Oncologia em Cães e Gatos

Carlos Roberto Daleck, Andrigo Barboza De Nardi · Capítulo 60 de 63

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Oncologia em Cães e Gatos

54 Timoma

Incidência e etiologia

O timoma é uma neoplasia que se localiza no mediastino anterior, em geral benigno e a ocorrência de metástase é rara. Uma vez que o timo apresenta elementos linfoides e epiteliais, é possível que qualquer um desses

elementos, ou ambos, sirva como células de origem para neoplasias.1

Os timomas são raros em cães e muito menos comuns em gatos e em geral ocorrem em animais mais velhos. A média de idade dos cães com timoma é de 11 anos, ao passo que em gatos é de 9,5 anos. Embora não exista predisposição racial relatada nessas espécies, cães de raças grandes, particularmente Pastor-alemão, Golden Retriever e Labrador Retriever, são mais comumente afetados do que os cães pequenos. Embora a

predisposição sexual não tenha sido identificada2, maior prevalência dessa

neoplasia é observada em fêmeas de cães (65%).3

 

Comportamento natural

Os timomas se originam do epitélio tímico e podem ser infiltrados por

linfócitos maduros.4 As massas neoplásicas localizadas no mediastino são, na maioria das vezes, encapsuladas, nodulares e frequentemente císticas, podendo apresentar áreas necróticas. Já a consistência varia de macia a firme e a coloração é branco-acinzentada, que, ao corte, podem apresentar áreas de coloração vermelho-enegrecida, caracterizando focos hemorrágicos

e necróticos.1

A classificação da neoplasia em benigna ou maligna é alicerçada na capacidade de invasão do tumor e na possibilidade de remoção cirúrgica. Os timomas benignos são bem encapsulados e não invasivos, ao passo que os malignos invadem as estruturas adjacentes, como veia cava cranial, traqueia, esôfago e pericárdio, dificultando ou impedindo a remoção cirúrgica. As metástases são incomuns, mas podem ocorrer em pulmões, fígado e ossos. Aparentemente, não existe correlação entre a avaliação histopatológica e o prognóstico.

 

Sinais clínicos

Os sinais clínicos de pacientes com timoma geralmente estão relacionados com o deslocamento dos órgãos da cavidade torácica em virtude da presença de massas mediastinais e incluem letargia, tosse, taquipneia e

dispneia. Além desses, podem aparecer sinais menos frequentes4, como disfagia, regurgitação, hiporexia, perda de peso, intolerância ao exercício e,

em alguns casos, salivação excessiva.3 Os pacientes com timomas não invasivos podem não exibir quaisquer sinais clínicos ou, ainda, podem

manifestar sinais inespecíficos.5

Alguns pacientes apresentam síndrome de Horner, em virtude do envolvimento do tronco vagossimpático. Síndrome da obstrução da veia cava cranial pode ocorrer em razão da obstrução do retorno venoso e linfático de cabeça, pescoço e membros torácicos, resultando em edema nesses locais.

A prevalência de efusões pleurais em cães e gatos com timomas ou linfomas parece ser similar. Portanto, esse achado não pode ser usado para ajudar no diagnóstico diferencial dessas duas neoplasias.

As síndromes paraneoplásicas associadas a timomas em cães e gatos são miastenia gravis (MG), polimiosite, dermatite esfoliativa (apenas em gatos),

hipercalcemia e bloqueio atrioventricular.6 Foi relatado também eritema multiforme em cão associado à timoma, possivelmente por hipersensibilidade de células específicas do paciente contra antígenos associados aos ceratinócitos, os quais são alterados. Esses ceratinócitos unem-se às células T linfocíticas provocando apoptose. Porém, os sinais do

eritema multiforme sumiram após remoção do timoma.7

 

■ Miastenia gravis associada a timoma A presença de MG é documentada em mais de 40% dos casos de timoma

em cães, mas sua ocorrência é rara em gatos.8 Essa alteração se caracteriza por fraqueza muscular e megaesôfago. A MG adquirida é uma doença imunomediada, na qual há produção de anticorpos contra receptores nicotínicos de acetilcolina nas junções neuromusculares (mas comumente imunoglobulina G). Isso resulta em menor quantidade desses receptores na superfície do sarcolema pós-sináptico, ocasionando prejuízo na junção neuromuscular representada por sinal clínico de fraqueza musculoesquelética. A MG adquirida caracteriza-se por três apresentações clínicas: MG focal com sinais clínicos de laringe, faringe, esôfago ou disfunção dos músculos faciais; MG generalizada apresentando debilidade muscular nos membros anteriores e posteriores com ou sem MG focal; e MG fulminante aguda caracterizada pelo início rápido e grave da debilidade que pode progredir em insuficiência respiratória grave por debilidade muscular intercostal e diafragmática. A MG aguda pode desenvolver-se em

gatos no período pós-cirúrgico após timectomia.9

A fim de se diagnosticar a MG, o sinal mais específico é a presença no soro sanguíneo de anticorpos contra o receptor de acetilcolina (AChRAb). O título de AChRAb acima de 0,3 nmol/ℓ é diagnóstico para MG, embora gatos com título abaixo de 10 nmol/ ℓ podem não demonstrar fraqueza

muscular no momento do diagnóstico.10

O timoma é a causa mais comum para a manifestação de MG, embora outras neoplasias possam ser relatadas por induzi-la, como osteossarcoma,

adenocarcinoma, linfoma e carcinoma do ducto biliar.11

Em relação ao tratamento para a MG, usam-se medicamentos que possam diminuir a ação da colinesterase, os fármacos anticolinesterásicos. A diminuição da degradação da acetilcolina faz com que esta atue por mais tempo, facilitando a transmissão neuromuscular. Apesar de não modificar o número de receptores, melhora sua eficiência. O tratamento com os anticolinesterásicos, como a piridostigmina, é benéfico, mas em muitos casos não é suficiente.

A timectomia, muitas vezes, é outro tratamento indicado. Inúmeros pacientes podem apresentar remissão ou melhoras significativas dos sinais clínicos da miastenia com a timectomia. O tratamento da MG orientado à recessão do tumor produz rápida melhoria e diminuição dos anticorpos receptores da acetilcolina. Como coadjuvante, pode-se utilizar prednisona

(2 mg/kg/dia VO).11

O uso de imunossupressores como a ciclosporina é eficaz, produzindo a remissão dos sintomas, pois diminui a produção de anticorpos contra os receptores de acetilcolina. No entanto, seu uso costuma ser prolongado e sujeito a efeitos colaterais indesejáveis.

 

Diagnóstico

Ao exame físico, o paciente pode apresentar edema de face, pescoço e membros torácicos em virtude da obstrução da veia cava cranial. A auscultação torácica pode revelar redução dos sons pulmonares – principalmente no mediastino cranial, em virtude da presença do tumor – ou redução dos sons nos campos pulmonares ventrais em decorrência da efusão pleural. Os sons cardíacos podem ser ouvidos na porção dorsal e caudal do tórax em razão do deslocamento cardíaco provocado pelo tumor.

O diagnóstico do timoma, portanto, deverá se basear na identificação e nas características determinantes de acordo com as condutas diagnósticas

sugeridas na Tabela 54.1.

A avaliação laboratorial não é útil para ser correlacionada com o diagnóstico dos timomas. No entanto, quando há megaesôfago e pneumonia aspirativa, espera-se que existam alterações no leucograma com a presença de leucocitose. Embora o aumento de linfócitos periféricos não seja um achado comum em pacientes caninos com timoma, deve-se considerá-lo diferencial. Em pacientes humanos com timoma maligno, a linfocitose periférica coincide com níveis elevados de hormônios, como a α1

timosina.12

 

Tabela 54.1 Testes diagnósticos e principais características clínicas de paciente com

timoma.

 

Testes diagnósticos Principais características

 

Exames complementares

 

Hemograma Sem alterações signi cativas

 

Bioquímico Cão: Hiperglobulinemia e hipercalcemia

 

Gato: Hiperglicemia e moderada elevação

plasmática da atividade aspartato

transaminase e hipercolesterolemia

 

Citologia ou biopsia da massa mediastínica a Quantidade variável de linfócitos maduros

partir de aspiração por agulha na

Títulos do anticorpo contra receptores da Identi car síndrome paraneoplásica

acetilcolina (miastenia gravis) na presença de fraqueza

generalizada, di culdade de deglutição,

megaesôfago e pneumonia por aspiração

 

Teste para vírus da leucemia felina e vírus da A maioria dos gatos com linfoma mediastinal

imunode ciência nos gatos é virêmica, o que não ocorre com os gatos

com timoma

 

Diagnóstico por imagem

 

Radiogra a torácica (três projeções) Neoplasia localizada no mediastino cranial,

efusão pleural e deslocamento caudal e dorsal

da silhueta cardíaca

 

Ultrassonogra a Ecogenicidade mista

 

Tomogra a computadorizada Determinar o grau de invasão e arquitetura

neoplásica

 

Ressonância magnética Determinar o grau de invasão e arquitetura

neoplásica

 

Exames especí cos

 

Histopatologia Aspectos morfológicos neoplásicos

 

Imuno-histoquímica Utilizada para determinar origem

linfoepitelial, marcando células epiteliais

neoplásicas e linfócitos não neoplásicos

 

Citometria de uxo Indicado quando há presença de doença

concomitante, neoplasia secundária

 

As alterações bioquímicas mais comuns associadas à timoma em cães são hiperglobulinemia e hipercalcemia. Já em gatos, ocorrem hiperglicemia, moderada elevação plasmática da atividade da aspartato transaminase e hipercolesterolemia. Em geral, gatos com timoma são idosos e negativos para leucemia viral felina.

As radiografias torácicas geralmente revelam a neoplasia localizada no mediastino cranial, efusão pleural e deslocamento caudal e dorsal da

silhueta cardíaca (Figuras 54.1 e 54.2). A dilatação do esôfago pode ser vista em casos de MG. O exame radiográfico do tórax pouco ajuda na diferenciação entre timomas e linfomas, pois as duas neoplasias são similares na aparência radiográfica – embora os linfomas pareçam se originar com mais frequência no mediastino dorsal, ao passo que os timomas se originam mais frequentemente no mediastino ventral. Na avaliação por eletrocardiografia, os cães podem apresentar bloqueio atrioventricular de terceiro grau. Pela avaliação ultrassonográfica, a maioria dos timomas apresenta ecogenicidade mista e, nos linfomas, é mais comum a presença de massas hipoecogênicas homogêneas.

A tomografia computadorizada em 3D, utilizando contraste, proporciona maior informação das massas mediastínicas, identifica claramente forma e tamanho do tumor, além da ubiquação exata do vaso que nutre o tumor. Essas informações diagnósticas ajudam o cirurgião a determinar a possibilidade de recessão do tumor e tipo de abordagem (esternotomia ou

abordagem intercostal direito ou esquerdo).13

O diagnóstico citológico de lesões mediastinais é normalmente obtido por meio da aspiração com agulha fina percutânea. Esse procedimento pode ser guiado por exame radiográfico (usando três vistas para estabelecer uma localização tridimensional), fluoroscopia ou ultrassonografia. A correlação dos diagnósticos citológicos e histológicos de massas no mediastino demonstrou que o exame citológico em caninos e felinos corroborou com o diagnóstico histológico final, considerando que o exame citológico é um processo relativamente fácil, de baixo custo e adequado para esses tipos de

lesões.14 Como regra geral, a aspiração com agulha fina não deve ser feita em gatos e cães com coagulopatias.

Embora os timomas se originem no epitélio tímico, podem conter um número significativo de linfócitos maduros. A diferenciação entre linfoma e timoma, portanto, com base na punção aspirativa com agulha de uma massa mediastínica pode ser um problema, em especial nos gatos. Então, nesses casos, a anamnese pode ser útil. Para diferenciá-los, é bom ter em mente que o timoma acomete gatos com média de idade entre 9 e 10 anos, ao passo que a média de idade de gatos com linfoma é de 2 a 4 anos e a maioria deles é positiva para a leucemia viral felina. No entanto, esses animais podem apresentam essas doenças em idades diferentes das citadas.

Caso o material obtido por exame citológico não seja adequado para caracterizar o processo neoplásico, deve-se considerar a possibilidade de uma biopsia incisional. Aparentemente, não existe correlação entre as imagens de tomografia computadorizada dos tumores de mediastino e o diagnóstico histológico, mas esse exame é importante para definir o tamanho e a extensão do tumor.

A biopsia excisional é definitiva, e em amostras que apresentam uma proporção muito elevada de linfócitos, a imuno-histoquímica para filamentos intermediários de citoqueratina discriminará aglomerados celulares epiteliais malignos raros que seriam perdidos em citologia ou

coloração histopatológica de rotina.15

Figura 54.1 Radiografia lateral de fêmea Rottweiler, 11 anos, com timoma (seta) ocupando o mediastino cranial.

 

 

Figura 54.2 Radiografia lateral após timectomia.

A citometria de fluxo dos tumores tímicos ajuda a diferenciar os casos de timoma dos de linfoma. A citometria de fluxo é uma ferramenta bastante útil para diferenciar as duas causas mais comuns de massas mediastinais: timoma e linfoma. Baseia-se no fato de que os linfócitos tímicos podem se diferenciar a partir de linfócitos periféricos pela expressão simultânea de CD4 e CD8. A confirmação do diagnóstico é determinada com citologia ou histologia para linfoma e histologia para timoma. Diagnosticaram-se 6/6 casos para timoma e 7/7 casos para linfoma. Portanto, a avaliação de aspirados com agulha fina de massas mediastinais por citometria de fluxo pode ser uma ferramenta muito valiosa frente a procedimentos diagnósticos

invasivos.16

 

■ Diagnóstico diferencial

Os diagnósticos diferenciais para massas no mediastino cranial incluem tanto doença neoplásica quanto não neoplásica (abscessos, cistos tímicos branquiais, hiperplasia tímica, granuloma). O diagnóstico diferencial mais importante em cães e gatos com timoma é o linfoma mediastínico, porque o

tratamento do linfoma não envolve cirurgia.2,8 As principais neoplasias que fazem parte do diagnóstico diferencial são linfomas, quemodectomas, carcinomas ectópicos de tireoide e metástases de outras neoplasias. Na avaliação por eletrocardiografia, os cães podem apresentar bloqueio

atrioventricular de terceiro grau.3 O carcinoma tímico ectópico é um tumor com baixa frequência que provavelmente surge a partir de tecido tímico

encarcerado durante a migração do timo para o mediastino anterior.17

 

Estadiamento

Diferentes sistemas de estadiamento para o timoma foram desenvolvidos. No entanto, a classificação clínica, patológica e cirúrgica ainda é controversa pela heterogeneidade e variabilidade histomorfológica das

células do timoma. O estadiamento proposto por Masaoka et al.18 é largamente utilizado na prática clínica e tem sido referência, pois considera a presença de invasão e extensão anatômica do timoma tanto clínica como histopatológica.

No estadiamento estabelecido por Aronsohn19, o timoma pode ser completamente contido dentro da cápsula do timo ou pode se espalhar por invasão ou metástase local. Síndromes paraneoplásicas são efeitos distantes de um tumor. Além disso, aproximadamente 50% dos timomas em cães são

associados à MG (Tabela 54.2).

Novos sistemas de classificação são divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), porém ainda não há estudos que mostram que essa nova classificação seja superior na avaliação do prognóstico, embora estudos preliminares revelem uma boa correlação com a escolha do

tratamento.21-23

 

Tabela 54.2 Critérios de estadiamento do timoma.

 

Estádio Critério diagnóstico

 

Estadiamento segundo Masaoka (1981) apud Fossum2

 

I Tumor bem encapsulado macroscopicamente

 

Sem invasão capsular microscópica

 

II IIa – Invasão microscópica à cápsula;

 

IIb – invasão macroscópica da cápsula até a gordura circundante ou pleura mediastinal

 

III Invasão macroscópica das estruturas vizinhas (pericárdio, grandes

vasos, pulmões)

IV IVa – Disseminação pericárdica ou pleural

 

IVb – Metástases linfáticas e hematogênicas

 

Estadiamento segundo Aronsohn (1985) apud Tomaszek et al.20

 

I Desenvolvimento completo capsular

 

II Crescimento pericapsular interno ao tecido mediastínico e

gordura, adjacente à pleura e/ou ao pericárdio

 

III Invasão em órgãos circundantes e/ou metástase intratorácica

 

IV Metástase extratorácica

 

Síndromes paraneoplásicas

 

P0 Sem evidência de síndrome paraneoplásica

 

P1 Miastenia gravis

 

P2 Tumor maligno atímico

 

Tratamento

Animais com timoma podem ser tratados com cirurgia, radioterapia, quimioterapia, ou com a associação dessas técnicas.

A cirurgia é o tratamento de escolha para os timomas não invasivos. Porém, em virtude da alta capacidade de invasão, essa neoplasia em cães é difícil de ser removida. Em gatos, o procedimento cirúrgico geralmente é mais fácil do que nos cães, pois os tumores são menos invasivos. Nos casos em que exista invasão das estruturas adjacentes, pode-se empregar a cirurgia como terapia citorredutora acompanhada de quimioterapia adjuvante. Tumores pequenos são acessados por toracotomia intercostal. A esternotomia é indicada para a remoção de grandes tumores, pois permite melhor visualização das estruturas circundantes, como a veia cava cranial. Os timomas frequentemente são friáveis e, ocasionalmente, císticos, devendo ser manipulados com cuidado para prevenir a deposição de células

tumorais na cavidade torácica.2

Tratamento cirúrgico de 20 gatos diagnosticados com timoma, sem receber rádio ou quimioterapia, resultou em dois gatos submetidos à eutanásia durante o pós-operatório imediato. Seis cães sobreviveram durante um período de 6 a 36 meses. Três gatos foram submetidos à

eutanásia após 18, 32 e 45 meses com problemas não relacionados.24

Cirurgia como único tratamento em 9 gatos e 11 cães com timoma resultou em somente 1 cão com timoma não invasivo que apresentou reincidência e 2 gatos diagnosticados como timomas invasivos que também tiveram reincidência. A média do tempo de sobrevida foi de 3 anos e após excisão e somente 2 animais (1 cão e 1 gato) apresentaram síndromes

paraneoplásicas.25

A utilização de técnicas cirúrgicas não invasivas por videotoracoscopia para resseção de timomas sugere alguns cuidados: ressecar massas de tamanho modesto, conservando assim vasos, nervos e outras estruturas

vitais, e ter conhecimentos e equipamentos especializados.26

Em cães, a quimioterapia e a radioterapia não são eficazes no tratamento dos timomas. A quimioterapia pode ser usada especialmente em animais com megaesôfago, pois são pacientes que apresentam grande mortalidade pós-operatória. Em geral, a quimioterapia promove a regressão da população de células linfoides e, dessa maneira, é raro alcançar remissões completas ou de longa duração. Algumas associações quimioterápicas utilizadas no tratamento dos linfomas também são usadas no tratamento dos

timomas (Tabela 54.3).

Muitos linfomas tímicos respondem de modo rápido à quimioterapia. Os timomas devem ser suspeitados em pacientes com remissão parcial ou doença estável 10 ou 14 dias após o início da quimioterapia para o tratamento dos linfomas.

A radioterapia raramente é empregada em animais com timoma. Semelhantemente ao que ocorre com a quimioterapia, a radioterapia promove regressão dos timomas, embora a remissão completa e de longa duração raramente seja alcançada. Isso acontece provavelmente porque a radioterapia elimina apenas o componente linfoide da neoplasia, mas o componente epitelial permanece intacto. Além disso, o tratamento radioterápico pode provocar pericardite, derrame pericárdico, miocardite, fibrose pulmonar e do miocárdio, além de alterações na medula espinal.

 

Tabela 54.3 Protocolos quimioterápicos utilizados no tratamento de linfoma adaptado

para timoma.

 

Indução da remissão

 

Protocolo COAP+ Ciclofosfamida: 50 mg/m², VO, a cada 48 h em

cães ou 200 a 300 mg/m², VO, a cada 3

semanas em gatos

 

Vincristina: 0,5 mg/m², IV, semanalmente

 

Citosina arabinosida: 100 mg/m² diariamente

por infusão, IV ou SC, por somente 2 dias em

gatos e 4 dias em cães

 

Prednisona: 50 mg/m², VO, a cada 24 h por 1

semana e depois 20 mg/m², VO, a cada 48 h

 

Ciclofosfamida: 50 mg/m², VO, a cada 48 h em

cães ou 200 a 300 mg/m², VO, a cada 3

semanas em gatos

 

Protocolo COP Vincristina: 0,5 mg/m², IV, 1 vez por semana

 

Prednisona: 40 a 50 mg/m2, VO, a cada 48 h por 1 semana e depois 20 a 25 mg/m², VO, a

cada 48 h

 

Intensi cação

 

Caninos L-asparaginase: 10.000 a 20.000 UI/m², IM (1

a 2 doses) ou

 

Vincristina: 0,5 a 0,75 mg/m², IV, a cada 1 a 2

semanas

 

Doxorrubicina (adriamicina): 1 mg/m², IV, a

cada 3 semanas ou

Felinos

Mitoxantrona: 4 a 6 mg/m², IV, a cada 3

semanas

 

Manutenção

 

Protocolo LMP Clorambucila: 20 mg/m², VO, a cada 2

semanas

 

Metotrexato: 2,5 mg/m², VO, 2 ou 3 vezes por

semana

 

Prednisona: 20 mg/m², VO, a cada 48 h

 

Administrar como descrito anteriormente em

semanas alternadas por 6 tratamentos,

depois a cada 3 semanas por 6 tratamentos

Protocolo COAP adicionais, depois tentar manter o animal em

tratamento a cada 4 semanas. A terapia de

manutenção é continuada até ocorrer a

recidiva do tumor.

 

Terapia de resgate para caninos

 

Dexametasona: 0,23 mg/kg, VO ou SC, nos

dias 1 e 8

 

Actinomicina D: 0,75 mg/m2, IV, em bolus no

Protocolo D-MAC dia 1

(ciclo de 14 dias)

Citosina arabinosida: 200 a 300 mg/m² por

infusão, IV, por mais de 4 a 6 h no dia 1

 

Melfalano: 20 mg/m2, VO, no dia 8

 

Protocolo AC Doxorrubicina: 30 mg/m2 (ou 1 mg/m², IV, em

(ciclo de 21 dias) cães abaixo de 10 kg) no dia 1

 

Ciclofosfamida: 100 a 150 mg/m², VO, nos

dias 15 ou 16

 

Ciclofosfamida: 200 a 300 mg/m², VO, no dia

10

 

Protocolo CHOP Doxorrubicina (adriamicina): 30 mg/m2 (ou 1

 

(ciclo de 21 dias) mg/m², IV, cães abaixo de 10 kg) no dia 1

 

Vincristina: 0,75 mg/m², IV, nos dias 8 e 15

 

Prednisona: 20 a 25 mg/m², VO, a cada 48 h

 

Terapia de resgate para felinos

 

Doxorrubicina (adriamicina): 1 mg/m², IV, no

dia 1

 

Ciclofosfamida: 200 a 300 mg/m², VO, no dia

Protocolo AC

10 ou 11

(ciclo de 21 dias)

 

Dexametasona: 4 mg/gato a cada 1 a 2

semanas podem ser adicionados a este

protocolo

 

Protocolo MiC Mitoxantrona: 4 a 6 mg/m² por infusão IV por

(ciclo de 21 dias) mais de 4 a 6 h no dia 1

Ciclofosfamida: 200 a 300 mg/m² VO no dia

10 ou 11

 

Dexametasona: 4 mg/gato a cada 1 a 2

semanas podem ser adicionados a este

protocolo

 

Protocolo MiCA Mitoxantrona: 4 a 6 mg/m² por infusão IV por

(ciclo de 21 dias) mais de 4 a 6 h no dia 1

 

Ciclofosfamida: 200 a 300 mg/m² VO no dia

10 ou 11

 

Citosina arabinosídeo: 200 mg/m² por infusão

IV por mais de 4 a 6 h (misturada no mesmo

recipiente com mitoxantrona) no dia 1

 

Pode ser adicionada dexametasona a este

protocolo: 4 mg/gato a cada 1 a 2 semanas

 

Protocolos acessíveis

 

Prednisona: 50 mg/m², VO, a cada 24 h por 1 semana, em seguida 25 mg/m², VO, a cada 48 h

 

Clorambucila: 20 mg/m², VO, a cada 2 semanas

 

Lomustina: 60 a 90 mg/m², VO, a cada 3 semanas em cães, 10 mg (dose total) a cada 3 semanas

em gatos

Prednisona e clorambucila: mesmas doses anteriores

 

Prednisona e lomustina: mesmas doses anteriores

 

Adaptada de Couto et al., 2006.27

 

Smith et al. realizaram estudo retrospectivo (1985-1999) sobre tratamento radioterápico de timona em 17 cães e 7 gatos. Observaram-se resposta geral em 75% (15/20 casos avaliáveis) e parcial em mais de 50% na redução do tumor. A média de sobrevida foi de 248 dias em cães e 720

dias em gatos.28

A indução de granulocitopenia imunomediada após radioterapia em gata castrada com diagnóstico de timoma por meio de biopsia da massa no mediastino cranial levou à imunoterapia supressiva com ciclosporina. A timectomia foi realizada e o pós-operatório prosseguiu o tratamento

clínico.29

A resseção cirúrgica completa é considerada o melhor método de predição para sobrevivência a longo prazo para os seres humanos com timoma. Radioterapia é indicada mais comumente por doença extensa ou recorrente. Uma variedade de medicamentos antineoplásicos tem sido utilizada para tratar timomas inoperáveis ou em casos em que a doença residual está presente após a cirurgia. Cisplatina, ifosfamida e prednisona são considerados os mais eficazes agentes. Além disso, a quimioterapia neoadjuvante demonstrou influência para sobrevivência a longo prazo para

timomas de Masaoka estádios III e IV.4

A MG pode melhorar ou não após a remoção cirúrgica do tumor. Em alguns casos, a melhora pode ocorrer após vários meses. O aparecimento de MG foi relatado em gatos 1 ou 2 semanas depois da ressecção cirúrgica do timoma, cujas razões ainda não estão bem definidas, mas o mesmo fenômeno é observado em seres humanos. É prudente evitar a remoção de timomas em cães com MG ou, pelo menos, protelar a cirurgia até que os sintomas sejam controlados com a terapia medicamentosa.

 

Prognóstico

O prognóstico depende da capacidade de invasão do tumor, de seu tamanho no momento do diagnóstico e da presença ou ausência de doença paraneoplásica. Na identificação de síndromes paraneoplásicas, o

prognóstico é reservado.2

O fator prognóstico mais importante em cães é a presença de megaesôfago. Quando existe megaesôfago, a probabilidade de o paciente desenvolver pneumonia aspirativa é alta. Nesse caso, os animais devem ser tratados antes da timectomia.

A sobrevida média de cães com megaesôfago no pós-operatório é de aproximadamente 1 semana, em virtude da ocorrência de pneumonia aspirativa. Se não houver megaesôfago associado a timoma, o prognóstico após a ressecção cirúrgica é bom. A expectativa de vida de cães sem megaesôfago é de 16 meses após o tratamento cirúrgico. Cerca de 80% dos animais sem megaesôfago apresentam 1 ano de sobrevida.

A remoção cirúrgica dos timomas em gatos está relacionada com um bom prognóstico. A sobrevida média de gatos, no pós-operatório, é de aproximadamente 21 meses. A complicação cirúrgica mais comum nessa espécie é a presença de hemorragia intratorácica no pós-operatório. Ausência de recidiva foi observada em 10 gatos submetidos à timectomia e

acompanhamentos de 6 a 36 meses.5

O prognóstico para pacientes com tumores que não podem ser removidos durante o transoperatório é reservado, mas a quimioterapia e a radioterapia podem ser benéficas e, em alguns casos, tornar os timomas ressecáveis.

Alguns casos de timoma evoluem lentamente, proporcionando vários meses de sobrevida ao paciente.

Perspectivas futuras

Por se tratar de um tumor raro, a compreensão dos processos fisiopatológicos e das bases moleculares do timoma é fundamental para o entendimento de sua manifestação. A remoção cirúrgica do timoma encapsulado pode resultar na sobrevivência a longo prazo ou cura. Timoma invasivo ou metastático implica prognóstico reservado.

O conhecimento da resposta autoimune das síndromes paraneoplásicas tem permitido a implementação de novas opções terapêuticas. Além disso, o sistema de estadiamento permite um prognóstico preciso e um plano terapêutico mais acurado.

 

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