Os filhos dos dias

Eduardo Galeano · Capítulo 33 de 214

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Os filhos dos dias

Capítulo 26

E elas e eles foram proibidos de sua religião e de suas cerimônias, que ofendiam Deus, e a sua tradicional mania de se governar ao seu modo e maneira.

Em 1925, na noite do dia 25 do mês das iguanas, os kunas passaram à faca todos os policiais que os proibiam de viver sua vida.

Desde então, as mulheres kunas continuam usando argolas nos narizes pintados, e continuam vestindo suas molas, esplêndida arte de uma pintura que usa agulha e linha em vez de pincel. E elas e eles continuam celebrando suas cerimônias e suas assembleias, nas duas mil ilhas onde defendem, por bem ou por mal, seu reino compartilhado.

 

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África minha

No final do século XIX, as potências coloniais europeias se reuniram, em Berlim, para repartir a África.

Foi longa e dura a luta pelo butim colonial, as selvas, os rios, as montanhas, os solos, os subsolos, até que as novas fronteiras fossem desenhadas e no dia de hoje de 1885 fosse assinada, em nome de Deus Todo-Poderoso, a Ata Geral.

Os amos europeus tiveram o bom gosto de não mencionar o ouro, os diamantes, o marfim, o petróleo, a borracha, o estanho, o cacau, o café e o óleo de palmeira,

proibiram que a escravidão fosse chamada pelo seu nome,

chamaram de sociedades filantrópicas as empresas que proporcionavam carne humana ao mercado mundial,

avisaram que atuavam movidos pelo desejo de favorecer o desenvolvimento do comércio e da Civilização,

e, caso houvesse alguma dúvida, explicaram que atuavam preocupados em aumentar o bem-estar moral e material das populações indígenas.