Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 111 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 10

E assim os dedos mágicos de Vitalino contaram a tragédia e a festa da sua gente.

 

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A fabricação de romances

Neste dia aziago de 1844, os franceses ficaram sem nada para ler. A revista Le Siècle publicou o último dos dezesseis capítulos do romance de aventuras que a França inteira devorava.

Se acabou. E agora? Sem Os três mosqueteiros, que na verdade eram quatro, quem arriscaria a vida, a cada dia, pela honra de uma rainha?

O autor, Alexandre Dumas, escreveu essa obra, e trezentas outras, num ritmo de seis mil palavras por dia. Os invejosos diziam que essa façanha de atletismo literário era possível graças ao seu costume de assinar páginas alheias, roubadas de outros livros ou mal pagas aos operários da pluma que trabalhavam para ele.

Talvez seus banquetes intermináveis, que inflavam sua pança e esvaziavam seus bolsos, o obrigassem a produzir, em série, obras de encomenda.

O governo francês pagou a ele, por exemplo, o romance Montevidéu ou a Nova Troia. Suas páginas foram dedicadas aos heroicos defensores desse porto que Adolphe Thiers chamava de a nossa colônia de Montevidéu, e que Dumas não conhecia nem de ouvir falar. A obra precisava outorgar alturas épicas à defesa do porto contra os homens da terra, aqueles peões descalços que Dumas chamou de selvagens açoites da Civilização.

 

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