Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 126 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 6

Pinóquio tinha sido criado pelo carpinteiro Gepeto, que tinha sido criado pelo escritor Carlo Collodi. Assim que Gepeto fez as mãos, mãos de pinho, o boneco sumiu com a sua peruca, deixando em evidência sua cabeça calva. E assim que fez as pernas, Pinóquio se mandou correndo e o denunciou para a polícia.

Collodi já estava farto dos descalabros desse insuportável mequetrefe, quando decidiu enforcá-lo, e o deixou pendurado num galho de azinheiro.

Mas pouco depois, forçado pelas crianças da Itália inteira, não teve outro remédio a não ser ressuscitá-lo; e esse foi o seu segundo nascimento.

O terceiro nascimento levou mais uns tantos anos. Em 1940, Walt Disney o batizou em Hollywood. Pinóquio emergiu de uma geleia de mel e de lágrimas, e voltou à vida, milagrosamente bonzinho.

 

6

 

A bomba de Deus

Em 1945, enquanto este dia nascia, Hiroshima morria. Na estreia mundial da bomba atômica, a cidade e sua gente viraram carvão num instante.

Os poucos sobreviventes perambulavam, mutilados, sonâmbulos, no meio das ruínas fumegantes. Andavam nus, e em seus corpos as queimaduras haviam estampado as roupas que usavam quando houve a explosão. Nos restos das paredes, o relâmpago do fogo da bomba atômica tinha deixado impressas as sombras do que houve: uma mulher com os braços erguidos, um homem, um cavalo amarrado...

Três dias depois, o presidente Harry Truman falou pelo rádio.

Disse: