Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 204 de 214

Páginas do PDF

Os filhos dos dias

Capítulo 13

Muito depois de engendrar Jesus, a Virgem Maria viajou para o México.

Chegou no ano de 1531. Apresentou-se chamando a si mesma de Virgem de Guadalupe, e por afortunada coincidência a visita aconteceu no lugar exato onde Tonantzin, a deusa-mãe dos astecas, tinha seu templo.

A Virgem de Guadalupe passou a ser, a partir de então, a encarnação da nação mexicana: Tonantzin vive na Virgem, e o México e Jesus têm a mesma mãe.

No México, como em toda a América, os deuses proibidos se meteram nas divindades católicas, pelos caminhos do ar, e em seus corpos residem.

Tlaloc chove em São João Batista, e em São Isidro Lavrador floresce Xochipilli.

Tatá Dios é o Pai Sol.

Tezcatlipoca, Jesus crucificado, aponta, lá da cruz, os quatro rumos em que sopram os ventos do universo indígena.

 

13

 

Dia do Canto Coral

Em 1589, o papa Sisto V decidiu que os castrados cantassem na Basílica de São Pedro.

Para que os cantores fossem cantoras, sopranos capazes de notas agudas e gorjeios sem pausa, mutilavam seus testículos.

Durante mais de três séculos, os castrados ocuparam o lugar das mulheres nos coros das igrejas: estavam proibidas as pecadoras vozes das filhas de Eva, que sujavam a pureza dos templos.