Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 109 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 7

Hoje foi batizado, em 1810, em Connecticut, um bebê chamado Phineas Barnum.

Já maiorzinho, fundou o mais famoso dos circos.

O circo começou sendo um museu de esquisitices e monstruosidades, que atraía multidões:

se inclinavam diante de uma escrava cega, que tinha 161 anos de idade e havia dado de mamar a George Washington,

beijavam a mão de Napoleão Bonaparte, que media 64 centímetros de altura,

e comprovavam que estavam bem grudadinhos os irmãos siameses Chang e Eng, e que as três sereias tinham autênticos rabos de peixe.

Barnum foi o homem mais admirado pelos políticos profissionais de todos os tempos. Ele levou à prática, melhor que ninguém, seu grande descobrimento: as pessoas gostam de ser enganadas.

 

7

 

Fridamania

Em 1954, uma manifestação comunista percorreu as ruas da Cidade do México.

Frida Kahlo estava lá, de cadeira de rodas.

Foi a última vez em que foi vista viva.

Morreu, sem ruído, pouco depois.

E se passaram uns quantos anos até que a fridamania, tremendo alvoroço, a despertou.

Ressurreição ou negócio? É isso o que merecia uma artista alheia a qualquer exitismo e ao lindismo, autora impiedosa de autorretratos que a mostravam sobrancelhuda e bigoduda, crivada de agulhas e alfinetes, apunhalada por trinta e duas operações?