Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 68 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 25

Myrna havia cometido uma busca proibida. Apesar das ameaças, havia se metido nas selvas e nas montanhas onde perambulavam, exilados em seu próprio país, os indígenas que tinham sobrevivido às matanças militares. E havia recolhido suas vozes.

Em 1989, num congresso de ciências sociais, um antropólogo dos Estados Unidos havia se queixado da pressão das universidades que obrigavam a produzir continuamente:

– Em meu país – disse ele –, se você não publica, morre.

E Myrna disse:

– Em meu país, se você publica, morre.

Ela publicou.

Foi morta a punhaladas.

 

25

 

Por favor, não me salvem

Nestes dias de 1951, Mohamad Mossadegh foi eleito primeiro-ministro do Irã, por esmagadora maioria de votos.

Mossadegh tinha prometido que devolveria ao Irã o petróleo que havia sido dado de presente ao império britânico, e pôs mãos à obra.

Mas a nacionalização do petróleo podia gerar um caos propício à penetração comunista. E então o presidente Eisenhower ordenou o ataque e os Estados Unidos salvaram o Irã: em 1953, um golpe de Estado mandou Mossadegh para a cadeia, mandou para o cemitério muitos de seus seguidores e outorgou às empresas norte-americanas quarenta por cento do petróleo que Mossadegh havia nacionalizado.

No ano seguinte, muito longe do Irã, o presidente Eisenhower deu outra ordem de ataque e os Estados Unidos salvaram a Guatemala. Um golpe de Estado derrubou o governo de Jacobo Arbenz, democraticamente eleito, porque ele havia expropriado as terras não cultivadas da United Fruit Company e estava gerando um caos propício à penetração comunista.