Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 148 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 13

Cuidado com o militarismo. Somos militantes armados, não somos militares. A alegria de viver está acima de tudo.

As ideias não vivem apenas na cabeça. Elas vivem também na alma e no coração e no estômago e em todo o resto.

É preciso escutar as pessoas, aprender das pessoas. Não escondam nada do povo. Não contem mentiras: denunciem as mentiras. Não ponham máscaras nas dificuldades, nos erros, nas quedas. Não cantem vitórias fáceis.

Em 1973, Amilcar Cabral foi assassinado.

Não pôde celebrar a independência dos novos países que ele tanto havia ajudado a nascer.

 

13

 

O viajante imóvel

Se não me engano, em 1883 nasceu Sandokan, príncipe e pirata, tigre da Malásia.

Sandokan brotou da mão de Emilio Salgari, como outros personagens que acompanharam a minha infância.

O pai, Emilio Salgari, havia nascido em Verona, e nunca navegou além da costa italiana. Nunca esteve no golfo de Maracaibo, nem na selva de Iucatã, nem nos portos de escravos da Costa do Marfim, nem conheceu os pescadores de pérolas das ilhas Filipinas, nem os sultões do Oriente, nem os piratas do mar, nem as girafas da África, nem os búfalos do Velho Oeste.

Mas graças a ele, eu sim, estive, eu sim, conheci.

Quando minha mãe não me deixava ir além da esquina de casa, os romances de Salgari me levaram a navegar os sete mares do mundo e outros mares mais.