Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 70 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 28

Cento e sessenta anos depois, nesse mesmo país, os legisladores que diziam ser revolucionários sandinistas proibiram o aborto em qualquer circunstância, e assim condenaram as mulheres pobres à prisão ou ao cemitério.

 

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Este inseguro mundo

Hoje, Dia da Segurança no Trabalho, vale a pena lembrar muito bem que hoje em dia não há nada mais inseguro que o trabalho. Cada vez são mais e mais os trabalhadores que despertam, cada dia, perguntando:

– Quantos sobraremos? Quem vai me comprar?

Muitos perdem o trabalho e muitos perdem, trabalhando, a vida: a cada quinze segundos morre um operário, assassinado por isso que chamam de acidente de trabalho.

A falta de segurança pública é o tema preferido dos políticos que desatam a histeria coletiva para ganhar eleições. Perigo, perigo, proclamam: em cada esquina um ladrão ameaça, ou um violador, ou um assassino. Mas esses políticos jamais denunciam que trabalhar é perigoso,

e que é perigoso atravessar a rua, porque a cada vinte e cinco segundos um pedestre morre, assassinado por isso que chamam de acidente de trânsito;

e que é perigoso comer, porque quem está a salvo da fome pode sucumbir envenenado por comida química;

e que é perigoso respirar, porque nas cidades o ar puro é, como o silêncio, um artigo de luxo;

e que também é perigoso nascer, porque a cada três segundos morre uma criança que não chegou viva aos cinco anos de idade.