterinary Surgery, v. 37, p. 756-762, 2008.
27. COUTO, C. G. Abordagem do paciente com massa. In:______ Medicina Interna de Pequenos
Animais. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, p. 1083-1085, 2006.
28. SMITH, A. N.; WRIGHT, J. C.; BRAWNER JR., W. R. et al. Radiation therapy in the
treatment of canine and feline thymomas: a retrospective study (1985-1999). Journal of American Animal Hospital Association, v. 37, n. 5, p. 489-496, 2001.
29. FIDEL, J. L., PARGASS, I. S., DARK, M. J. et al. Granulocytopenia associated with thymoma
in a domestic shorthaired cat. Journal of the American Animal Hospital Association, v. 44, p. 210-217, 2008.
Bibliografia
BILLER, D. S. Doença do mediastino. In: ETTINGER, S. J.; FELDMAN, E. C. Tratado de Medicina
Interna Veterinária. 5 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, v. 2, p. 1152-1158, 2004.
OceanofPDF.com