Os filhos dos dias
Capítulo 22
O voo de uma moeda decidiu quem seria carcereiro e quem seria prisioneiro num cárcere fictício, inventado nos porões da universidade.
Os prisioneiros, desarmados, eram números sem nomes. Os carcereiros, nomes sem números, tinham um cassetete.
Parecia uma brincadeira, mas desde o primeiro dia os que faziam o papel de carcereiros começaram a sentir o gostinho. A licença para ir ao banheiro só era concedida depois de muito rogar, os presos dormiam nus no chão de cimento; e era em celas de castigo, sem comer nem beber, que pagavam pela insolência de falar em voz alta.
Golpes, insultos, humilhações: durou pouco a experiência. Só uma semana. No dia de hoje de 1971, foi dada por concluída.
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A melhor mão de obra
O sacerdote francês Jean-Baptiste Labat recomendava num de seus livros, publicado em 1742:
Os meninos africanos de dez a quinze anos são os melhores escravos para se levar para a América. Tem-se a vantagem de educá-los para que marquem o passo como melhor convenha aos seus amos. Os meninos esquecem com mais facilidade seu país natal e os vícios que lá reinam, se encarinham com seus amos e estão menos inclinados à rebelião que os negros mais velhos.
Esse piedoso missioneiro sabia do que falava. Nas ilhas francesas do mar do Caribe, Père Labat oferecia batismos, comunhões e confissões, e entre missa e missa vigiava suas propriedades. Ele era dono de terras e escravos.