Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 57 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 7

Travessia da noite

Em certas aldeias perdidas nas montanhas da Guatemala, mãos anônimas criam bonequinhos das preocupações.

Eles são um santo remédio contra as preocupações: despreocupam os preocupados e os salvam da peste da insônia.

Os bonequinhos das preocupações não dizem nada. Eles curam escutando. Agachados debaixo do travesseiro, escutam os pesares e os penares, as dúvidas e as dívidas, tormentos que acossam o dormir humano, e magicamente levam tudo para longe, muito longe, até o lugar secreto onde nenhuma noite é inimiga.

 

7

 

A conta do doutor

Há três mil e setecentos anos, o rei da Babilônia, Hamurabi, estabeleceu por lei as tarifas médicas, ditadas pelos deuses:

Se o médico curou com sua lanceta de bronze uma ferida grave ou o abscesso em um olho de um homem livre, receberá dez shekels de prata.

Se o paciente é de família pobre, o médico receberá cinco shekels de prata.

Se o paciente é escravo de um homem livre, seu senhor pagará ao médico dois shekels de prata.

Serão cortadas as mãos do médico se o seu tratamento tiver causado a morte de um homem livre ou provocado a perda de um olho.

Se o tratamento causou a morte do escravo de um homem pobre, o médico lhe entregará um escravo seu. Se o tratamento tiver causado a perda de um olho do escravo, o médico pagará a metade do preço do escravo.