Os filhos dos dias
Capítulo 25
Myrna havia cometido uma busca proibida. Apesar das ameaças, havia se metido nas selvas e nas montanhas onde perambulavam, exilados em seu próprio país, os indígenas que tinham sobrevivido às matanças militares. E havia recolhido suas vozes.
Em 1989, num congresso de ciências sociais, um antropólogo dos Estados Unidos havia se queixado da pressão das universidades que obrigavam a produzir continuamente:
– Em meu país – disse ele –, se você não publica, morre.
E Myrna disse:
– Em meu país, se você publica, morre.
Ela publicou.
Foi morta a punhaladas.
25
Por favor, não me salvem
Nestes dias de 1951, Mohamad Mossadegh foi eleito primeiro-ministro do Irã, por esmagadora maioria de votos.
Mossadegh tinha prometido que devolveria ao Irã o petróleo que havia sido dado de presente ao império britânico, e pôs mãos à obra.
Mas a nacionalização do petróleo podia gerar um caos propício à penetração comunista. E então o presidente Eisenhower ordenou o ataque e os Estados Unidos salvaram o Irã: em 1953, um golpe de Estado mandou Mossadegh para a cadeia, mandou para o cemitério muitos de seus seguidores e outorgou às empresas norte-americanas quarenta por cento do petróleo que Mossadegh havia nacionalizado.
No ano seguinte, muito longe do Irã, o presidente Eisenhower deu outra ordem de ataque e os Estados Unidos salvaram a Guatemala. Um golpe de Estado derrubou o governo de Jacobo Arbenz, democraticamente eleito, porque ele havia expropriado as terras não cultivadas da United Fruit Company e estava gerando um caos propício à penetração comunista.