Os filhos dos dias
Capítulo 3
Em 1999, o governo das ilhas Canárias decidiu que nas escolas fosse estudado o idioma perpetuado pelo povo que o assovia.
Nos tempos de antigamente, os pastores da ilha de La Gomera se comunicavam assoviando, desde as montanhas distantes, graças aos barrancos que multiplicavam os ecos. E assim transmitiam mensagens e contavam o acontecido, notícias de quem tinha ido e de quem tinha vindo, os perigos e as alegrias, os trabalhos e os dias.
Passaram-se dois séculos, e nesta ilha os assovios humanos, invejados pelos pássaros, continuam sendo tão poderosos como as vozes do vento e do mar.
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Libertadoras brasileiras
Hoje terminou, em 1770, o reinado de Teresa de Benguela em Quariterê. Foi um dos santuários de liberdade dos escravos fugidos no Brasil. Durante vinte anos, Teresa enlouqueceu os soldados do governador de Mato Grosso. Não conseguiram apanhá-la viva.
Nos esconderijos da floresta, houve umas quantas mulheres que além de cozinhar e parir foram capazes de competir e de mandar, como Zacimba Gambá, no Espírito Santo, Mariana Crioula, no interior do Rio de Janeiro, Zeferina, na Bahia, e Felipa Maria Aranha, no Tocantins.
No Pará, nas margens do rio Trombetas, não havia quem discutisse as ordens de Mãe Domingas.
No vasto refúgio de Palmares, em Alagoas, a princesa africana Aqualtune governou uma aldeia livre, até que foi incendiada pelas tropas coloniais em 1677.
Ainda existe, e se chama Conceição das Crioulas, em Pernambuco, a comunidade que duas negras fugitivas, as irmãs Francisca e Mendecha Ferreira, fundaram em 1802.