Os filhos dos dias
Capítulo 16
Em Cuzco, em 1934, Hugo Blanco nasceu pela primeira vez.
Chegou a um país, o Peru, partido em dois.
Ele nasceu no meio.
Era branco, mas se criou num povoado, Huanoquite, onde seus companheiros de brincadeiras e andanças falavam quéchua, e foi para uma escola em Cuzco, onde os índios não podiam caminhar pelas calçadas, reservadas a gente decente.
Hugo nasceu pela segunda vez quando tinha dez anos de vida. Na escola, recebeu notícias de seu povoado, e ficou sabendo que dom Bartolomé Paz havia marcado um peão índio com ferro em brasa. Esse dono de terras e gentes havia marcado a fogo suas iniciais, BP, na bunda do peão, chamado Francisco Zamata, porque ele não tinha cuidado bem das vacas da sua propriedade.
O fato não era tão anormal, mas essa marca marcou Hugo para sempre.
E com o passar dos anos, foi-se fazendo índio esse homem que não era, e organizou os sindicatos camponeses e pagou com pauladas e torturas e cárcere e acosso e exílio a desgraça escolhida.
Numa de suas catorze greves de fome, quando já não aguentava mais, o governo, comovido, mandou para ele, de presente, um ataúde.
16
Um investigador da vida
Como era muito míope, não teve outro jeito a não ser inventar lentes que fundaram a ótica moderna e um telescópio que descobriu uma estrela nova.
E como era muito olhador, olhando um floco de neve na palma da sua mão viu que a alma do gelo era uma estrela de seis pontas, seis, como seis são os lados dos favos das abelhas em suas colmeias, e com os olhos de sua razão viu que a forma hexagonal sabe usar o espaço da melhor maneira.