Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 83 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 21

Afinal das contas, para que servem as máquinas, se não for para reduzir o tempo de trabalho e ampliar nossos espaços de liberdade? Por que o progresso tecnológico precisa nos dar desemprego e angústia?

Por uma vez, ao menos, houve um país que se atreveu a desafiar tanto absurdo.

Durou pouco, a lucidez. A lei das trinta e cinco horas morreu dez anos depois.

 

21

 

Dia da Diversidade Cultural

Em 1906, um pigmeu caçado na selva do Congo chegou ao zoológico do Bronx, em Nova York.

Foi chamado de Ota Benga, e foi exibido ao público, numa jaula, junto com um orangotango e quatro chimpanzés. Os especialistas explicavam ao público que aquele humanoide podia ser o elo perdido, e para confirmar essa suspeita o mostravam brincando com seus irmãos peludos.

Algum tempo depois, o pigmeu foi resgatado pela caridade cristã.

Fez-se o que foi possível, mas não teve jeito. Ota Benga se negava a ser salvo. Não falava, quebrava os pratos na mesa, batia em quem quisesse tocar nele, era incapaz de fazer qualquer trabalho, ficava mudo no coro da igreja e mordia quem queria se fotografar com ele.

No final do inverno de 1916, depois de dez anos de domesticação, Ota Benga sentou-se na frente do fogo, se despiu, queimou a roupa que era obrigado a vestir e apontou para o coração a pistola que havia roubado.

 

Tintim entre os selvagens