Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 163 de 214

Páginas do PDF

Os filhos dos dias

Capítulo 7

Em 1547, quando sentiu que a morte estava fazendo cócegas, Hernan Cortez mandou que o sepultassem no México, no convento de Coyoacán, que honraria sua memória. Quando morreu, o convento ainda era um vir a ser, e o defunto precisou ser alojado em diversos endereços de Sevilha.

Finalmente conseguiu lugar num navio que o levou para o México, onde encontrou residência, junto à sua mãe, na igreja de São Francisco de Texcoco. Dali passou a outra igreja, junto ao último de seus filhos, até que o vice-rei ordenou que se mudasse para o Hospital de Jesus e ficasse por lá, guardado em lugar secreto, a salvo dos patriotas mexicanos loucos de vontade de profaná-lo.

A chave da urna foi passando de mão em mão, de frei em frei, durante mais de um século e meio, até que, não faz muito tempo, os cientistas mortólogos confirmaram que aquela péssima dentadura e aqueles ossos marcados pela sífilis eram tudo o que sobrou do corpo do conquistador do México.

Da alma, ninguém sabe nada. Dizem que dizem que Cortez tinha encarregado essa tarefa a um almeiro de Usumacinta, um índio chamado Tomás, que tinha um almário onde guardava, em vidrinhos, as almas idas no último suspiro; mas isso jamais pôde ser confirmado.

 

7

 

As últimas viagens de Pizarro

Os cientistas que identificaram Hernan Cortez também confirmaram que Francisco Pizarro reside em Lima. É dele essa ossatura, crivada pelas estocadas e amassada pelos golpes, que atrai os turistas.

Pizarro, criador de porcos na Espanha e marquês na América, foi assassinado em 1541 por seus colegas conquistadores, quando heroicamente disputavam o butim do império dos incas.