Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 62 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 16

As chamadas pinturas negras ocupam, agora, uma das salas mais visitadas do museu.

– Isso, eu pinto para mim – havia dito Goya.

Ele não sabia que pintava para nós.

 

16

 

O canto profundo

No ano de 1881, Antonio Machado y Álvarez pôs o ponto final em sua antologia de cantos flamencos, novecentas quadras do cantar cigano da Andaluzia:

Eram insossas no antigo

todas as ondas do mar,

mas cuspiu minha morena

e se fizeram salgadas.

Têm, as que são morenas,

um olhar tão estranho,

que matam em uma hora

mais que a morte em um ano.

No dia em que nasceste

caiu um pedaço do céu.

E até que tu morras

o rombo fica lá, ao léu.

E o livro foi publicado, e recebido com desdém. O cante jondo, canto profundo, era digno de desprezo por ser cigano. Mas, por serem ciganas, as quadras trazem dentro de si a música, e em suas palmas e em seus pés.