Os filhos dos dias
Capítulo 4
Mas se chover, as gralhas não aparecem, no céu não há ponte que una os desunidos e na terra não há festa que celebre as artes do amor e da agulha.
4
Roupa que conta
Uns dois mil anos atrás, foi aniquilada a grande cidade dos miaos.
Conforme revelaram antigos manuscritos chineses, em algum lugar da vasta planície dos rios Amarelo e Yangtsé havia uma cidade onde viviam pessoas que têm asas e se chamam Miao.
Existem quase dez milhões de miaos na China atual. Falam uma língua que nunca teve escrita, mas vestem roupas que contam sua grandeza perdida. Com fios de seda tecem a história de suas origens e seus êxodos, seus nascimentos e seus funerais, as guerras dos deuses e dos homens, e também a monumental cidade que já não existe:
– Nós a levamos na roupa – diz um dos velhos mais velhos. – A porta fica no capuz. As ruas percorrem a capa inteira, e nas ombreiras florescem nossas hortas.
5
O mentiroso que nasceu três vezes
Em 1881, quando mal tinha dois meses de vida, Pinóquio já era o ídolo da infância italiana.
O livro que contava suas aventuras vendia como se fosse bombom.