Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 102 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 23

Eratóstenes deduziu que a diferença entre uma sombra e sombra alguma confirmava que o mundo era uma esfera e não um prato. Então fez medir a distância entre as duas cidades, a passo de homem, e a partir dessa informação tentou calcular quanto media a cintura do mundo.

Errou por noventa quilômetros.

 

23

 

Fogos

À meia-noite de hoje, ardem os fogos.

A multidão se reúne ao redor das altas fogueiras.

Nesta noite, limpam-se as casas e as almas. São jogados no fogo os trastes velhos e os velhos desejos, coisas e sentires gastos pelo tempo, para que o novo nasça e encontre lugar.

Do norte do mundo, esse costume se difundiu por todo lado. Sempre foi uma festa pagã. Sempre, até que a Igreja católica decidiu que essa seria a noite de são João.

 

24

 

O Sol

Hoje, desde que amanheceu, é celebrada a Festa do Sol, o Inti Raymi, nos cerrados e nas montanhas dos Andes.

No começo dos tempos, a terra e o céu estavam na escuridão. Só havia noite.

Quando a primeira mulher e o primeiro homem emergiram das águas do lago Titicaca, nasceu o Sol.

O Sol foi inventado por Viracocha, o deus dos deuses, para que a mulher e o homem pudessem se ver.