Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 78 de 214

Páginas do PDF

Os filhos dos dias

Capítulo 11

 

O faz-tudo

Eugène François Vidocq morreu em Paris, em 1857.

Desde que havia assaltado, aos catorze anos, a padaria de seu pai, Eugène foi ladrão, saltimbanco, espadachim, soldado desertor, contrabandista, mestre-escola louco pelas menininhas, ídolo dos bordéis, empresário, delator, espião, criminologista, especialista em balística, diretor da Sûreté Générale, a polícia francesa de investigações, e fundador da primeira agência de detetives privados.

Vinte vezes se bateu em duelo e fugiu de cinco prisões, transformado em freira ou mutilado de guerra. Foi um mago do disfarce, delinquente disfarçado de polícia, polícia disfarçado de delinquente, e foi amigo de seus inimigos e inimigo de seus amigos.

Sherlock Holmes e outros famosos detetives da literatura europeia devem boa parte de suas habilidades aos truques que Vidocq aprendeu praticando o crime e que depois aplicou para combatê-lo.

 

12

 

Os sismógrafos vivos

No ano de 2008, um terremoto feroz sacudiu a China.

Fazia dezenove séculos que o sismógrafo tinha sido inventado na China, mas nenhum sismógrafo avisou o que ia acontecer.

Quem avisou foram os animais. Os cientistas não prestaram a menor atenção a eles. Dias antes da catástrofe, multidões de sapos enlouquecidos desandaram a correr rumo a lugar nenhum, e a toda velocidade atravessaram as ruas de Miauzhu e de outras cidades, enquanto no zoológico de Wuhan os elefantes e as zebras atacavam as barras das jaulas e os tigres rugiam e os pavões gritavam.