Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 150 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 16

Os magos de Wall Street, especialistas em vender castelos no ar, roubaram milhões de casas e de empregos, mas um único banqueiro foi preso. E, quando imploraram aos berros uma ajudinha pelo amor de Deus, receberam, pelo mérito de seu labor, a maior recompensa jamais concedida na história humana.

Essa dinheirama teria bastado para alimentar todos os famintos do mundo, com sobremesa e tudo, daqui até a eternidade. Ninguém pensou nisso.

 

16

 

Baile de máscaras

Às duas da manhã de hoje, no ano de 1810, Miguel Hidalgo gritou o grito que abriu caminho para a independência do México.

Quando o grito ia cumprir um século, em 1910, o ditador Porfirio Díaz antecipou em um dia a celebração, para que coincidisse com o seu aniversario; e o Centenário foi uma enorme festança.

A cidade do México, lustrada e maquiada, recebeu os distintos convidados de mais de trinta países, chapéus de copa, chapéus de plumas, leques, luvas, ouros, sedas, discursos... O Comitê de Damas escondeu os mendigos e calçou os meninos de rua. Os índios foram vestidos, calças distribuídas de graça, enquanto era proibido o ingresso dos que vestiam seus tradicionais calções de estopa. Dom Porfírio colocou a pedra fundamental do cárcere de Lecumberri, e solenemente inaugurou o Manicômio Geral, com capacidade para mil loucos.

Um desfile impressionante relatou a história nacional. Um aluno da Escola Dentária representou Hernan Cortez, o primeiro voluntário que veio para melhorar a raça, e um índio triste desfilou disfarçado de imperador Montezuma. Uma corte francesa, ao estilo Luís XVI, ocupou o carro alegórico que arrancou mais ovação.