Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 154 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 22

Quando saiu do cárcere, Girolamo anunciou:

– Vou morrer no dia 21 de setembro de 1576.

Desde que formulou a profecia, parou de comer.

E acertou.

 

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Dia sem Automóveis

Os ecologistas e outros irresponsáveis propõem que por um dia, no dia de hoje, os automóveis desapareçam do mundo.

Um dia sem automóveis? E se o exemplo se contagia e esse dia passa a ser todos os dias?

Que Deus não permita, e o Diabo tampouco.

Os hospitais e os cemitérios perderiam sua clientela mais numerosa.

As ruas se encheriam de ciclistas ridículos e patéticos pedestres.

Os pulmões já não poderiam respirar o mais saboroso dos venenos.

As pernas, que tinham se esquecido de caminhar, tropeçariam em qualquer pedrinha.

O silêncio aturdiria os ouvidos.

As autopistas seriam desertos deprimentes.

As rádios, as televisões, as revistas e os jornais perderiam seus mais generosos anunciantes.

Os países petroleiros ficariam condenados à miséria.

O milho e a cana-de-açúcar, agora transformados em comida de automóveis, regressariam ao humilde prato humano.

 

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