Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 22 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 7

Pela sua voz cantavam o sonoro silêncio dos tempos passados, a festa e a fúria dos escravos guerreiros que durante séculos tinham enlouquecido seus amos ingleses nas montanhas da Jamaica.

 

7

 

O oitavo raio

Roy Sullivan, um guarda-florestal da Virgínia, nasceu em 1912, neste dia 7, e sobreviveu a sete raios durante seus setenta anos de vida;

em 1959, um raio arrancou a unha de um dedo de seu pé;

em 1969, outro raio desapareceu com suas sobrancelhas e seus cílios;

em 1970, outro raio torrou seu ombro esquerdo;

em 1972, outro raio o deixou careca;

em 1973, outro raio queimou suas pernas;

em 1976, outro raio abriu seu tornozelo;

em 1977, outro raio calcinou seu peito e seu ventre.

Mas não caiu do céu o raio que em 1983 abriu sua cabeça.

Dizem que foi uma palavra, ou um silêncio, de mulher.

Dizem.

 

8

 

A beijação geral

Em 1980 explodiu na cidade brasileira de Sorocaba uma insólita manifestação popular.

Em plena ditadura militar, uma ordem judicial havia proibido os beijos que atentavam contra a moral pública. A sentença do juiz Manuel Moralles, que castigava esses beijos com cadeia, os descrevia assim: