Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 182 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 8

Em 1619, René Descartes, ainda muito jovem, sonhou muito numa noite só.

Pelo que contou, no primeiro sonho caminhava torto e não conseguia se endireitar, lutando a duras penas contra o vento que violentamente o empurrava para o colégio e para a igreja.

No segundo sonho, um raio o arrancava da cama e o quarto se enchia de chispas que iluminavam tudo.

E no terceiro, ele abria uma enciclopédia, procurando um caminho para seguir na vida, mas faltavam páginas na enciclopédia.

 

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Imigrantes legais

Em avião particular voaram até Monterrey.

E lá iniciaram, no ano de 2008, sua turnê triunfal. Foram declarados hóspedes de honra, e em nove carruagens passearam pelas avenidas.

Pareciam políticos triunfantes, mas não. Eram múmias. As múmias das vítimas da peste do cólera, que fazia mais de um século e meio tinha devastado a cidade de Guanajuato.

Onze mulheres, sete homens, cinco crianças e uma cabeça sem corpo, todos vestidos de festa, atravessaram a fronteira. Embora fossem múmias mexicanas, ninguém lhes pediu passaporte, nem foram acossadas pelos agentes de imigração.

E tranquilamente continuaram a viagem rumo a Los Angeles, Las Vegas e Chicago, onde desfilaram, ovacionadas, debaixo de arcos de flores.

 

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