Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 114 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 15

 

Uma cerimônia de exorcismo

Nesta noite de 1950, véspera da final da Copa do Mundo, Moacir Barbosa dormiu embalado pelos anjos.

Era o homem mais amado do Brasil inteiro.

Mas, no dia seguinte, o melhor goleiro do mundo passou a ser um traidor da pátria: Barbosa não tinha sido capaz de agarrar o gol uruguaio que arrebatou do Brasil a taça do mundo.

Treze anos depois, quando o estádio do Maracanã renovou seus arcos, Barbosa levou com ele os três pedaços de madeira onde aquele gol o havia humilhado. E partiu a madeira a machadadas, e queimou tudo até tudo virar cinza.

O exorcismo não o salvou da maldição.

 

16

 

Meu querido inimigo

A camisa do Brasil era branca. E nunca mais foi branca, desde que a Copa de 50 demonstrou que essa era a cor da desgraça.

Duzentas mil estátuas de pedra no Maracanã: a final tinha acabado, o Uruguai era o campeão do mundo, e o público não se mexia.

No campo, alguns jogadores ainda perambulavam.

Os dois melhores, Obdúlio e Zizinho, se cruzaram.

Se cruzaram, se olharam.